Ano 03 Nº 017/2015 – Entrevista com Daniel Lucas, do Teatro Vagamundo

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Palhaço Rabito (Daniel Lucas) em Banana com Canela. Foto: Laura T Couto.
Numa manhã descontraída de um sábado ensolarado, conversamos com o palhaço, ator, diretor e sócio administrador do Teatro VagaMundo, Daniel Lucas, nosso convidado de setembro para as ações dos Diálogos entre Arte, Cultura, Comunicação e Educação, vinculadas ao projeto de extensão (Proext-MEC) do Laboratório de Leitura e Produção Textual da Unipampa (LAB).

Daniel é criador dos espetáculos La Perseguida e Banana com Canela e diretor do espetáculo Cabaré Lange Ri. Juntamente com Gabriela Amado, que dirige esses dois espetáculos, Daniel criou o universo do personagem Rabito, um palhaço que tem vida e características próprias, mas que sempre diz algo sobre a personalidade do próprio ator. Porque o palhaço é uma linguagem instantânea, que nasce como sopro, como impulso da intimidade mais profunda do ser. O palhaço, como Daniel costuma dizer, é um eu ampliado.

Na pele de Rabito, Daniel já circulou por 18 estados brasileiros, além de Colômbia, Uruguai e Argentina, atingindo um público de mais de 200 mil pessoas. Orienta grupos de teatro, ministra oficinas em colégios, universidades, Feiras de Livro, e sua oficina já foi ministrada em 10 estados do Brasil. Realizou também o projeto Palhaço Rabito aterriza na sua aldeia! e o projeto Palhaço Rabito celebra encontro com Quilombolas do RS, com circulação nas comunidades tradicionais do Brasil (Prêmio Funarte Artes na Rua 2011 e Pro-Cultura RS 2012/2013). Lançou recentemente o filme Nas Margens do Riso: Quilombos de Alegria e luta, por onde circulou apresentando e ministrando oficinas em 9 comunidades quilombolas do RS.

Acima de tudo, Daniel Lucas é natural de Bagé e hoje vive em Itaara, próximo a Santa Maria, cidade que serve de repouso e refúgio entre uma viagem e outra. Apesar de ter percorrido todo o Brasil, o bageense só se apresentou duas vezes na Rainha da Fronteira, durante o Festival de Teatro Bajeense e nas comemorações dos 200 anos de Bagé. A apresentação na cidade ficou eternizada na fotografia a baixo.

Palhaço Rabito, atuação de Daniel Lucas. Foto Diego Lameira

Nos dias 10 e 11 de setembro o LAB-Unipampa, o Programa Escolas Interculturais de Fronteira (PEIF) e o IFSul Campus Bagé, através do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI), levarão para Bagé e Aceguá os espetáculos Banana com Canelae Cabaré Lange Ri, bem como o filme que resultou das intervenções do Rabito nas comunidades quilombolas do estado. Além de rompermos com essa carência de apresentações do Teatro VagaMundo na cidade natal de Daniel, o nosso objetivo específico é aprofundar a abordagem sobre a linguagem artística e social do palhaço e suas relações com os processos formativos da Educação; promover a integração entre brasileiros e uruguaios na fronteira de Aceguá; e conversar com os realizadores do filme sobre a situação atual dos territórios quilombolas do Rio Grande do Sul. Na companhia de Daniel, virão à Bagé também o roteirista do filme Nas Margens do Riso, Atílio Alencar, as atrizes Júlia Zulke (palhaça Bruaca) e Carolina Reichert (palhaça Bisca) que apresentarão o mais novo espetáculo do Teatro VagaMundo: Cabaré Lange Ri.

Na entrevista que segue você aprenderá um pouco sobre a lógica do palhaço e conhecerá brevemente a trajetória de Daniel Lucas. Logo após a entrevista, disponibilizamos a programação completa das apresentações teatrais e exibições do filme, para que ninguém perca a oportunidade única de conhecer de perto a missão do VagaMundo.

LAB – Como se deu a relação do Teatro VagaMundo com os quilombolas?

Daniel Lucas – Em 2009 e 2010 nós circulamos por vários lugares do Brasil e sempre achávamos que faltava alguma coisa. Então em 2011 decidimos ir para as aldeias indígenas. Circulamos por 24 aldeias indígenas do estado, e depois, no ano posterior, decidimos ir para os quilombos do RS. Mas foi uma necessidade de algo diferente, de uma troca diferente, como artista, de conhecer outros públicos. E lá eu aprendi muito como artista, porque os indígenas e quilombolas tem uma capacidade de atenção muito difícil de se conseguir em outros públicos. É muito difícil eu chegar numa escola, por exemplo, e conseguir o mesmo tipo de atenção que temos nas comunidades quilombolas. O tempo deles é da natureza, não é o da tecnologia e da rapidez. Eles têm tempo para o encontro e para o humor. Se você está montando o som, isso já é um evento, eles ficam na sua volta. Quando eu coloco o figurino, eles já ficam me espiando. É muito legal porque eles se identificam logo, é universal, eles entendem rapidamente qual é a lógica do palhaço.

