Ano 14 Nº 27/2026 Heimweh: anseio pelo lar e resistência

Melina Rosa Cesarino¹

Ao começar o ano letivo na faculdade, ocorre a saída de um lar, seja na mesma cidade, ao deixar a escola antiga — antes um espaço em que se cultivava o carinho entre amigos e professores —, seja ao deixar o município, o estado ou até o país, despedindo-se da família.

Nesse sentido, ir para um ambiente completamente novo é composto por um voltar, por exemplo, em pensamentos como: “O que a minha mãe está fazendo lá na minha cidade enquanto eu estou no Restaurante Universitário?”. Ou, ainda, na vivência de um aluno com menor poder aquisitivo, oriundo de um ambiente rural e de uma escola multisseriada, que, no começo do semestre, precisa lidar com deboches em razão de seu preparo escolar, mesmo não tendo tido as mesmas oportunidades que seus novos colegas de colégios particulares. O mesmo, vindo da pequena escola, contudo, recorda-se de um tempo transcorrido regado por afeição.

Nesse viés, esse movimento retrógrado que permeia a mente dos estudantes é constante. Na esfera acadêmica, por mais que esta envolva discussões sociais importantes em suas provas de redação de vestibular, como o combate ao etarismo, ainda se notam, infelizmente, inúmeras formas de intolerância, como o racismo, o sexismo e a aporofobia vivenciada por jovens de comunidades carentes, por exemplo, estudantes de coletividades rurais comuns no Sul do Brasil.

No idioma alemão, a palavra “Heimweh”, mesmo que não exista uma palavra específica para “saudade” nesse idioma – tão extraordinário quanto a língua materna do Brasil -, significa anseio pelo lar. Diante dessa breve tradução, contemplando-se o campo universitário, a falta de pertencimento à comunidade acadêmica, ao se enfrentar a violência, fomenta o “Heimweh”, mas é por meio deles que surgem mensagens carinhosas e videochamadas para uma rede de apoio, mesmo que pequena. Dessa forma, ao sentir a ausência e a mudança física, o desabafo é impulsionado a encontrar acolhimento em uma comunidade cativada antes do ” ir”. Logo, diante do regressar, é possível ver o quanto é executável o avançar e resistir aos impasses que pairam essa permutação de horizontes na vida humana.

¹Uma estudante que também sente falta de casa.

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