Ano 07 nº 058/2019 – Uma análise ao filme Meu nome é Ray, na perspectiva dos estudos de gênero e sexualidade

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Meu nome é Ray foi lançado no ano de 2015 com autoria e direção de Gaby Dellal. O filme conta a história de Ray, que nasceu como menina e chamava-se Ramona. Porém, Ray não se reconhece como tal e está lutando para conseguir a resignação de gênero. Ele tem uma família nada tradicional, mora com a mãe e suas duas avós (leia-se casal de avós). Seu pai não é presente na sua vida há muitos anos e ao decorrer do filme descobrimos que na verdade ele é filho do tio. Além de tentar a mudança de gênero, Ray também quer uma troca de vida total, escola, casa e convívios, já que onde ele vive todos ainda o reconhecem como Ramona.

Percebemos que o não se reconhecer no corpo que habita lhe torna muitos desconfortos, dentre estes a faixa que ele usa nos peitos para escondê-los e o uso do banheiro. Sempre que ele precisa usar o banheiro da escola, se retira e vai a um café próximo para usá-lo, já que lá não há demarcação de gênero na porta do mesmo. Isso afeta Ray porque sabemos que nossos corpos dizem muito sobre nós, Aristóteles dizia que corpo é aquilo que tem extensão em toda direção. Então, não podemos nos permitir viver, sentir e se envolver sem estarmos de acordo com o que temos em nós mesmos.

Ele vai a uma consulta médica para que a operação seja possível, saber quais são os procedimentos necessários e iniciar o processo. Sendo ele um menino magro, precisa inclusive ganhar peso, estando em perfeitas condições de saúde para que se realize com sucesso. O grande drama da história é que ele precisa da autorização dos pais para que a cirurgia seja feita e isso está sendo bem difícil para sua mãe. Seu pai, até o momento, desconhece todo esse desconforto e inclusive que sua filha, Ramona, virou Ray.

A mãe de Ray, apesar de apoiar e ter todo o cuidado com ele, como usar o artigo correto na hora de se referir ao filho, ainda está desconfortável com a situação da cirurgia e não consegue assinar a documentação. Sua avó, por outro lado, mesmo sendo homossexual, é contra. Dito pelo próprio neto, ela é muito conservadora para quem transa com outra mulher. Acreditamos que essa resistência da avó ocorra por ela ainda estar presa por discursos reproduzidos pelos sujeitos, que nos dizem que uma menina não pode mudar seu corpo para virar um menino.

Após Ray sofrer uma agressão, sua mãe percebe o quanto seu filho precisa dessa mudança e vai em busca do pai. O pai, dentre muitas das questões, se apresenta com o discurso baseado na mentalidade cristã, pois questiona se “a filha” não poderá mais engravidar se fizer procedimento. Ainda hoje, vemos muitas pessoas relacionar a sexualidade à reprodução. Não estamos dizendo que a reprodução é algo errado, defendemos apenas que é uma escolha, tanto para homossexuais quanto para heterossexuais. Sabendo que o pai resiste, Ray resolve procurá-lo para resolver logo a questão da liberação, neste momento há a ideia de associar à causa médica, ao que há cura. Quando ele liga para escritório pelo atraso, diz que: “Um dos meu filhos está doente, não vou poder ir ao escritório hoje.” Ray rebate na mesma hora que não é uma questão de doença. 

Gostaríamos de ressaltar que o discurso da irmã deixa claro que somos imersos a convenções e códigos que absorvemos ao decorrer da nossa existência. Quando ela questiona se o irmão é irmão ou irmã, e ele de uma forma simples explica que é menino, mas nasceu menina, o irmão menor pergunta: ‘’Eles podem resolver isso?’’ E a irmã maior diz: ‘’Eu sou uma menina que nasceu em um corpo de menina, eu acho.’’ 

Ou seja, percebemos nas crianças a inocência de querer resolver o problema dele e na outra, a dúvida se é realmente assim que é com ela. Não há regras e padrões se não absorvermos o que a sociedade reproduz, mas infelizmente isso é impossível de ser feito. Acabamos absorvendo verdades e depois precisamos desconstruí-las dia após dia por uma vida inteira.

Esperamos que haja mais casos como o do Ray, que conseguiu se libertar e procurar a sua verdade e a sua felicidade. Famílias que apoiem, que façam total diferença e que continuemos nessa desconstrução de estereótipos e categorização de tudo e tenhamos mais amor, a nós mesmos e ao próximo.

Se permitam serem o que vocês desejam ser, não o que falaram que vocês deviam ser!

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