LAB – E o filme “Nas Margens do Riso: Quilombos de Alegria e Luta”, como foi feito?

Daniel Lucas – O filme foi feito com esforço próprio do grupo. Recebemos o recurso para circular em nove comunidades quilombolas do estado, levando intervenções, oficinas e espetáculo, e como as imagens ficaram bonitas, nós resolvemos editar e elaborar um roteiro. Foram três meses de edição. E ainda temos mais de trezentas horas do circuito nas aldeias indígenas, um material muito rico que ainda temos que editar. Ambos os públicos foram muito receptivos ao palhaço, tivemos uma abertura muito boa.

LAB – O palhaço ensina alguma coisa?

Daniel Lucas – Sim, além de fazer rir, o palhaço sempre ensina alguma coisa. Só de tu transformar o ambiente simples, com ordem, em caos, ele já está transformando. O objetivo do palhaço, durante os espetáculos, é chegar, pegar o público pela mão, levar para o universo do picadeiro, que é o universo da desordem e da bagunça, e largar a pessoa transformada. Se tu consegues isso através do riso, tu estás atingindo o objetivo do palhaço.

LAB – Isso tem alguma semelhança com o bobo da corte, né?

Daniel Lucas – Sim, total. Por exemplo, nos nossos espetáculos acontece muito de o prefeito da cidade estar assistindo a apresentação. E daí? Ele é mais um. O palhaço quebra tudo, porque no picadeiro todo mundo é igual. Tipo, se eu sou assim, você também é. Se eu sou gordo e me amo mesmo assim, se você também me ama, então vamos brincar. O que define a palhaçaria é a aceitação da sua inadequação. Eu sou feio, e daí?

LAB – O palhaço tem um aspecto assustador também, tem algo que assusta ou pode assustar. Essa figura está muito associada ao monstro…

Daniel Lucas – Sim, muita gente tem medo do palhaço por isso e tem gente que tem medo porque teve um fato ruim com o palhaço quando criança ou quando adulto mesmo. As pessoas que trabalham com o palhaço, que pesquisam a palhaçaria clássica, mesmo a europeia ou a tradicional brasileira, afirmam que a figura do palhaço não é para crianças. Porque a criança já tem a energia do palhaço, ela não precisa do palhaço, ele é o verdadeiro palhaço. Se você observar, ela já tem a lógica, ela faz tudo igual ao palhaço, ela cai, tropeça, chora, ri. O palhaço se esbarra porque a sociedade está indo para um lugar e quer levar ele, mas ele quer ir pro outro lado. Por isso o tombo. E a criança também. Se ela está brincando e vê um chocolate, ela joga o brinquedo longe. É engraçado.  E nós, desde os 14 anos por aí, quando começamos a ter muitas responsabilidades, vamos esquecendo e deixando pra traz essa criança. Vamos consumindo e criando feridas. Daí a gente não consegue mais brincar, não consegue mais se expor ao ridículo. As pessoas que participam das nossas oficinas estão em busca disso, querem trazer um pouco dessa criança.

LAB – E qual é a reação das crianças em relação ao teu espetáculo. Como elas respondem ao palhaço?

Daniel Lucas –  Por carregarem essa energia do palhaço elas acabam se identificando mais. Eu tenho um jeito e uma técnica com as crianças, pra não causar enfrentamento, que é a de eu parecer sempre mais burro do que elas. Especialmente as crianças de oito anos, porque elas gostam de ver o palhaço perdendo o jogo, fracassando, caindo, se machucando, chorando. E quando o palhaço dá um passo à frente, de enfrentamento, eles já reagem negativamente, ficam desconfiados.

LAB – Eu estou percebendo agora que esse palhaço que é um monstro é muito mais racional, total cabeça…

Daniel Lucas –  Sim, porque o palhaço mesmo pensa com o corpo. Chegou o impulso pra mim de uma piada, eu não posso pensar para executar; se eu pensar não vai ser engraçado, não vai ser intenso ou espontâneo. O palhaço pensa com o corpo já executando, vem tudo junto. Caso contrário ele perde o tempo cômico. As pessoas se identificam porque percebem que o palhaço não planejou a piada, ele está agindo nesse exato momento, no aqui e agora. Eu tenho o roteiro, mas eu gosto de estar fora do roteiro, que é aonde eu me sinto mais vivo. No roteiro eu já tenho o público, mas o legal mesmo é tirar o tapete do público.

LAB – Quais seriam os objetivos das oficinas que tu ministras?

