Ano 14 Nº 31/2026 o Perifesto
Mario Garcia¹

Acho que ler Bourdieu, Dubet, Marx, Malcolm e esses outros doidos esteja me dando ideias de grandeza — ou talvez eles estejam apenas ressoando com a grandeza que já existe em mim.
Grandeza que o sistema insiste em desmerecer, insiste em silenciar, insiste em marginalizar, em surrar só para ver até onde a gente aguenta e, depois disso, inverter a narrativa: colocam o “espécime raro” em uma jaula e o exibem como “o curioso caso do marginal que furou a bolha através do esforço”.
Mas não alimenta muito, não. Se a gente quiser que ele dance para nós, precisa mantê-lo em uma situação minimamente confortável: não pode colocar minhoquinhas demais na cabeça dele, porque ele começa a questionar; mas também não pode deixá-lo à míngua, porque ele reclama.
Deixa-o no limiar entre o ser e o estar — para que seja visto, mas não esteja presente.
Deixa que seja visível o suficiente para ser exibido, mas invisível o bastante para não incomodar.
Deixa que dance, mas não deixa que fale.
Deixa que brilhe, mas não que ofusque.
Deixa-o presente o suficiente para ser cota, mas ausente o bastante para não fazer diferença.
— Aah, mas lá vem o chato palestrinha falar de desigualdade social, sendo que nunca leu um livro na vida! —
Isso é verdade…
Na real, nunca precisei de um livro para sentir na pele o que vocês só começaram a compreender depois, observando de longe.
Antes de Marx, eu já via a exploração.
Antes de Bourdieu, eu já sabia o que era carregar o estigma no corpo.
Antes de Dubet, eu já vivia o sofrimento de injustiça disfarçada de mérito.
Antes de Malcolm, eu já tinha entendido que a dignidade é uma afronta.
Esses e outros malucos só colocaram nome nessas feridas, só organizaram o que o corpo já gritava.
Só me deram o vocabulário necessário para expressar toda a raiva que sempre esteve presente no meu espírito.
E é isso que o sistema nunca vai aceitar: o fato de eu existir com consciência, ao mesmo tempo que penso com raiva, mas não uma raiva destrutiva, como é de se esperar de “alguém como eu”.
Uma raiva de quem sabe que este mundo não é natural.
Porque, no fundo, o que mais assusta a estrutura não é o sujeito periférico cegamente enraivecido, que se debate, grita e pula como um animal enjaulado, quase como se performasse uma dança exótica.
O que assusta é o sujeito periférico que, mesmo nesse estado enraivecido, consegue ler, pensar e falar — trazendo o peso de quem não deveria ser, mas está.
Não para entreter, mas para destoar.
¹Mario Garcia (@theblackboyart) é pesquisador e mestrando em Ensino pela UNIPAMPA. Oriundo da periferia bageense, dedica-se a refletir sobre educação, desigualdade, identidade e resistência, articulando vivências populares com a produção acadêmica, artística e literária. Sem se prender a uma única escola estética, vale-se da cadência periférica e da cultura hip-hop para construir narrativas profundas e críticas contundentes ao sistema.
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