Ano 09 nº 088/2021 – TU BATES NOS TEUS FILHOS?

Por Leandro Araújo

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Bater nos teus filhos não vai fazer com que eles sejam adultos melhores, mas vai fazer com que eles batam nos teus netos e achem que estão agindo bem. Tu vais te sentir mal com isso e, pode acreditar, serás um dos responsáveis.

Teu filho não vai deixar de cometer erros por ter apanhado quando criança, mas vai saber que tem de fazê-lo às escondidas. Com isso, vai procurar estar próximo de pessoas que agem como ele, pois vai encontrar empatia naqueles que, em vez de conversar sobre consequências, também se escondem para se proteger delas. Os adultos sempre sabem que estão cometendo erros, mas o fazem porque se sentem amparados pela possibilidade de não ser responsabilizados. É a raiz do crime, da corrupção e do vício. Não é a certeza da impunidade, mas a de não ser descoberto.

Se tu te lembras de apanhar quando criança e achas que isso te fez um adulto melhor, acredita, não fez. Tu és uma pessoa correta que conseguiste superar o trauma da violência. És um privilegiado por isso. Em muitos casos, crianças que sofriam violência dos pais se tornam adultos com problemas emocionais, mesmo que não admitam isso. Também, sobre lembrares das vezes em que apanhou quando ainda era jovem, é o fato de que teus pais estavam errados, pois o que agride pensa que o ato de violência será esquecido e substituído pelo “aprendizado”. Não será. Na verdade, aquele que bate até pode esquecer, pois acredita estar procedendo bem, mas o que sofre a violência à carrega consigo por muito tempo, às vezes, tempo demais. 

Não paramos para pensar nisso, mas a surra ou o “bater” em uma criança é submeter alguém a um castigo físico análogo a tortura, onde alguém em condição física e de autoridade muito superior, submete outro que não tem a menor possibilidade de se defender, à punição. A criança, com isto, não vai desenvolver respeito, mas medo. E a diferença entre o respeito e o medo, é que o primeiro permanece, enquanto o segundo desaparece quando aquele que sofre o castigo se acha em condições de responder à altura. 

Eu apanhei muito quando criança. Hoje, pai, luto diariamente para não cometer os mesmos erros, a mesma violência. Acreditem, é difícil! Muito difícil! Porque trago comigo o castigo físico como uma marca permanente, difícil de ser apagada. Toda vez que ergo a mão ou a voz (a voz também pode ser uma violência) lembro das vezes em que passei pelo mesmo, e da sensação de estar do outro lado. E me odeio por isso.

Quando meus filhos forem adultos, espero que carreguem lembranças dentro de si, não cicatrizes.

Leandro de Araújo, acadêmico de Letras Língua Portuguesa da UNIPAMPA, Polo de Esteio/UAB. Atuo há vinte anos como profissional de Tecnologias Educacionais. Apaixonado por escrever, sou o autor do blog https://blogdoleandroaraujo.blogspot.com/  e tenho um livro publicado pela Amazon chamado “A menina que podia voar e outros contos”. Sou um dos responsáveis pelo Projeto Aquecimento Cênico, que há 14 anos trabalha expressividade corporal e facial, inteligência emocional e relações interpessoais com equipes.

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