Ano 06 nº 055/2018 – O silêncio que ecoa no meu grito

ANEXO B

Por Letícia Luz Franck

Aos oito anos, me apaixonei pela primeira vez. Prematuramente. Não era uma paixão física. Tampouco imaginária. Me apaixonei por mim, ao me olhar no espelho e me descobrir diferente. O normal, ou talvez, o normal para os padrões sociais, nunca me atraiu. Ao menos não da forma esperada. Eu não queria ter que me submeter ao todo. Não precisava fazer parte do contexto que aponta, julga e interfere na decisão de cada ser.

Sigo apaixonado pela batalha diária a qual me transformei. Um homem que dança. Que usa peruca, cílios postiços, salto alto, vestido, meias de crochê, boleros, brincos, aneis, colares e voz. Sou a resposta dos que não se acusaram. Dos que se calaram. Dos que nasceram, mas não existiram. Hoje, renasço porque sou visto. Porque me faço ver. Porque resisto. Não sou o que saiu do ventre de minha mãe. Que me perdoem as palavras, mas não sou nada do que meus pais esperavam de mim. E que bom. Não sou domável. Sou fera. Sou bicho. Sou sangue. Sou o que quero ser. Já não me prendo à sua sujeira mental. Sou inabalável. Selvagem. Sou grito. Forasteiro de coisas sem alma. Não vim ao mundo. Me tornei mundo. Me fiz. O meu. E já não me importa o que pensam os que não pensam em nada.

Me disseram que eu não conseguiria. Sim! Eles disseram. Me apontaram como quem aponta um lápis demais só pra ver quebrar. Não quebrei. Estou inteiro. Só não estou bem. Estou em pé. E continuar com o peso do mundo nas costas ultrapassa todos os limites possíveis da nossa existência enquanto vivos e enquanto vida.

– Hey, mãe! Eu tenho um vestido de festa! Durante muito tempo isso foi tudo o que eu queria ter. 1

Pai, eu não roubei de ninguém. Não fui mau-caráter e nem desrespeitei aos mais velhos. Continuo aqui. Cheio de defeitos. Recheado de boas intenções. Atento. Peregrino. Mulher. Menino.

– Olha lá, senhor motorista! Aquele moleque riscando o banco do ônibus. A juventude de hoje está um horror!

Horror. A palavra da minha vida. Horror ao mundo. Horror a tudo. Tudo o que não for amor. Tudo o que não for alcançado com o coração.

Me fiz semente porque já fui terra seca. Infértil. Enterraram meus sonhos quando cortaram minhas asas. Me disseram que eu não podia. Que ser pobre era limitação. Que passar fome era preparação para a morte. Esqueceram de me avisar que quando a alma morre, já não há mais nada para morrer aqui.

– Oi, moço! O moleque que riscou o banco do ônibus, hoje sustenta a família. Já sou mulher!

Não.

Não sou mulher. Sou homem! Não posso ser aquilo que não nasci para ser. Me disseram isso.

Sobrevivo da minha arte e do meu corpo. Me relaciono com pessoas e respiro solidão. Permaneço em pé, mas está doendo. O mundo não poupa ninguém. Sou fera machucada, exposta ao sangue e a falta de socorro. Grito silenciado. Selvagem engaiolado. E já me importa o que pensam os que não pensam em nada. Porque já não sou.

Sou nulo.

Não mais existo. Mas ainda respiro.

Agora chegou minha vez de descer do ônibus. A parada se aproxima. “Deividi, o dreg kin” precisa partir. Partir daqui. Partir de mim.

Estou me aproximando do final da rota.

Já vou.

Já vou, mãe.

 

¹ Referência à música Terra de Gigantes, composta por Humberto Gessinger e que compõe o disco A Revolta dos Dândis da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, no ano de 1987.

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