Ano 08 nº 154/2020 – Isaías Caminha superlativo/ Coluna Adriano de Souza

Figura 1 - Caricatura de Lima Barreto em página do jornal 'A Cigarra', em 1919, HYPERLINK "https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293" https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293, acesso em 03/09/2020.

Figura 1 – Caricatura de Lima Barreto em página do jornal ‘A Cigarra’, em 1919, HYPERLINK “https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293” https://www.bbc.com/portuguese/brasil-40514293, acesso em 03/09/2020.

 

Por Adriano de Souza

E no capítulo anterior… Este colunista neófito deu uns pitacos questionativos e indagadores a propósito de Ressurreição, romance de estreia de Machado de Assis. Passaram-se já uns dez dias da publicação desse texto, o pessoal do RH do Junipampa ainda não me chamou pra conversar, também não fui cancelado nas redes sociais, não recebi nenhum e-mail de desagravo… Então acho que devo continuar. Aliás… bem que o Brás Cubas, defunto autor machadiano, poderia me mandar um e-mail de desagravo… Isso seria a glória de qualquer colunista, penso eu. 

Enfim, hoje vamos falar de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto, prometi que iria ler de forma intercalada a obra completa de Machado de Assis e de Lima Barreto e compartilhar meus registros de leitura nesta coluna, que é um diário de bordo. (Onde estava eu com a cabeça quando prometi isso…? Teria eu prometido isso antes ou depois de desenrolhar um tinto com taninos marcantes, persistência em boca e retrogosto aveludado…? – emojis com a mão no queixo simulando estar pensando – apagar isso antes de mandar para a revisão).

Deixando de lado essas divagações com vistas a fisgar leitores desatentos, tentei começar este texto de uma forma descontraída para ver se conseguia imprimir um pouco de suavidade para falar da obra em questão. Mas a verdade é que não dá. Recordações do escrivão Isaías Caminha é um romance sobre o impacto emocional, afetivo, psicológico e material da descoberta e da percepção do racismo e das estruturas racistas dos meios urbanos brasileiros de início do século XX. Na obra, Isaías Caminha narra sua chegada ao Rio de Janeiro, vindo do interior para lá estabelecer-se através de um curso superior e de uma profissão digna, ou melhor, minimamente condizente com os seus “anseios de inteligência”.

Aliás, essa é uma questão, talvez a questão do livro: Isaías Caminha é um personagem entregue aos fascínios do conhecer e do saber, das letras e das reflexões. Uma figura de muitas leituras, que caminhava para doutorar-se. Ambição muito digna, embora desgraçadamente incomum para pessoas de sua origem racial, sobretudo no Brasil de início do século XX (1909, mais ou menos): “Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante onímodo de minha cor…  Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa a consideração de toda a gente. Seguro do respeito à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu cérebro.” (p. 25, grifos meus).

Trago essa passagem porque ela ajuda a dar o tom das ambições intelectuais e existenciais de Caminha e também porque ela revela uma certa pureza na constituição dessa personalidade, pela qual, inclusive, Caminha pagará um alto preço. A Primeira República (1889-1930), junto a suas engrenagens de poder, aos olhos de Caminha (e de Lima), será sempre essa engenhosa feitoria de ilusões perdidas. E como é custoso e doído aprender a ver a maldade que está em tudo…! Pois é justamente esse o aprendizado (e não o de medicina, infelizmente) que acaba permeando as recordações do escrivão. A reflexão abaixo é de Caminha, já trabalhando como jornalista, feita a propósito de seu chefe, o diretor do jornal O Globo:

Percebi que o espantava muito o dizer-lhe que tivera mãe, que nascera num ambiente familiar e que me educara. Isso, para ele, era extraordinário. O que me parecia extraordinário nas minhas aventuras, ele achava natural; mas ter eu mãe que me ensinasse a comer com o garfo, isso era excepcional. Só atinei com esse seu íntimo pensamento mais tarde. Para ele, como para toda a gente mais ou menos letrada do Brasil, os homens e as mulheres do meu nascimento são todos iguais, mais iguais ainda que os cães de suas chácaras. Os homens são uns malandros, pianistas, parlapatões quando aprendem alguma coisa, fósforos dos politicões; as mulheres (a noção aí é mais simples) são naturalmente fêmeas. A indolência mental leva-os a isso e assim também pensava o doutor Loberant.” (p. 190.).

Pois é, meu caro Isaías, nos dias de hoje, esses arroubos de indolência mental ainda levam nossas elites a episódios grotescos como esses tantos relatados em suas memórias. Aliás, nossa classe média parece ter aprendido bem essa lição (Ficaste sabendo do episódio “Cidadão, não! Engenheiro formado, melhor que você…?”). Por outro lado, celebramos a notícia veiculada no fim do ano passado, segundo a qual, pela primeira vez em nossa República, estudantes negros e negras são maioria dentro de universidades públicas. Pois é, meu caro, se fosse nos dias de hoje, também não seria fácil, mas quem sabe o teu plano de doutorar-se dava pé…

Então… É isso que acontece quando o livro termina. Fica-se, comovido, a conversar longamente com Isaías Caminha. Na obra, muito modestamente, Caminha menciona não ser a ambição literária o fator determinante para a escrita de suas Recordações, mas sim o desejo de “modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo; a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença.” (p. 76). Caminha decerto ficaria contente em saber que essa sua luta, se não foi capaz de mudar opiniões de “cidadãos de bem”, certamente o foi de reunir milhares e milhares de vozes, cujo coro, superlativo, já não se pode mais ignorar.

*

Os trechos da obra de Lima Barreto foram retirados da seguinte referência:

BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. In.: BARRETO, Lima. Obra Reunida: vol. 1. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.7

¹Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/11/13/pela-primeira-vez-negros-sao-maioria-nas-universidades-publicas-diz-ibge.ghtml. Acesso em 03/09/2020.

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Adriano de Souza, no mundo, é só mais um. Em seu país, não é mais do que ninguém. No Rio Grande do Sul, nasce a cada mês de julho. A Santa Maria volta sempre que precisa se reencontrar. Em Camobi, amarelou seus verdes anos. Em Bagé faz análise. Em casa, pelas cordas do violão, vai tocando a vida, às vezes desafina, outras não.

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