Ano 14 Nº 28/2026 Entre telas, flores e idealizações: onde foi parar o amor real? 

Eduarda Severo¹

É junho, o mês dos namorados. É flores para lá, chocolates para cá, há corações por toda parte. Enfim, o amor está no ar. E, junto com ele, surge também uma enxurrada de conteúdos nas redes sociais contendo discursos rasos, machistas e idealizados que invadem a tela do seu celular todos os dias. De repente, seu príncipe ou sua princesa que parecia incrível começa a parecer insuficiente, sem graça ou até incompatível com aquilo que a internet vende como “relacionamento ideal”. É como se, da noite para o dia, ele(a) tivesse virado um sapo. O culpado? As redes sociais. Elas estão te influenciando a acabar com o seu relacionamento ou te fazendo desejar um que provavelmente nunca vai existir – e você nem está percebendo. 

Você abre o TikTok e aparece algum influencer dizendo que: “quando o homem ama de verdade”, ele faz isso, aquilo e mais um pouco. Aí você entra no Instagram e vê um casal viajando, trocando presentes caros e vivendo uma relação aparentemente perfeita. Depois vem um podcast explicando “sinais de que ele perdeu o interesse”. O pior é que tudo isso chega até você de forma tão natural, tão repetitiva, que, em algum momento, começa a parecer verdade. Assim, aos poucos, sem perceber, você passa a comparar a sua relação com recortes cuidadosamente editados da vida dos outros e a pensar que a fala do coach de relacionamento realmente faz sentido. 

Vale mencionar que esses conteúdos, na maioria das vezes, são destinados às mulheres dentro de relações heteronormativas. Isso porque historicamente a busca pelo amor e a manutenção dos relacionamentos foram atreladas à figura feminina devido a uma série de fatores sociais, econômicos, culturais e ideológicos. Desde a infância, por exemplo, meninas costumam ser socializadas para cuidar, compreender emoções e preservar vínculos. A famosa boneca, os filmes clichês de romance, as músicas e as narrativas do “príncipe que salva a princesa” contribuem para reforçar a ideia de que o “sucesso” feminino está ligado a encontrar e manter um parceiro. 

Embora esse tipo de conteúdo também chegue aos homens, isso ocorre de forma mais atenuada. Em geral, os discursos voltados para o público masculino costumam focar mais em conquista, desempenho e status dentro da relação. Já as mulheres continuam sendo mais pressionadas a sustentar emocionalmente o vínculo e tentar alcançar um ideal amoroso que, muitas vezes, nem existe na realidade. O algoritmo ativa diariamente essa lógica antiga de que cabe à mulher interpretar sinais, suprir faltas emocionais e, ao mesmo tempo, corresponder a um ideal de parceira perfeita. E, nesse processo, muitas vezes a mulher deixa de refletir sobre o que sente de fato e passa a olhar para a própria relação como se esta estivesse sendo constantemente avaliada por uma régua externa. No entanto, essa régua muda o tempo todo. Um dia, uma mensagem demorada é sinal de desinteresse. No outro, pedir atenção é visto como dependência emocional. Um dia, insistir na relação é romantizado como amor verdadeiro. No outro, é chamado de falta de amor-próprio. Ou seja, tais discursos são instáveis e acabam deixando quem consome esses conteúdos ainda mais confuso(a), sempre em dúvida se está exagerando, aceitando pouco ou exigindo demais. 

Nesse “vai e vem” de interpretações, o relacionamento real vai ficando em segundo plano. Tudo passou a ser red flag e terminar parece sempre a solução mais fácil. Em dias ruins, o algoritmo te bombardeia com mais conteúdos que reforçam o seu estado emocional e você começa a refletir sobre o que ele te entrega, acreditando ilusoriamente, que aqueles pensamentos despertados são seus. 

Claro que existem relacionamentos ruins e conteúdos importantes sobre amor-próprio, respeito e limites. O problema é quando tudo vira extremismo e as pessoas começam a procurar relações perfeitas em vez de possíveis. No fim das contas, muita gente está desaprendendo que amar alguém também envolve paciência, construção e maturidade. 

O que as redes não mostram é que, nas relações humanas e, sobretudo, nas amorosas, não existe um roteiro ideal. Elas são construídas no dia a dia, com tentativas, erros, ajustes e, principalmente, diálogo. As pessoas têm sua individualidade, suas contradições e suas batalhas internas. O amor não se resume a receber flores e “textões” nos stories. Ele possui inúmeras formas, cores e nuances, depende de quem o sente. 

Assim, amor, para mim, é quando alguém liga no final do dia, mesmo cansado(a), para saber como você está; quando respeita suas escolhas; quando lembra de algo que você gosta; quando trata bem os seus amigos; quando puxa a coberta para que você não sinta frio; quando comemora uma conquista sua e o(a) incentiva a buscar seus objetivos; quando acolhe você mesmo nos dias difíceis. Há coisas que são amor, e há coisas que são apenas performance… Que neste mês dos namorados, o amor saia um pouco do mundo virtual e venha viver no mundo real.  

¹Eduarda Machado Severo é estudante do nono semestre do curso de Letras – Português, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé. Atualmente, é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras. 

“Esta é a coluna do PET-Letras, Programa de Educação Tutorial do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa, do campus Bagé. O programa, financiado pelo FNDE/MEC, visa fornecer aos seus bolsistas uma formação ampla que contemple não apenas uma formação acadêmica qualificada como também uma formação cidadã no sentido de formar sujeitos responsáveis por seu papel social na transformação da realidade nacional. Com essa filosofia é que o PET desenvolve projetos e ações nos eixos de pesquisa, ensino e extensão. Nessa coluna, você lerá textos produzidos pelos petianos que registram suas reflexões acerca de temas gerados e debatidos a partir das ações desenvolvidas pelo grupo. Esperamos que apreciem nossa coluna. Boa leitura”.

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