A perversidade do outro lado do abismo/ Coluna Saulo Eich

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Por Saulo Eich

Saulo é psicólogo clínico Infantil e Adulto, de abordagem Cognitivo Comportamental, em Bagé/RS

É frustrante pensar que tanta gente ainda hoje venere o Presidente da República como um herói que nem de longe é. É limitante sair da boca desses admiradores que “tudo bem defender Bolsonaro, afinal tem tanta gente que defende Lula”. É alienante não conceber racionalmente que existe um abismo humanitário que divide essas duas figuras da política brasileira. E poderia substituir o ex-presidente petista por qualquer outro nome da política no país que não se alinhe ao bolsonarismo que, ainda assim, esse abismo permanece existindo. E isso se dá porque poucas vezes, na história recente da política nacional, se viu alguém tão desprovido de empatia e engajamento social real. 

Sempre penso que existem muitas formas de ser desonesto, e é relativamente fácil ser. Já ser desumano parece ser um pouco mais difícil. Na desonestidade, existe um indivíduo passível de se corromper e passível de falhar, e para se tornar desonesto ele já se corrompeu ou falhou. Mas, sem romantizar a falta de honestidade, um desonesto pode ainda possuir muito de humanidade,  porque inclusive a condição de ser humano implica nisto: em estar sujeito a ser desonesto. E repito, isso não dá margem para romantizar a desonestidade. Mas e um desumano? Nessa categorização que conhecemos mesmo sobre o que vem a ser uma pessoa desumana ou pouco humanizada. Pois é. Um desumano, ou um desumanizado, expõe em intensidade e frequência seu desprezo pela condição vulnerável que as pessoas possuem. 

Eu poderia aqui falar razoavelmente, a partir de minha pequena percepção político-ideológica, sobre o que me faz acreditar e esperançar em políticas de esquerda, mas tem gente muito mais preparada pra explanar sobre isso. Por isso falo do que consigo e, do que entendo ser, a principal questão que mobiliza a situação do Brasil nas mãos do bolsonarismo: a perversidade das lideranças desumanas que foram colocadas lá. Entender o grau de perversidade das pessoas que assumiram o poder em 2018 na figura de um Jair nos coloca num outro lugar. É paradigmático. 

Quando a gente entende de fato o que representa ter como presidente um aspirante a fascista com todos os critérios de machista, homofóbico, racista, sexista e elitista preenchidos, a gente nunca mais volta a condição de vislumbrar nesse perfil uma saída positiva. Não que eu tenha em algum momento vislumbrado isso no Messias, mas falo daqueles que ainda protegem a falsa ideia de que ele é apenas um tiozão com hábitos grotescos mas com um coração enorme em prol do Brasil. Na verdade ele é um tiozão nocivo que assina embaixo, dando aval a uma série de absurdos incorporados por uma significativa parcela de pessoas que dizem amém pra todas as suas truculências verborrágicas. 

Nesta semana, o Presidente da República visita Bagé e, seguindo a linha da pouca polidez e cuidado com as palavras que ele possui, eu penso: “que merda!” E penso isso porque o oportunismo dos perfis nocivos como do Bolsonaro usam a todo instante do moralismo pra esconder a face desprovida de caráter e de capacidade humanizada que possuem. E tudo o que eu mais quero, pra mim e pra o meu país, é distância do Jair. Distância física, distância ideológica, distância temporal, ficando apenas marcado num passado distante como os anos em que o Brasil voltou a flertar com a truculência mas não prosperou nesse sentido. Mas não dá. Viver numa bolha é impossível.

E o mais frustrante é saber que o presidente denunciado por crimes contra a humanidade e genocídio vai desembarcar na cidade com as honras da casa feitas por um prefeito que outrora recebeu um ex presidente estimulando a violência com um relho. Sem entrar no mérito da culpabilidade ou não, até porque não alteraria o raciocínio, a gente percebe que existe um lado da história que valoriza proporcionalmente mais um triplex e um sítio do que 90 mil vidas perdidas por um vírus subestimado pelo chefe máximo de uma nação. E chegando nesse entendimento, uma série de discursos e argumentos sempre surgem e surgirão na tentativa de justificar o que humanamente injustificável: que vidas importam menos do que cifras. E quando chegamos nesse ponto, que refere a desvalorização da vida, sobretudo de quem é mais vulnerável, ninguém parece superar o presidente da República e o todo que o cerca, porque, se tem uma verdade que é melhor “jair” enxergando é a de que onde sobra ódio, falta humanidade.

Até o mês que vem.

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