As Engrenagens do Invisível: do Capitalismo Escravista ao Racismo Estrutural

A Redenção de Cam – Autor: Modesto Brocos (1895) – Fonte: Wikipedia (2026)

A percepção humana não é um fenômeno puramente biológico, mas um reflexo das narrativas históricas e sociais armazenadas no subconsciente. Ao sermos convidados a imaginar cenas cotidianas, como uma cirurgia em um hospital ou a limpeza de um escritório, nosso “piloto automático” mental frequentemente projeta imagens que reproduzem hierarquias raciais profundas. Esse exercício de percepção visual revela que o racismo no Brasil não se limita a atos individuais de injúria, mas constitui uma estrutura que organiza a sociedade e molda o olhar coletivo. O racismo estrutural, portanto, é o fio condutor que normaliza desigualdades históricas, transformando a desumanização do passado em uma seletividade social presente, que dita quem ocupa os espaços de poder e quem é relegado à marginalidade (Arruda, 2021; Alves, 2022).

Para compreender essa estrutura, é imperativo analisar sua gênese, vinculada ao nascimento do capitalismo comercial no século XVI. Diferentemente do que se possa supor, a ideia de raça não antecedeu a exploração; ela foi “inventada” como uma justificativa ideológica para suprir a necessidade de mão de obra nas lavouras americanas (Alves, 2022; Fogagnoli, 2025; Santos; Viana, 2009). Esse sistema de dominação moderna foi sustentado pela “coesão do escravismo lusitano”, uma rede que envolvia a Coroa, comerciantes e a própria Igreja Católica. Por meio de bulas papais, como a Dum Diversas (1452) e a Romanus Pontifex (1455), o tráfico de seres humanos foi legitimado como uma missão de “salvação”, permitindo que a burguesia acumulasse capital enquanto pregava um discurso humanitário de liberdade apenas para os brancos europeus (Geledes, 2024). Estima-se que, desse processo, 4,8 milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil, fundamentando a economia nacional sobre o extermínio e a exploração.

A riqueza gerada por esse contingente foi a base do Estado e da aristocracia brasileira. Do Ciclo do Açúcar à Mineração, período em que o Brasil se tornou o maior produtor de ouro do mundo, o trabalho escravizado era onipresente, abrangendo desde ofícios urbanos até as insalubres charqueadas do Rio Grande do Sul (Porfírio, 2021). Contudo, o custo humano era devastador: enquanto a expectativa de vida dos colonizadores brancos girava entre 45 e 50 anos, a dos escravizados mal alcançava os 30 anos. Mesmo após séculos de exploração, a abolição, em 1888, não deve ser vista como um “presente” monárquico, mas como uma vitória da resistência negra e uma resposta ao colapso de um modelo econômico que se tornara insustentável diante das pressões internacionais e das revoltas internas, como os quilombos e as lutas abolicionistas lideradas por figuras como Luís Gama e José do Patrocínio (Fogagnoli, 2025).

No pós-abolição, o racismo se metamorfoseou-se em políticas de Estado deliberadas. Entre 1890 e 1930, o Brasil adotou a “Política do Branqueamento”, fundamentada em pseudociências como o Darwinismo Social e a Eugenia. O objetivo era promover uma “arianização demográfica”, incentivando a imigração europeia para ocupar postos de trabalho e excluir os negros recém-libertos, sob o pretexto de que estes seriam biologicamente inaptos ao mercado capitalista (Fogagnoli, 2025). Obras como “A Redenção de Cam” simbolizam essa ideologia, que buscava a diluição do “sangue negro” por meio da miscigenação seletiva (Seyferth, 1995). Embora o Brasil não tenha adotado leis de segregação como as dos Estados Unidos, estruturou um “apartheid ideológico” que invisibiliza saberes negros e mantém a branquitude no controle dos meios de produção.

