Ano 14 Nº 29/2026 As mãos que curam o Pampa

Marcos Serres¹

Acordou antes mesmo que os primeiros raios de sol tocassem o campo.

A geada cobria o pátio como um lençol branco estendido sobre o verde do Pampa.

Vestiu um casaquinho de lã, apertou o xale vermelho sobre os ombros e caminhou até o velho galpão de madeira e zinco. Voltou com os braços carregados de lenha.

Logo, o fogo crepitava no fogão.

Enquanto a água aquecia numa chaleira de ferro preto, sentou-se diante do pequeno espelho preso à parede por um arame. Com movimentos lentos, penteou os cabelos brancos.

Depois, quando o sol já entrava pelas frestas da parede de seu casebre de madeira, separou ervas de uma cesta em sacolas pequenas para que pudesse guardá-las e usá-las posteriormente.

Comeu, no máximo, duas fatias torradas de pão com chimia de morango, o que, para ela, era alimento suficiente para sustentá-la pela manhã.

Franzina, corcunda e enrugada, desde que a vida lhe deu o castigo da solidão, vivia de pequenos rituais cotidianos que faziam sua vida ter sentido.

Aproximou-se de uma mesinha com uma foto antiga de seu falecido esposo, companheiro de toda uma vida. Na fotografia, ele estava jovem, bem vestido e com os cabelos penteados. Exatamente como em suas lembranças juvenis que, tal qual a fotografia, já haviam perdido as cores.

Ao lado, uma outra fotografia. Essa, colorida, mais atual, mas que, para ela, parecia mais distante que a outra. Era seu filho, que há anos fora embora e dava poucas notícias. Não lembrava há quantos anos não o via, mas a foto seguia ali, como um sinal de esperança. Ela ainda sonhava com um abraço de seu guri. Um pequeno taraguy que agora existia apenas em telefonemas cada vez mais raros.

Antes mesmo de começar a varrer o chão batido da varanda de sua casa com a vassoura de guanxuma que recém havia pego, uma senhora já a interpelou. Trazia junto uma menina quieta e pálida, que andava em pequeninos passos rápidos, acompanhando com esforço sua apressada e preocupada mãe.

Depois de uns cinco minutos de conversa no portão, elas entraram. Onde antes era o quarto de seu filho, hoje havia quadros com imagens de santos católicos e espíritas. Uma mesinha de madeira com imagens de Nossa Senhora e pretos-velhos. Latas de alumínio que vinham com extrato de tomate no supermercado agora serviam de apoio para velas de sete dias, de todas as cores, que queimavam num ritmo eclesiástico. Embaixo delas, nomes de pessoas e suas doenças, esperando por curas ou, pelo menos, por um consolo.

A mulher sentou-se numa cadeira trançada de palha, e a menina, num banquinho de madeira. Os olhos delas não desgrudaram um minuto da senhora que, em passos lentos, aproximou-se do altar e, de frente para ele e de costas para elas, fechou os olhos e balbuciou rezas e cantos que, mesmo tão baixos e sibilantes, pareciam preencher o casebre inteiro com uma harmonia sublime.

Era como se essas palavras se espalhassem pelo cômodo junto com a fumaça das velas e as envolvessem como um abraço protetor. Um escudo de boas intenções servindo de proteção às necessidades da mulher, da menina… e da benzedeira também.

Com uma antiga solenidade aprendida, ela pegou uma tesoura velha e enferrujada. Só não era completamente tomada pela ferrugem, pois ainda havia nela algo de aço brilhante.

Sentou-se em frente à menina num banco quase igual ao outro, não fosse por um ou outro detalhe, e, lentamente, começou a benzê-la. Dos seus lábios saíam palavras que a menina não compreendia, mas que a mãe parecia conhecer de cor. Cochichadas em um ritmo quase hipnótico. E, com a mão direita, cortava o ar com a tesoura em volta da menina, acompanhando o som de suas palavras.

A cada trecho da oração, a tesoura se abria e fechava no ar.

Clique.

A menina não se mexia.

Clique.

A mãe o acompanhou em silêncio.

Clique.

Quase de súbito, a benzedeira colocou a mão sobre o peito da menina, e a oração ficou rapidamente mais alta, como que em súplica por sua saúde. E, num gesto final, levou a mão para o lado direito do banco, onde havia um pote de vidro com um pouco de água, e sacudiu a tesoura ali, como quem joga fora tudo o que de ruim fora cortado.