Daniel Lucas –  Nós trabalhamos com constrangimentos. De tirar coisas que a gente esconde. E deixar a pessoa sem saber o que fazer, sem saber onde colocar a mão. Porque o palhaço não pode fazer gracinha. Isso não vai causar riso e gargalhadas. Então, depois que alguém faz uma gracinha e ninguém ri, aí é que começa a desconcertar a pessoa, e agente começa a conhecer quem ela realmente é..  No produto final dessas oficinas, a pessoa começa a se questionar, do tipo, “caramba, eu não me conhecia, eu não sabia que eu podia fazer isso com o corpo, eu não sabia que eu tinha capacidade de fazer rir, por outro viés a não ser o da gracinha, o da piada falada”. Enfim, tem um monte de coisas que acontecem nas oficinas. A gente também passa algumas técnicas do palhaço, os tombos, a relação com o público, de não perder o jogo que a acontece com a plateia, enfim, essa visão periférica de tudo o que está acontecendo. O simples som que estamos ouvindo ali atrás pode virar jogo e brincadeira. Em geral, nós tentamos aguçar várias partes do corpo que estão adormecidas. É autoconhecimento total. O palhaço não é só uma questão de personagem, ele é tu mesmo. Enquanto eu cresço como ser humano, meu palhaço cresce junto. Não é uma coisa cristalizada, é complexidade total.

LAB – Nós vimos um espetáculo em que o palhaço falava com um apito para o público. Tu usas algum instrumento de fala?

Daniel Lucas –  Eu trabalho pouco com a fala, com a língua portuguesa. Eu uso mais ogramelô, que é uma “blablação”, uma língua que surgiu na França. É a intenção do corpo que dá o significado para a falação do gramelô. A fala é só um acompanhamento.

LAB – E qual é a tua formação?

Daniel Lucas – Eu fiz um curso de dois anos em Santa Maria como ator, mas não fiz faculdade. A minha formação mesmo é com o público. Antes de eu fazer palhaçaria eu trabalhei em duas peças infantis, que apresentamos muito em todo o estado. Essas duas peças me deram uma boa capacidade de improviso. Quando chegou o palhaço eu já tinha alguma coisa pronta com o público. Daí foi só estruturar o primeiro espetáculo. Claro, em 2009 eu fiquei dez meses numa sala de ensaio, sendo orientado pela minha diretora, a Gabriela Amado. Foram dez meses de treinamento intensivo até surgir o palhaço, o perfil, a característica. Antes do processo nós queríamos uma coisa e a gente acabou conseguindo outra bem diferente. Nós tínhamos a intenção de fazer teatro, mas o palhaço não é do teatro, é do circo. E quem organiza tudo é a Gabriela e eu, só que nós trabalhamos de longe, porque atualmente ela mora na Colômbia, em Bogotá. Hoje nós temos colaboradores no grupo, que é o Atílio, o Deivid, a Júlia e a Carol, que são palhaças também e foram convidadas para o grupo. Dirigi uma peça com as duas, chamada Cabaré Lange Ri.

LAB – E como é a questão da mulher como palhaça?

Daniel Lucas – Na história do palhaço, dentro da palhaçaria clássica, existem números que até hoje usamos nos espetáculos. Eu uso números cômicos de duzentos anos atrás, por exemplo, que foram feitos na Itália.  Mas são coisas que a gente pega e transforma na nossa maneira de ver. Os palhaços trabalham assim. Não tem problema nenhuma de roubar, mas você precisa transformar e colocar na sua lógica. Então existe muito material circense. As mulheres, antigamente, faziam palhaçaria, mas faziam como palhaço homem, vestidas de homem. Elas entravam em cena por pouco tempo, e depois viravam bailarinas, trapezistas. O que eu quero dizer é que para as mulheres não existe material circense a ser resgatado. Este material está sendo criado agora, começou recentemente, há 30 ou 40 anos…

Programação do evento:

Dia 10/09

9h30 – Apresentação do espetáculo “Banana com Canela” e integração de pais e alunos das escolas de fronteira. Integração de alunos brasileiros e uruguaios. Local: Ginásio da Escola Nossa Senhora das Graças, em Aceguá.

14h – Vivência na Comunidade Quilombola de Tamanduá, em Aceguá, com exibição do filme “Nas Margens do Riso: Quilombos de Alegria e Luta”, conversa com realizadores e intervenção dos palhaços Rabito, Bruaca e Bisca.

Dia 11/09

16h – Apresentação do espetáculo “Cabaré Lange Ri” no auditório do IFSul Câmpus Bagé.

19h – Exibição do filme “Nas Margens do Riso: Quilombos de Alegria e Luta” no bairro Ivo Ferronato, no Pátio da EMEF Creusa Brito Giorgis.

 

Escrito por Equipe LAB.

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