Ano 10 nº 048/2022 – Sobre perdas e ganhos

Por Carolina Fernandes

Sempre tive medo de perder. Para o pouco que tinha, perder parecia insuportável, perder a mãe sem ter um pai, perder-me dela na infância, perder a consciência na balada quando jovem, perder a própria juventude, perder tempo, perder a única amiga, as oportunidades tão escassas, perder o orgulho, a moral, perder a coragem de lutar e de seguir em frente.

Aí veio o falecimento da minha mãe. Meu medo mais profundo se torna real. O sofrimento dessa perda abalou meu íntimo. Uma dor sufocou-me o peito, uma dor que não era física, não se concentrava em nenhum órgão, mas arrebentava por dentro do corpo me fazendo chorar compulsivamente. Foi quando descobri o que era a dor do sofrimento. Com o tempo, a dor foi dando lugar à saudade, à esperança de viver um reencontro, de abraçá-la forte e agradecer por ela ter ficado junto de mim até eu poder sair de casa. 

Com o câncer vieram outros sentimentos de perda: a perda da saúde, dos cabelos, da vitalidade, dos lazares e das viagens. O coração apertou sentindo a falta de tudo isso, ficou comprimido até sufocar. Então ressurge a dor do sofrimento apertando o peito e as esperanças. E um outro medo aparece: o de perder a vida, de deixar as pessoas amadas, de sofrer fisicamente até não ter mais forças para resistir, o medo de lutar em vão.

A primeira reação se expressou em revolta: por que comigo? Por que agora? O que eu fiz para merecer tanto sofrimento? Uma segunda reação, então, foi necessária, a coragem: coragem para suportar a doença e para manter a vontade de viver, isso que me manteve firme na luta contínua contra o desespero e a falta de fé. Os fios de cabelo caíram, vieram os inchaços no rosto, o amarelo nos dentes antes tão brancos, os quilos a menos, e depois a mais. Olhar no espelho ficou difícil, requereu muita coragem, ergui a cabeça para me ver de cima, e assim não sucumbi. O que me ajudou a não esmorecer foi o olhar amável de meu companheiro, parentes e amigas que sempre me viram linda e radiante apesar das mudanças. Aos seus olhos não me sentia horrenda, não me acuava, estava sempre sorridente e aproveitava cada momento para me divertir como pudesse. 

Nesse tempo, os cabelos cresceram, a vaidade abalada ia se recuperando, a ansiedade pelo retorno à normalidade crescia a cada dia. Entretanto, meu tempo de pausa não havia terminado, eu precisava intensificar o tratamento, precisava de mais uma mudança, bem mais profunda. Assim os cabelos voltaram a cair, o rosto a avermelhar, e as esperanças foram escasseando até que segurei o último fio com a lança da espiritualidade. Busquei nas consultas e cirurgias espirituais o amparo para o meu sofrimento, e um novo lampejo de confiança reluziu no horizonte a cura dada como certa. 

Lendo um livro de um médium espírita que morrera de câncer, pensei: do que adiantou tanto estudo do evangelho, tanta aprendizagem se, contudo, ele havia morrido da doença? No apêndice do livro, aparecia o registro de duas comunicações que ele, enquanto espírito, teria tido com o grupo de médiuns do qual participara em vida. Lá ele falava da saudade que sentia dos amigos e entes queridos, no entanto repetia que não era uma saudade de causar sofrimento, mas uma saudade “doce”, uma saudade doce e uma alegria de viver fora da vida. Dizia ele: “aqui nada se perde, nada se perde…”

Adentrei na sala escura onde recebia o reiki com este pensamento: “nada se perde”. Pensei como eu sofri pelas perdas que tive, como sofria ainda pelo falecimento de minha mãe, pela perda da minha saúde. Mas ao ver aquelas pessoas ali, dedicando seu tempo a ajudar o próximo sem nada em troca, percebi o quanto eu havia ganhado na vida. A vida me deu a oportunidade de estar com pessoas caridosas, pessoas do bem, que fazem do seu caminho uma trilha de luz e caridade. Agradeci a Deus por isso. As lágrimas logo apontaram nos olhos, não se tratava, porém, de um choro de sofrimento, mas de felicidade. Pensei no tanto que ganhei em vida: um companheiro incansável e amoroso, amigos verdadeiros, emoções de encher o coração e momentos inesquecíveis. Também não acredito mais que perdi minha mãe, pois a senti sempre perto de mim durante esse período de tratamento, zelando pelo meu bem-estar, talvez me ajudando de um modo que não seria possível se estivesse fisicamente presente. 

Quando o mestre reikiano quis confirmar se eu estava bem, olhando para meus olhos úmidos, disse-lhe: “só estou feliz por estar aqui”, e com um abraço caloroso de agradecimento despedi-me dele. E assim me despeço agora de você que lê este texto: com um abraço caloroso e compartilhando com você, além da minha história, este pensamento: de que, na vida, nada se perde. 

Carolina Fernandes é professora no curso de Letras – Português e Literaturas de língua Portuguesa e no Mestrado Profissional em Ensino de Línguas do campus Bagé. Na mesma instituição, atua na tutoria do grupo PET-Letras e tem sob sua coordenação projetos de ensino, pesquisa e extensão. Sonhava em ser escritora, tornou-se professora, também é autora de vários artigos e capítulos de livros na linha de pesquisa Análises Textuais e Discursivas, e, em 2017, publicou o livro O visível e o invisível da imagem disponível na biblioteca local.

“Esta é a coluna do PET-Letras, Programa de Educação Tutorial do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa, do campus Bagé. O programa, financiado pelo FNDE/MEC, visa fornecer aos seus bolsistas uma formação ampla que contemple não apenas uma formação acadêmica qualificada como também uma formação cidadã no sentido de formar sujeitos responsáveis por seu papel social na transformação da realidade nacional. Com essa filosofia é que o PET desenvolve projetos e ações nos eixos de pesquisa, ensino e extensão. Nessa coluna, você lerá textos produzidos pelos petianos que registram suas reflexões acerca de temas gerados e debatidos a partir das ações desenvolvidas pelo grupo. Esperamos que apreciem nossa coluna. Boa leitura”.

Comentários
  1. Luciana
  2. Freda

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