Antes de irem embora, a senhora deu um pequeno galho seco de arruda, que deveria ser colocado embaixo do travesseiro da menina até que ela sarasse. Ela até quis oferecer um chimarrão, mas ele já estava frio, e nem mesmo ela ainda tivera tempo de tomá-lo.

Depois de acompanhá-las até o portão para se despedir, voltou para casa e, diante do altar, agradeceu à sua fé e limpou as mãos, despejando uma mistura de álcool com ervas que guardava em uma pequena garrafinha.

Depois, foi novamente ao galpão pegar mais lenha, pois a que tinha trazido mais cedo estava no fim. Seus bracinhos magros e frágeis mal conseguiam carregá-la, mas era preciso. Depois de dar nova vida ao fogo, colocou novamente a chaleira para esquentar água. Mas, quando se sentou mais uma vez, ouviu palmas no portão.

Levantou-se devagar e, em passinhos lentos, foi ver quem era. À frente de sua casa, na rua de chão vermelho, estava estacionada uma camionete grande e moderna, dessas que mais parece uma nave e nas quais a senhora jamais sonharia entrar. No portão, um homem com roupas de campo.

Ela o recebeu. Sua situação era diferente: exigia uma reza mais forte. Com dificuldade, puxou um saco de carvão até o quartinho das rezas e colocou sete pedras de carvão em uma panelinha velha, de cabo comprido e desgastado. Ligou um ventilador velho, que girava as pás com dificuldade, e fez brotar brasa naqueles carvões.

O homem sentou-se no mesmo banco em que a menininha havia se sentado antes. O que para ela parecia confortável, para ele era pequeno e baixo. Mas sentou-se sem dizer nada. Pelo contrário. Mantinha um silêncio resiliente e respeitoso.

Com sua tesoura enferrujada, ela pegou brasa por brasa e benzeu em volta da cabeça e do tronco do homem, acompanhando tudo com as rezas cantadas que saíam de sua boca. A cada vez que terminava, jogava a brasa no pote de água, que fazia um chiado alto seguido de muita fumaça. Eram as dores sendo consumidas.

Depois de terminar, o homem entregou três garrafas de álcool para a senhora, que as guardou para fazer o preparado de ervas para ele, que iria buscá-lo outro dia. Quando foi oferecer-lhe chimarrão, lembrou-se de que havia esquecido a chaleira em cima do fogão, e quase toda a água havia evaporado. E nenhum chimarrão fora tomado naquela manhã.

Despediram-se no portão, e ela viu aquela camionete linda e gigantesca partir, deixando uma nuvem de poeira para trás naquela estrada rural e terrosa. E ela olhava para longe, sonhando que talvez veria seu filho chegar numa igual àquela e levá-la para morar com ele. Suspirou.

Quando entrou novamente em casa, desistiu do chimarrão. Já era tarde da manhã. Seguiu até sua pequena e velha geladeira e a abriu. Não havia muita coisa nela, mas a sobra do almoço do dia anterior a fez sentir-se aliviada. Pelo menos não precisou cozinhar, pois não tinha tempo.

Colocou a comidinha em uma panela pequena, pôs em cima do fogão a lenha e jogou por cima um pouco da água quentinha que não havia evaporado na chaleira. Mexeu com uma colher grande de madeira e, depois de aquecida, serviu-se num prato pequeno.

Sentou-se à mesa e, talvez, o único momento de silêncio daquela manhã tenha sido durante as lentas garfadas que dava na comida e nos pensamentos enquanto mastigava. Mesmo assim, olhava para fora para ver se alguém apareceria para pedir uma reza ou uma simpatia. Ou, quem sabe, fazer companhia e dividir seu pobre almoço. Mas o único movimento do lado de fora era o vento empurrando a poeira da estrada.

Quis deitar-se para sestear, mas é difícil quando os pensamentos agitados fazem companhia. Deu vontade de fumar um cigarrinho de palha, como antigamente, mas aquele doutor bonitão que às vezes atendia no postinho da comunidade havia lhe proibido.

Dessa vez, conseguiu esquentar a água até o fim, mas usou-a para colocá-la numa bolsa térmica que serviu para aquecer os pés enquanto deitava na cama. Depois de relutar um pouco, dormiu. Não foi um sono profundo e reparador. Foi raso, quase uma sonequinha. E não demorou muito para que as palmas no portão a acordassem.

Um jovem casal lhe pediu perdão por acordá-la, mas não podia perder o dia. Trazia consigo o filho de pouco mais de um ano. O pequeno dormia com um bico na boca e uma toalhinha branca pendurada nele. Havia menos de uma semana que ele fora internado por quatro dias, recebendo oxigênio no hospital, por fortíssimas crises de asma.