Apesar dessas barreiras estruturais, a história brasileira é também uma crônica de “escrevivência” e excelência negra, conceito cunhado por Conceição Evaristo para descrever a escrita que nasce das vivências coletivas. Atualmente, diversas personalidades rompem o “epistemicídio” — a desqualificação do conhecimento negro — e reocupam espaços de prestígio. Exemplos como a Dra. Jaqueline Goes de Jesus, que coordenou o sequenciamento do genoma do coronavírus, e Sônia Guimarães, primeira física negra do ITA, demonstram que a competência intelectual negra é uma força motriz na ciência e na tecnologia. No campo político e social, vozes como a de Djamila Ribeiro e da Ministra Anielle Franco ampliam o debate sobre direitos humanos e “lugar de fala”, enquanto no esporte e na arte, figuras como Rebeca Andrade, Vini Jr. e Emicida transformam o reconhecimento internacional em palanque para o enfrentamento direto ao racismo.

Em suma, o racismo estrutural no Brasil é um edifício erguido sobre três pilares: o capital acumulado pelo tráfico transatlântico, o planejamento estatal de branqueamento e a manutenção contemporânea de privilégios que reserva aos negros os postos de trabalho mais precários. Superar esse cenário exige mais do que a consciência individual; demanda o reconhecimento de que a hierarquia racial ainda é a base da nossa sociabilidade. Somente através do fortalecimento de políticas de igualdade e da valorização das trajetórias de excelência negra será possível desconstruir o “piloto automático” da percepção social e edificar uma nação na qual a cor da pele deixe de ser um critério de classificação e passe a ser, enfim, apenas uma expressão da diversidade humana.

Referências

ALVES, Leonardo Dias. A divisão racial do trabalho como um ordenamento do racismo estrutural. Revista Katálysis, Florianópolis, v. 25, n. 2, p. 212‑221, maio/ago. 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-0259.2022.e84641. 

ARRUDA, Daniel Péricles. Dimensões subjetivas do racismo estrutural. Revista da ABPN, v. 13, n. 35, p. 493‑520, 2021. DOI: 10.31418/2177‑2770.2021. v13. n35. p 493‑520. 

FOGAGNOLI, Adriana Cardoso. Políticas de branqueamento no Brasil da Primeira República (1889‑1930): Mestiçagem como ideologia e a transmissão psíquica do impensável. 2025. 106 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. 

GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra. 1452–55: quando Portugal e Igreja Católica se uniram para reduzir praticamente todos os africanos à escravatura perpétua. Geledés, 2024. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/1452-55-quando-portugal-e-igreja-catolica-se-uniram-para-reduzir-praticamente-todos-os-africanos-escravatura-perpetua/>. Acesso em: 10 jun. 2026. 

PORFÍRIO, Fernando Matozinhos; BLULM, Luiz Felipe Magnago; SILVA, Ruth Stein. Os lucros da escravidão no Brasil e seu impacto econômico: uma abordagem histórica dos séculos XVI ao XIX. Revista Pet Economia Ufes, v. 2, ago. 2021. 

SANTOS, Cleito Pereira dos; VIANA, Nildo (orgs.). Capitalismo e questão racial. Rio de Janeiro: Corifeu, 2009. 128 p. ISBN 978‑85‑7794‑167‑4. 

SEYFERTH, Giralda. A invenção da raça e o poder discricionário dos estereótipos. Anuário Antropológico, Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995. p. 175‑184. 

WIKIPÉDIA. A Redenção de Cam. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Reden%C3%A7%C3%A3o_de_Cam. Acesso em: 10 jun. 2026.

Autor:

Mauricio Nunes Macedo de Carvalho – Professor no Bacharelado em Engenharia da Produção (UNIPAMPA); Graduado em Engenharia Elétrica (UFSM), Mestre em Engenharia da Produção (UFSM); Doutor em Engenharia da Produção e Sistemas (UNISINOS); Membro do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Coordenador do NEABI Oliveira Silveira (UNIPAMPA), Coordenador da Comissão de Avaliação Docente de Estágios Probatórios (UNIPAMPA). Coordenador do Comitê de Apoio Técnico  Equidade (CAT-Equidade UNIPAMPA). Coordenador de Tutoria do Curso de Extensão, Formação para docência e gestão para educação das relações étnico-raciais e quilombolas (UAB-UNIPAMPA). 

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