Ano 08 nº 140/2020 – Perguntas à Ressurreição de Machado/ Coluna Adriano de Souza

Foto: Acervo pessoal

Foto: Acervo pessoal

 

Por Adriano de Souza

O romance Ressurreição de Machado de Assis foi publicado em 1872 e é a primeira obra desse gênero do consagrado escritor brasileiro. Trata-se aí, segundo me parece, da impossibilidade da felicidade amorosa. Mais especificamente da impossibilidade de concretização do amor entre Félix e Lívia. Um dicionário de nomes próprios (aliás, fica a dica: <dicionariodenomesproprios.com.br>) ensina que Félix vem do latim e deriva das palavras felix, felicis, que significam literalmente “feliz, sortudo, bem-sucedido”. Já Lívia, cuja origem também é atribuída ao latim, significa lívida e/ou pálida. Lívia é uma jovem viúva e rica, “de olhos aveludados e brilhantes, feitos para os desmaios do amor” (p. 31) e Félix um afortunado médico de formação, que deixara de exercer a medicina, provavelmente por não lhe necessitar, já que recebera herança e aos 36 anos não precisava mais se preocupar com essas questões materiais e comezinhas da vida prática, descrevia-se como tendo “um coração defeituoso, um espírito vesgo, uma alma insípida” (p.21). Félix, de nome sortudo e bem-sucedido, e Lívia, tornada pálida e lívida pelos revezes da vida amorosa. A expectativa dessa relação é o que move a leitura das páginas de Ressurreição.

Nesta obra há, contudo, duas cenas que, hoje, me chamam particularmente a atenção, acho que pela desfaçatez como a questão da escravidão é abordada. 

A ver: 

Entabulam diálogo dr. Félix (“a cor do rosto era um tanto pálida, a pele lisa e fina. A fisionomia era plácida e indiferente” – p. 16) e Lívia (“a tez levemente amorenada […] o braço esquerdo, atirado molemente no regaço, destacava-se pela alvura sobre a cor sombria do vestido” – p. 32). A conversa, eu acho, é das mais frívolas, mas talvez não o fosse para a aristocracia brasileira da segunda metade do séc. XIX. Félix toma ciência de que Lívia desistira de fazer uma viagem já programada à Europa e resolve perguntar-lhe o porquê dessa desistência, já, pretensiosamente, supondo ser ele [Félix], e a consequente paixão nutrida por ela em silêncio, as causas da abdicação da viagem. A moça [24 anos] convida Félix para irem até o terraço, pra ficarem, digamos assim, mais à vontade… Começam a se olhar, flertam, love is in the air…. Félix avalia se é o momento certo para a cartada final… Até que acontece o que segue… 

“[…] Félix ia enfim lançar a sorte, quando um escravo apareceu no terraço, a anunciar a visita do dr. Batista. 

– Não quero falar a ninguém, João – disse a moça -; estou incomodada.

– Que resposta é essa? – perguntou Félix, baixinho, quando o escravo voltou as costas.

– João! – disse a moça.

O escravo voltou.

– Eu hoje só posso receber as pessoas mais íntimas de casa, os amigos de meu irmão. Às outras dize que estou incomodada.

O escravo saiu. (p. 43).”

Pois é… aqui, o narrador coloca ‘o escravo’ para empatar a brisa dos pombinhos. A outra cena, mais para o final do livro: Félix está sumido, desmarcou o casamento, num de seus acessos de imaturidade emocional egocêntrica. Meneses, seu amigo, o encontra numa de suas casas, na Tijuca, a cena segue a seguir:

“[…] O portão estava aberto; Meneses atravessou rapidamente o espaço que ia da estrada à casa e bateu. Veio um moleque abrir-lhe a porta. Meneses entrou precipitadamente e perguntou: 

— Onde está o senhor? 

— Senhor não fala a ninguém, respondeu o moleque com a mão na chave como se o convidasse a sair. 

— Há de falar comigo, insistiu resolutamente Meneses. 

O tom decidido do rapaz abalou o escravo, cujo espírito, acostumado à obediência, não sabia quase distingui-la do dever. Seguiram ambos por um corredor, chegaram diante de outra porta, e aí o moleque, antes de a abrir, recomendou a Meneses que esperasse fora. Perdida recomendação, porque, apenas o moleque abriu a porta, Meneses entrou afoitamente atrás dele.[…]” (p. 108).

Aqui o narrador do romance dá espaço a um “moleque”, que tenta conter a visita indesejada de Meneses, seguindo orientações do Senhor (o protagonista Félix), e é completamente ignorado. O que é um moleque? Ensina um dicionário etimológico (aliás, fica a dica: <dicionarioetimologico.com.br>) que moleque vem do quimbundo mu’leke, que significa literalmente “filho pequeno” ou “garoto”. E continua a explicação: “O quimbundo é uma das línguas bantas (da família linguística nígero-congolesa) mais faladas em Angola, na África. Este termo chegou ao Brasil através dos (…) angolanos, que chamavam os seus filhos de mu’lekes. Com o passar do tempo, esta palavra começou a apresentar um significado pejorativo (…). Durante o período da escravidão, por exemplo, chamar um menino branco de “moleque” era considerada uma grande ofensa”. Aliás, nessa mesma linha, o dicionário eletrônico Houaiss apresenta para ‘moleque’, em sua primeira acepção, “menino novo, de raça negra ou mista”.

Questões que me ocorreram: ainda que a escravidão não tivesse sido formalmente abolida quando da publicação da obra (a obra é de 1872), já não havia motivos mais do que suficientes para um outro tratamento à questão da escravidão? Sobretudo se considerarmos que em vários países da América Latina e da Europa a escravidão já era proibida desde há muito. O que pretendia Machado de Assis com essas cenas? E esse desprezo a “moleques” tão covardemente ainda em voga nos dias de hoje? Por que esse narrador machadiano parece tão indiferente à condição humana de escravizados/as, descrevendo-os/as como alguém de espírito servil, que de tão “acostumado à obediência, não sabia quase distingui-la do dever”? E, por fim, o que é ter um “espírito acostumado à obediência”? Às vezes parece haver tantas questões em aberto sobre Machado de Assis que se ele ressuscitasse, haveríamos de ter uma longa conversa…

ASSIS, Machado de. Ressurreição. In.: ASSIS, Machado de. Todos os romances e contos consagrados: volume 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.

20200724_175326

Adriano de Souza, no mundo, é só mais um. Em seu país, não é mais do que ninguém. No Rio Grande do Sul, nasce a cada mês de julho. A Santa Maria volta sempre que precisa se reencontrar. Em Camobi, amarelou seus verdes anos. Em Bagé faz análise. Em casa, pelas cordas do violão, vai tocando a vida, às vezes desafina, outras não.

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Junipampa