Ela olhou aquele menino de bochechas coradas dormindo tranquilamente nos braços da mãe e tentou imaginar a cena dele quase sem ar no hospital. O barulho de sua respiração enquanto dormia devia ser totalmente diferente dos desesperados suspiros em busca de ar durante uma crise.

Lembrou-se da luta de seu filho, quando pequeno, também contra a asma. Ela e seu esposo moravam numa casa de madeira ainda menor e mais simples, e o frio daquele inverno em específico havia sido severo. Seu filho recém-nascido não estava suportando.

E foi para que seu filho nunca mais fosse ao hospital por conta daquela doença que ela aprendeu a benzer. Assim como sua mãe benzia. Assim como sua avó benzia. Assim como, talvez, a mãe de sua avó também o fizesse. Ela não fazia ideia de quem começou, mas lembrava que sempre foram as mãos das mulheres de sua família que curavam os pampas.

Tirou a medida do pé do menino desenhando-a em uma tuna e, com a habilidade de quem já estava mais do que acostumada a fazer aquilo, cortou-a no formato daquele pezinho. Depois, fez um furo em seu topo e passou por ele uma cordinha, amarrando-a.

Fez tudo isso enquanto rezava. Enquanto de sua boca saíam preces e orações num ritmo que lembrava natureza e consolo. Mais do que a tuna, eram as palavras que pareciam sustentar aquele ritual.

Enquanto benzia, pensava em seu filho. Queria saber se suas crises de asma não haviam voltado. Quem sabe estivesse precisando reafirmar sua simpatia. Nem precisava ele se dar ao trabalho de ir até lá. Ela sabia que ele era ocupado e não tinha mais tempo. Bastava mandar o desenho do pé que, à distância, ela mesma reforçaria a simpatia. Sabia que reza de mãe funciona sempre, não importa onde o filho esteja.

Quando a simpatia terminou, o menino acordou. Seu rosto estava com aquela carinha amassada de bebê recém-acordado e fazia um pouco de manha, mas logo se acalmou. Quando a senhora benzedeira o pegou no colo, ele sorriu e acabou deixando cair a chupeta. Aquilo encheu-lhe o coração. Talvez não houvesse recompensa melhor pelo seu trabalho. Teve vontade de colocar outra chaleira para esquentar e tomar chimarrão pelo resto da tarde.

Contentou-se, porém, com duas compotas de doce de leite que a moça quis lhe dar. Ela adorava! Sabia que não devia exagerar. Ainda assim, duas ou três colheradas daquela delícia certamente não fariam mal a ninguém. Pelo menos era o que repetia para si mesma enquanto ria.

Despediu-se no portão daquele casal e de seu menino. O pai, jovem e trabalhador, agora carregava o filho nos braços. A mãe, igualmente nova e exausta, caminhava ao seu lado. E a poeira da estrada os levou.

Ninguém mais foi visitá-la pelo resto do dia. Ela pôde tomar seu chimarrão até o fim da tarde, cozinhar um arroz com couve para o jantar e assistir à sua novela tranquilamente.

O fogo sempre aceso. Duas vezes mais durante o dia ela precisou trazer lenha daquele galpão. Podia deixá-la mais perto, mas preferia que continuasse assim. Ir buscar lenha, mesmo que cansativo, era parte de seu ritual cotidiano. E ela precisava disso.

Ao anoitecer, após acender a última vela do dia no altar, com o nome da tia de uma vizinha que iria operar a vesícula, ela finalmente olhou para os santos daquele lugarzinho de fé, tão simples quanto ela mesma. E eles retribuíram o olhar. E ela entendia o que isso queria dizer.

Benzeu a si mesma. Passou a mão sobre os cabelos, o pescoço, os ombros, o tronco e as pernas enquanto rezava para limpar-se. Como fazia todas as noites, pediu proteção para si também.

Tirou a erva da cuia e a guardou junto com a bomba. Fez o que tinha de fazer e ainda conseguiu aproveitar o chimarrão. E, por isso, ao final, agradeceu.

Ao fim do dia, dormiu tranquila. Mesmo pensando no filho distante. Mesmo pensando no esposo falecido. Mesmo pensando no almoço solitário. Dormiu.

E nada mais a acordou.

¹Marcos Serres é cientista político, servidor público e escritor da Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Dedica-se à pesquisa e à escrita sobre cultura, memória, espiritualidade popular e identidade pampeana. Contato: serres.gestao@gmail.com.

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