Ano 11 Nº 068/2023 – O espetáculo vai começar

Por Flávia Azambuja

Era uma noite fria de julho, daquelas típicas da cidade de Bagé. Havia uma névoa que encobria toda a cidade, deixando um ar de suspense. Um dia perfeito para Catarina, ela era louca por filmes de terror, assistia, pelo menos, a um por semana e dizia para todo mundo que sonhava viver em um filme de terror. Mal sabia ela que devia ter cuidado com o que desejava.

Catarina aguardava ansiosa a chegada de Micael, seu namorado, que como sempre estava atrasado. Micael era assim, ela nem estranhava mais. Trazia alegria e leveza para sua vida e muitos atrasos também. 

Enquanto ela estava perdida em seus pensamentos, virou a esquina um carro preto com vidros muito escuros, ela nem percebeu a aproximação, até que…Micael tocou seu braço, enfim tinha chegado. Ela levou um susto tão grande, o que era bem comum pra ela, que era muito distraída e assustada.

Passado o susto, só então ela pode reparar no “look” de Micael. Ele que sempre usava calça de moletom e tênis, estava todo engomadinho. Usava camisa e calças jeans. Catarina ficou sem entender nada, pois no lugar que iam havia um aviso: “Usem roupas confortáveis, talvez precisem correr”. Acreditem se quiser, Micael ao ver Catarina queria voltar em casa e se trocar, mas Catarina foi logo dizendo:

  • Nem pensar, estamos mega atrasados. Não quero perder esse teatro por nada.

Assim saíram apressados, colocaram o endereço no GPS, mas estava tudo conspirando contra e nem o GPS funcionava direito. Ficaram rodando por alguns minutos e então decidiram ligar para “O lugar”, esse era o nome do local que iriam visitar. Depois das orientações, conseguiram finalmente chegar.

“O lugar” era exatamente como Catarina havia imaginado. Ficava no meio do nada, era um lugar escuro, sombrio. Havia apenas um grande contêiner no meio de um matagal, com uma placa simples que sinalizava “O lugar”. 

Entraram no contêiner e foram recebidos por uma mulher extremamente alta, com cabelos vermelhos cor de fogo e falava como se estivesse em um tempo muito diferente do nosso. Ela deveria dar instruções aos visitantes sobre como agir durante o teatro interativo. A primeira instrução foi: “Devem entregar seus celulares, o uso não é permitido”. Catarina achou um pouco estranho, mas poderia ser parte de uma estratégia para manter secretos os detalhes da encenação. Em tempos de redes sociais, isso se faz necessário. Outras instruções foram dadas, mas nada tão importante. 

A mesma mulher avisou que Catarina e Micael deveriam esperar em uma outra sala, que em breve o espetáculo começaria. A sala era minúscula, iluminada por velas e muito fria. Havia três cadeiras desconfortáveis, que eles imaginaram não precisar ficar sentados por muito tempo, estavam enganados. 

Esperaram, esperaram e esperaram mais um pouco, o que para eles foi uma eternidade, durou cerca de trinta minutos. Enquanto esperavam, Catarina foi ficando neurótica. Pensou que havia caído em uma armadilha e pior ninguém sabia onde estavam e era tarde demais pra avisar, já que também estavam sem celular. Naquele lugar deserto e escuro, tudo poderia acontecer e ninguém perceberia, aquelas pessoas poderiam ser serial killers, traficantes de órgãos ou qualquer outra coisa. Como podiam ter sido tão ingênuos? E o pior que a culpa era dela, com essa mania de querer fazer parte de um filme de terror. Quando Catarina estava quase surtando, como um passe de mágica, a porta se abriu; e uma voz grave disse:

  • É a vez de vocês.

Catarina ficou se perguntando por onde tinham saído as pessoas que entraram antes deles. Logo esqueceu, o espetáculo estava começando. Durante as instruções também precisaram escolher um líder, o escolhido foi Micael. Por isso Micael ia à frente de Catarina e ao lado da guia que os acompanhava.

Os visitantes entraram em uma vila perdida no tempo, devia estar situada no século passado. Não havia quase nenhuma luz, somente algumas velas espalhadas. O pasto era alto e estava úmido, causando um leve desconforto em contato com a pele.

Na primeira parada entraram em uma espécie de bar, lá havia muitas pessoas comendo e bebendo. Uma em especial chamou a atenção de Catarina e Micael. Era um homem loiro, muito alto, acompanhado de um cachorro quase tão grande quanto ele. Ao sair, ele encarou os dois e disse: 

  • Vocês vão se arrepender de ter entrado aqui.

Catarina sentiu um frio na espinha, mas logo lembrou que era parte da atuação. Mas o que aconteceu em seguida não parecia fazer parte. O homem soltou o cachorro, que atacou uma menina que obviamente demonstrava desespero. Micael aterrorizado, olhou Catarina e perguntou se aquilo não era real. Ela nem teve tempo de responder, o espetáculo devia continuar. 

Então seguiram, entraram na casa seguinte, que era ainda mais estranha do que a primeira. Havia um cheiro de enxofre e podridão no ar. No canto, uma senhora cozinhava e oferecia uma sopa aos visitantes. Eles quase aceitam, já que estava muito frio. Mas ao se aproximarem, percebem que além dos temperos, legumes característicos de uma sopa, algo mais flutuava ali, o que parecia ser uma mão, uma mão de criança. Aquilo já era demais até para Catarina, que saiu correndo. Ela precisava vomitar. Micael saiu correndo atrás dela com medo de se separarem. 

