Ano 14 Nº 55/2026 – Como é ser professora do Ensino Médio em uma Escola Rural?
Por Ana Paula Fontoura Pinto

Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/mulher-c%C3%A9rebro-mente-jovem-flecha-5656128/
Comecei em 2025 minha trajetória como professora de língua portuguesa em uma Escola Pública Estadual de Ensino Médio, no período noturno.
A escola está localizada na Trigolândia, zona rural da cidade de Hulha Negra, no Rio Grande do Sul. É um local que atende tanto os alunos da cidade quanto os do interior da Hulha. Os alunos do interior começam a sua jornada às 4 horas da manhã e ficam o dia na escola, pois é uma escola de turno integral. O turno integral requer desafios para mantê-los ocupados, para não enlouquecerem. Inventam diversos eventos para que eles participem. O período noturno é para os alunos que trabalham e vivem na cidade, pois o transporte escolar é fornecido (no período integral e noturno) pela prefeitura, graças a uma cooperação entre o município da Hulha e a 13ª Coordenadoria Regional de Educação.
A escola se chama Manoel Lucas de Oliveira. E um local acolhedor, aconchegante, com professores que realmente acreditam na educação e procuram uma forma de melhorar o processo de ensino e aprendizagem, apesar de todas as dificuldades que o sistema nos impõe como docentes. Quanto à localização, a logística é um pouco difícil: se tu não tens carro para ir até a escola, terá dificuldades ou não poderá dar aula, por isso a solução encontrada para que aquela escola continue em pé são as caronas entre os colegas. É assim que consigo trabalhar. Sabem o que eu faço quando não tenho carona? Eu preciso pegar ônibus mais cedo e esperar uma carona para chegar até a escola. Apesar desse contratempo, nem chega perto do que acontecia nas décadas anteriores. Segundo relatos de professores que estão lá e que hoje exercem cargos de direção, no início eles caminhavam pela estrada e conseguiam caronas até a Hulha, inclusive, quando não tinha carona na cidade iam a pé até a Trigolândia.
Hoje pelo menos há ônibus a cada 3 horas na cidade. Antes estes ônibus passavam pela escola, mas isso não acontece mais.
A realidade da educação no campo é desafiadora: ônibus que atolam em dias de chuva, professores que vão até os locais de moto, pois são inacessíveis via carro. Dependendo do clima, as aulas são suspensas devido à qualidade das estradas que ficam bem ruins em períodos de chuva. O trajeto percorrido costuma durar de uma a duas horas de viagem para os alunos mais afastados da escola. Isto significa que os alunos do interior quando saem da escola às 17 horas chegam em casa às 19 horas da noite.
Caro leitor, uma cidade tão pequena deveria continuar investindo muito em educação, principalmente em locais mais afastados. Vale a pena ressaltar que esta não é a única escola da zona rural. As outras escolas estão localizadas ainda mais distantes do local onde eu leciono.
Os alunos, como todo adolescente, estão na fase do descobrimento e de fazer tudo aquilo que nós já fizemos quando também éramos adolescentes. Eu pensava que dar aula para adolescentes era mais fácil, pois são grandes.
Este foi meu primeiro choque de realidade!
Não é tão fácil como eu imaginava: se tu não tens jogo de cintura, eles botam fogo na sala!!!!
Eu tinha esquecido que a adolescência é a fase de transição entre a infância e a vida adulta. Podemos dizer que eles ainda são um pouco infantis, mas já vivenciam coisas da vida adulta. Isso me fez lembrar da minha adolescência, pois eu era infantil para algumas coisas e adulta para outras, e muito confusa.
Mais uma coisa: aula é uma coisa, estágio é outra. O ritmo frenético do planejamento das aulas foi difícil no começo, pois tive que reaprender a dar aula de língua portuguesa, aprender os “macetes” de sala de aula, reaprender a lidar com os grandes.
Para quem não sabe, eu fiquei 12 anos trabalhando como Atendente de Educação Infantil, ou seja, seres pequenos com pouca ou quase nenhuma autonomia, necessitando da intervenção de adultos para as suas necessidades mais básicas como alimentação, higiene e sono.
Agora eu vivo uma realidade oposta: embora ainda imaturos, eles têm autonomia suficiente para se cuidarem e transformarem a vida do professor em um inferno. É só bater de frente!!!!!
Eu sei, meu caro leitor, que há escolas que não tratam o professor como ele merece, mas nesta escola a classe é unida mesmo com todas as divergências, políticas e pessoais.
É uma escola que me abraçou de uma forma que eu nunca vou esquecer!
É lá que estou aprendendo a ser professora.
E espero levar esta experiência para onde eu lecionar futuramente, porém continuo lá, pois já diz o ditado: “Em time que se tá ganhando, não se mexe!”
Espero melhorar muito na profissão que escolhi, mesmo com as dificuldades e com a vontade de desistir às vezes, não por causa dos alunos, mas por causa de um sistema que deslegitima o nosso trabalho.
Desejo que nossa educação progrida e que os professores venham determinados a participar do progresso de nosso sistema educacional.
O apagão me apavora, mas vamos em frente!
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Ana Paula Fontoura Pinto
Colunista do Jornal Universitário do Pampa
Mestra em Ensino pela UNIPAMPA.
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