Vertigem solar

Natália Camargo Dutra_ Vertigem Solar

Por Natália Camargo Dutra

Destituída de sentimentos, sentada num banco de madeira umedecido pela neblina do dia anterior, observava um antigo campanário quando de repente percebi o nascer do sol dourado que parecia querer me acudir naquele momento de aflição. Comparei o instante com os momentos de felicidade da vida, quando as cores se tornam vibrantes. Segurei meu cachecol colorido sobre o peito, como que trazendo a mim um conforto. E, garanto, não foi um ato superficial e estético.

Até então eu não estava diferenciando o que via do que sentia. Os estímulos externos eram para mim como lapsos sinestésicos depois das noites de insônia. O sol era fascinante e brilhava de enrubescer a face. Mais adiante percebi que pairava no firmamento uma nuvem obscura como um sopro maquiavélico.

No meu peito correu uma sensação gelada e angustiante que não correspondia

mais àquele cenário. A nuvem se aproximava no mesmo ritmo frenético de meus

pensamentos. Tive então um desmaio de cores. Desloquei minhas emoções por uma

movimentação desconhecida e poética, flutuei entre a atmosfera azul escura e o escarlate, quando o vermelho intenso se curvou ao acinzentado. Duas cores sentimentais que jamais se fundirão. Perceber diferentes tonalidades/emoções me restabeleceu, não houve prejuízos e tudo ao redor se tranquilizou. O céu tornou-se límpido, depois que tudo pareceu desconectado, um pássaro melancólico de temperamento semelhante ao meu equilibrou-se sobre um fio. Senti um alívio reconfortante. Os conflitos ficaram registrados em um instante no tempo, talvez continuem ocultos em leves pensamentos, mas vigiando para sempre minhas percepções.

 

Comentários
  1. eu sou eu

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