Mas na ânsia de não se perderem, não perceberam que se separaram da guia. Essa era uma das regras, nunca ficar longe da guia. O que aconteceria?  Não sabiam. Se viram sozinhos num breu completo, já não sabiam mais se queriam procurar a guia, seguir com o espetáculo ou simplesmente encontrar a saída. Optaram por procurar a saída, não acreditavam no que viam. Parecia real demais para ser um teatro.

De repente viram uma pequena luz ao longe, era a única esperança, iriam naquele caminho, seguiram determinados e juntos . Enquanto estivessem juntos, tudo estaria bem. O caminho até a luz era íngreme e cheio de buracos. Além disso, deveriam ser cuidadosos, alguém poderia ouvi-los e trazê-los de volta ao “espetáculo”.

Quando estavam se aproximando da luz ouviram vozes, eram vozes masculinas. Eles vociferavam coisas horríveis ao mesmo tempo em que bebiam sangue. Viram toda essa cena através de uma fresta de um armazém de madeira. Agora tinham certeza de que não era um espetáculo, não havia plateia. Catarina fez um esforço enorme para não chorar e gritar, enquanto Micael implorava por calma. 

Ali definitivamente não era seguro, precisavam sair dali e depressa. Estavam se arrastando pelo pasto úmido para não correr o risco de serem vistos. Foi então que ouviram o inconfundível rangido da porta, em seguida passos e o que parecia ser o barulho de armas sendo engatilhadas. Ao contrário dos visitantes, os homens tinham lanternas, o que impedia que fizessem qualquer movimento, já que seriam vistos. Os homens sabiam de seu desencontro com a guia e estavam os caçando.

Micael então olhou fundo nos olhos de Catarina e falou que a amava como se fosse a última vez. Em seguida, ele saiu correndo, sabia que seria morto, mas era a única chance de Catarina sobreviver. Os homens pegaram Micael que antes de morrer com uma bala a queima roupa no meio da cabeça disse: 

  • Ela conseguiu sair, e os dias de vocês estão contados.

Todos saíram em disparada atrás de Catarina. De repente, ela estava sozinha e soluçando. Ela esperou que todos saíssem, passou toda a noite chorando e tremendo. Quando amanheceu parecia não haver nem um sinal do espetáculo, nem mesmo o contêiner estava lá. Além disso, havia uma porta aberta por onde Catarina saiu. 

Catarina foi para casa tentando se recuperar de tudo que havia acontecido, mas sentia que precisava fazer algo. Naquela noite, voltou ao “Lugar” trêmula e incrédula do que estava fazendo. 

Ela decide entrar n’O lugar, já que parecia estar vazio. Dito e feito, não havia ninguém, nenhum espetáculo acontecendo. Ela precisava coletar provas. A morte de Micael não seria em vão, eles pagarão. Ao entrar n’O lugar age com muito cuidado, não pode ser pega em hipótese alguma. O primeiro lugar que entra é onde foram recepcionados, logo lembrou onde guardam seus celulares, lá deveria haver outros. Mas a gaveta estava trancada, precisaria arrombar, achou um machado todo ensanguentado, isso serviria. Achou tantos celulares que nem conseguiria contar. Pegou alguns, inclusive o seu e de Micael.

Seguiu caminhando, iria fotografar e ir até à polícia.  Em outra sala, encontrou muitas armas. Após tirar fotos, seguiu seu caminho. O que viu a seguir era muito bizarro. Havia partes de corpos humanos espalhados por todo o chão. Inclusive reconheceu um braço que usava um relógio dado por ela. Aquilo era demais para ela, não aguentou e saiu correndo.

Quando estava saindo, ouviu um carro freando bruscamente, sentiu que eram seus perseguidores. Precisava sair dali depressa, viu que havia um muro baixo, era necessário pular, tentou algumas vezes sem sucesso. Quando finalmente conseguiu e seus pés tocaram o outro lado, ouviu o rangido do portão. Eles saberiam que ela esteve ali, precisava correr, pulou mais um muro e estava do lado de fora. Tinha deixado seu carro em outro quarteirão, não podia correr riscos. Aqueles metros até chegar ao carro, pareciam km’s, suas pernas pesavam, seus braços tremiam e chorava enquanto apertava entre suas mãos o relógio que um dia havia sido de seu grande amor, Micael. Suas forças estavam acabando, mas precisava seguir. O lugar não poderia ficar impune.

Entrou no carro e ele não ligava. Por um instante pensou: “Que clichê, não vou morrer assim”. Quando finalmente o carro ligou saiu em disparada, quase causou um acidente, mas enfim chegou a delegacia de polícia. Apresentou todas as provas que havia coletado, a polícia ficou em choque, havia celulares de pessoas desaparecidas há meses. 

A polícia imediatamente foi até o local, aprendeu todo o material e prendeu todos os envolvidos, mas o líder d’O lugar antes de entrar no camburão, olhou no fundo dos olhos de Catarina e disse: 

  • O espetáculo tem que continuar.

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