Ano 14 Nº 25/2026 Liberdade: de que forma?

Erykah Rodrigues dos Santos Iturriet¹

Foto de Unseen Histories na Unsplash

A Liberdade construiu uma casa lá em cima
Uma casa com colunatas
Uma casa grande que foi condecorada com um campo de batalha
Uma casa que é a sua conquista

No entanto, na entrada da casa
Sou recusada, rejeitada, reprimida
Sinto-me atingida na testa
Com abjeção e vergonha

Que assim seja

Me afastarei dessa casa habitada apenas por ilusões e
engodos
Voltarei para o mar, rastejando se for preciso
Voltarei para as minhas águas e as minhas terras
E me vingarei
(“A liberdade”, Carranca, Urias, 2025)

13 de Maio marca a abolição da escravatura, quando a pequena princesinha alva, com seus jeitos álvares, assina uma cartinha alicerce para a falsa história de um povo, condecorado com engodos e mentiras. A pena e o nanquim compuseram a contradição máxima entre a vida e a morte brasileira, entre o negro e o branco, este o número dois que nunca se soma porque “assim seja”. Na fábrica de peixes da modernidade, a liberdade resplandece como um baiacu assustado, que incha quando amedrontado por outros peixinhos.

Tomada de supetão, encaro-me em retidão na escrita de uma liberdade que se expressa no princípio do que ser negra ensina: diligência, malandragem, construção e destruição de palavras que travam a língua e chicoteiam de volta mentiras, humilhações e portas nunca abertas. A perspectiva histórica, em seu sentido descritivo, perde o tesão, nos deixa pouco humanas quando tratamos do que nos dói. Apesar de, apesar de quem, apesar do que… permanecemos trotando nas margens de um litoral que nos aprisionou e que depois se tornou a nossa casa, ou melhor, que fizemos casa enquanto morávamos em nós mesmos, uns nos outros, de braços cruzados; comemos juntos por tempos irremediáveis.

A trança rende a cabeça que salta quando viramos o corpo; a capoeira, que espiralam o nosso andar nos desvios e golpes mais autocentrados das lutas; o respiro do batuque, que invade a energia e nos enche de axé… A quem devo o meu corpo, que nasce livre num ventre aprisionado? A quem devo a liberdade que construo sobre a minha morada? Quem ajudou, ou pretendo ajudar, ao gritar a palavra LIBERDADE para a rua ouvir? Como clamo a liberdade e de que maneira construímos o tanto que queremos e merecemos?

Essas parecem perguntas que se perdem nos horizontes atuais de uma política exterminacionista neoliberal da Casa Grande de terninho. Nossos movimentos, e todos eles, parecem encarcerados por uma cerca de ferro; enxergamos através do muro como um sonho irreconhecível, de tempos passados, de momentos de luta que “não voltam mais”, estruturas fortes o bastante para se esgueirar como enguias nos nossos braços e pernas, eletrocutando-nos a qualquer sinal de rebeldia.

A universidade tem paredes chapadas, e não dá boa; mas depressiva, angustiante, reprimida em si mesma, um prédio que fala tanto de morte quanto das palestras e dados estatísticos em seus órgãos de sala de aula. Das políticas e leis conquistadas, as lutas lá de fora invadem tão pouco as nossas paredes que nós parecemos produto de um outro processo, um que não se enxerga. Qual herança importa? As pulsões de um organismo de concreto totalmente branco, no máximo cinza. Nossa presença importa, é claro; nosso corpo é pedagógico ao transpor barreiras que colorem o inóspito deserto do capitalismo racista educacional. Mas a que custo? A que saúde mental? Quais barreiras de liberdade o nosso corpo paga por entregar tanto de nós mesmos a um processo emancipatório?

A gente costuma falar apenas do lado bom de se encarar enquanto sujeitos que mudam o mundo, mas como o nosso impacto na universidade impacta diretamente o nosso senso de liberdade? O que nos mantém em movimento, mesmo que as angústias se tornem imagens de cárcere? Quando as ideias dominantes se tornam correntes? Esse não é um texto sobre tristeza; pelo contrário, é uma potência que pretende prescrever, na minha desumilde opinião enquanto travesti negra: o paranauê é outro, é diferente, é contra-golpe, mas, acima de tudo, é ironia e deboche.

