OS RATOS

Um tumulto e um estado de confusão enchem a cabeça de Naziazeno. Tem apenas uma vaga ideia de que ganhou. O choque é tão brusco que não lhe fica tempo para se arrepender. É quando recebe o dinheiro que faz o cálculo: cinco mil-réis… cento e setenta e cinco!… Tudo resolvido assim num segundo… Fita a cara do croupier, olha pra os lados!… Estará mesmo neste mundo? neste dia?

Os Ratos, Dyonelio Machado.

Ele me falou não, e eu disse para ele blá blá blá e daí, nesse momento eu pensei desesperadamente em ti Milena, e me senti sozinha, sozinha em uma casa enorme, velha e atacada por ratos. Hoje são as memórias que permanecem, os nomes, nunca esquecemos os nomes, o meu nome em uma nova criança. Lembra dele, que me buscava em sua moto à meia noite em frente a uma farmácia. Lembra das madrugadas e das sonecas em praça pública, do seu cabelo preto e do seu nome, Ezequiel, lembra Milena, eu contei tudo para você.  Eu fui embora Milena, e durante a noite eu os escuto eles, os barulhos e seu desrespeito, caminhando pela cozinha, embaixo da geladeira e dentro do fogão, eles são a minha única companhia.  Apesar de achar que essa casa, Milena, possui espíritos, que cozinham em um lugar sujo, que cortam as folhas das plantas e esperam por mim.  São os ratos que falam comigo.

Hoje eu fui no banco Milena, e nunca esqueço que sou velha quando estou no banco, logo que voltei começou a chover, eu estou sozinha, Milena, perto do rio, eu ouvi na TV que eu vou precisar deixar a minha casa, mas eu não posso, eu não aguento mais partir. Eu não aguentaria mais uma despedida, não, eu vou permanecer dessa vez. Sabe, Milena, eu espero, eu ainda espero, a carta dele, como eu vou receber a carta dele se eu deixar a minha casa Milena? Eu espero, eu espero há 30 anos. Pois amar é isso não é, Milena, não é? Amar não é a mais profunda solidão da espera? 

Eles passam por mim, eles brincam com os fantasmas, eles querem saber quem eu sou e porque eu estou acordada, Milena. Eu sinto tanto a sua falta que eu caminho pela casa repetindo o seu nome, Milena, Milena, Milena. Não para de chover Milena, e eu preciso do sol para lembrar do calor. Sei que te magoei e me desculpa, eu estou aprendendo o que é o amor. Igual a música, Milena, que a gente cantava enquanto limpava a casa, lembra? Milena, eu sinto sua falta, eu sinto falta de todos, e de tudo. Lembra dos jantares? Hoje, as sobras das refeições que eu preparo apenas para mim são o que atrai meus companheiros para a cozinha, são os barulhos e as patinhas, me lembrando de ti, Milena, e que eu estou sozinha.  

Eu queria chorar, Milena, mas eu nunca choro, eu queria afogar as casas com as minhas lágrimas para que as águas do rio nem tivessem chance, elas vão chegar e eu vou ficar. Milena, eu não tenho medo, eu sei que os fantasmas querem minha companhia e os ratos vão sentir minha falta, eu sei, porque às vezes eu acordo e eles estão comigo na cama.

Maria Carolina é bolsista do Núcleo de Apoio à Aprendizagem Intercultural de Português como Língua Adicional e de Acolhimento (NAAIPLAA). Possui interesse em crítica literária e cansou de fugir de si mesma, por isso escreve.

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