Menos foi mais. E que 2021 seja muito mais feliz!/ Coluna Saulo Eich

 

Por Saulo Eich

Quantas vezes nos pegamos vibrando muito, extremamente empolgados, numa festa, num bar com amigos, numa viagem de férias ou em qualquer outra situação que tenha nos despertado emoções intensas?

De repente, tudo teve seu sentido modificado. E todas aquelas coisas que a gente pediu lá no final de 2019 não faziam mais tanto sentido. (Ou faziam ainda mais sentido talvez.) O fato é que ninguém imaginava, lá nas comemorações do final do ano passado, que o 2020 que nos aguardava seria tão diferente de tudo. Um ano que nos obrigou a deixar muitas das nossas intensidades de lado para dar lugar a outras intensidades. Medo intenso. Insegurança intensa. Cansaço mental intenso. 

O ano não poupou ninguém. Mas alguns foram muito mais afetados que outros. Não sei qual a interpretação que vocês fazem de vida e morte, cada um tem a sua. Uns acham que é acaso, outros falam em destino traçado, mas o fato é que uma pergunta não quer calar: qual seria o destino de todas as centenas de milhares de pessoas que se foram em decorrência do vírus, se não fossem acometidas por ele? Quais os planos que teriam sequência? Quais os encaminhamentos que cada história interrompida teria? Quantos estavam de casamento marcado ou previsto? Quantos iriam encontrar um novo amor ali na frente? Quantos seriam o novo amor de alguém? Quantos queriam ver seus filhos crescerem? Quantos se foram sem ver seus filhos nascerem? Quantas mães deixaram seus filhos e quantos filhos deixaram suas mães? Quantos não puderam se despedir e acompanhar seus familiares nos últimos momentos pelas regras de isolamento que a Covid-19 impôs aos infectados? Quantas últimas palavras foram trocadas por uma chamada de vídeo? Quando as palavras já não eram possíveis de serem verbalizadas, quantos últimos olhares foram trocados por uma tela? Quantas declarações, compartilhamentos de afeto, projetos profissionais e pessoais ficaram em suspenso? Vocês conseguem dimensionar? É difícil. E todos sabemos que diariamente muitas pessoas enfrentam diferentes batalhas, não só no âmbito das doenças, e muitas pessoas faleceram por inúmeras outras razões, e não são perdas menos importantes. Mas a fragilidade da vida nos foi mostrada de maneira ainda mais dura nestes últimos meses. Fomos lembrados diariamente sobre a finitude de tudo. Mesmo que o fim seja o prenúncio de outros começos. 

De um ano especialmente angustiante a gente pôde tirar muitas lições, cada um a seu modo. Eu queria deixar registrada uma delas aqui. Nunca fez tanto sentido entendermos o significado de que muitas vezes o menos é mais. Estamos chegando ao final de mais um ano no qual ‘Natal’ e ‘virada de ano’ serão datas menos comemorativas e menos animadas, porque as regras de distanciamento pedem e porque, talvez, esse realmente não tenha sido um ano muito (ou nada) comemorativo. 

Bem como todos os nossos momentos de intensidades cotidianas que, ao longo do ano, foram barrados por uma situação que paralisou o mundo todo. Foram bem menos abraços, porque isso virou pré-requisito pra se viver mais. Quando imaginaríamos que não abraçar seria sinônimo de saúde, de cuidado, de amor? O menos foi mais. E, daqui pra frente, o menos muitas vezes é e será mais. Essa talvez seja uma das principais lições de 2020. Nós temos necessidade de muitas coisas até estarmos impossibilitados de vivê-las, de usufruí-las, e termos que, querendo ou não, nos adaptar a outras circunstâncias. 

Que 2021 nos traga de volta alguns aspectos de nossa velha normalidade: menos despedidas e mais abraços; menos solidão e mais momentos compartilhados. E que, desse ‘novo normal’, só permaneçam as boas lições: menos individualismo e mais empatia; menos ‘achismo’ e mais ciência; menos conivência com a intolerância, que produz desrespeito e violência; e mais pluralidade e respeito pelas diversas expressões de vida e de viver. 

E um clichê que nunca vai sair de moda: menos ódio e mais amor!

Um 2021 imensamente mais feliz pra todos nós!

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saulo

Saulo Eich é psicólogo clínico infantil e adulto, 

de abordagem Cognitivo Comportamental, em Bagé/RS.

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