Um sentimento que me atravessa toda vez que imagino um novo rumo para o mundo, pelo trabalho e pelas ideias que nós tecemos, costurando em nós, de tricôs, a imensidão da vida terrena, é o da correria intermitente. Como se estivéssemos dentro de um túnel num mundo pós-apocalíptico, escutando os tambores no subsolo de nossos ancestrais, clamando para que nós não desistamos de seguir em frente. Mas estou sem fôlego, a sede me abate, a fome me amedronta; a escuridão da qual a gente tanto corre é o que nos abraça no final do túnel. A ilusão é que a luz pode nos salvar.

Nós, travestis, aprendemos a duras penas a nos colocar como a central de transição viva desse mundo, ora porque ou somos assim ou não poderíamos ser, ora porque somos centros de violência legitimados nos espaços que compõem o poder violento. Na universidade, então, sou violentada e violenta; batem a porta na minha cara como quem vê um monstro e tenta fugir, mas, quando eu invado a sala, tantos temem a minha presença que as correntes não são mais limitantes e se tornam armas. Quando bato na cabeça de professores, alunos, homens e mulheres cis, brancos e héteros, assumo um papel pedagógico: esta é a liberdade que lhes falta também! A liberdade de uma expressão irreconhecível no seu material cognitivo de mundo, de cultura, de ordinariedade. Ao tentarem nos colocar como algo extraordinário, nos reduzem a uma simplificação mental, a uma construção racista e sexista, a uma diferenciação sublime que nos toma como material de invenção.

Invenção por invenção, eu fico com a minha.

E a liberdade, meus amores? Invenção das brabas!

Bradam, a plenos pulmões, bênçãos sob o nome da liberdade, como um evangelho que carregam feito jargão, idealista que só, respirando ilusões de uma monocultura extensionista colonial, sobrepondo sonhos de inúmeros povos através de uma única bandeira, com uma única cor e concepção. Não precisamos de brancos e heterossexuais levando o mundo do racismo que eles construíram; precisamos deles do nosso lado, sim, mas ao lado; à frente quando é para tomar porrada, e atrás quando é para mudar o mundo de forma diferente.

Invoquei, em uma reunião, a responsabilidade do branco antirracista e do LGBT transaliado; contei-lhes, como um toque de mãe, que, em suas ações docentes e militantes, elus deveriam se posicionar à frente das posições de violência devido à centralização das dores nos nossos corpos negros e trans. Os olhos se arregalaram em surpresa, como se eu tivesse feito do indizível uma imagem fotográfica que torna estática a hipnose da mente. O silêncio silenciou a responsabilidade incoerente dos seus rumos de liberdade, deixando-me contando grilhões na cela das minhas possíveis ações a partir dali. Quantas pessoas ainda precisam ser estiradas sem vida na rua para que a energia se distribua em verdadeiro choque? Não esse choque do discurso, mas o choque da vida que se desfez num mar de sangue, seja ele estirado em pequenas partes de um corpo mutilado na BR, ou enfileirado numa comunidade e suas mães chorando ao terem perdido seus filhos para o Brasil.

Não somos livres sem o medo deles, não somos livres sem a sua incapacidade de nos entender, não somos livres até que nos provem a capacidade de construir um mundo diferente do que vivemos. A liberdade vira sonho quando ela é posta em termos que voam, mas, se a centrarmos no chão, reconhecemos que liberdade é poder ter a capacidade de escolha, e, desde a assinatura da leizinha, não temos a oportunidade de dizer algo que queremos sem nos deparar com inúmeros atravessamentos que, na verdade, filtram o nosso sonho de liberdade e o desmancham, de pouco em pouco, nessa vida.

Não podemos e nem queremos nos sentir livres quando estivermos a vinte palmos abaixo da terra. Nós merecemos a vida, assim como merecemos a morte tranquila. Um dos meus sonhos de liberdade é poder envelhecer enquanto uma travesti negra nesse país, sendo quem eu sou, podendo fazer o que eu gostaria de fazer, mas a liberdade ainda é um trabalho contínuo para que essa realidade se concretize.

Dos nossos sonhos de liberdade
fazemos revolução
contra aqueles que nos falam que sonhos
são apenas ideias sem corpo
Mal sabem eles
que a mente
é produzida pela carne que a gente carrega.

Ainda temos vontade de voar.

¹Erykah Rodrigues dos Santos Iturriet é travesti, bacharel em Sociologia pelo Centro Universitário Internacional  (UNINTER) e licencianda em Sociologia pelo mesmo, mestranda no PPG em Ensino da UNIPAMPA; Integrante do NEABI Oliveira Silveira. Email: ErykahRodrigues@outlook.com.

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