Ano 14 Nº 61/2026 | COLUNA PET- LETRAS: Mulheres negras na universidade: entre a presença e o reconhecimento
Por Milena da Luz Alves

Imagem retirada do Pinterest.
Falar sobre Consciência Negra também é falar sobre educação. É olhar para os espaços onde o conhecimento é produzido, compartilhado e transformado e perguntar: Quem tem ocupado esses lugares? Quem tem tido a oportunidade de acessar a universidade, permanecer nela e produzir conhecimento? Quem participa das decisões que orientam os caminhos da educação? Essas perguntas são importantes porque a universidade não é um espaço isolado da sociedade. Assim como outros ambientes sociais, a universidade também é atravessada por desigualdades históricas que influenciam quem chega, quem permanece, quem é reconhecido e quais conhecimentos recebem maior visibilidade.
A presença das mulheres negras na universidade permite refletir sobre essas questões e compreender que o acesso à educação superior está relacionado a processos históricos, sociais e políticos. Durante muito tempo, as instituições de ensino superior brasileiras foram marcadas por uma presença limitada de pessoas negras, resultado de uma sociedade estruturada por desigualdades raciais, econômicas e de gênero. Embora a ampliação das políticas de acesso, como as ações afirmativas, tenha contribuído para modificar esse cenário, ainda existem desafios relacionados à permanência, à conclusão dos cursos e à participação efetiva de pessoas negras nos diferentes espaços acadêmicos. Para as mulheres negras, essas questões assumem características particulares, pois o racismo e o sexismo podem atuar conjuntamente, influenciando suas experiências dentro e fora da universidade.
Pensar nos lugares das mulheres negras na universidade, portanto, exige ir além da discussão sobre o ingresso no ensino superior. É necessário observar como elas vivenciam esse espaço, quais oportunidades encontram, quais dificuldades enfrentam e de que maneira suas trajetórias são reconhecidas. Entrar na universidade representa uma conquista importante, mas essa conquista não encerra as desigualdades que atravessam a formação acadêmica. Permanecer, concluir uma graduação, ingressar na pós-graduação, participar de projetos de pesquisa e extensão, publicar trabalhos e construir uma carreira acadêmica também são dimensões fundamentais dessa discussão.
A permanência universitária envolve mais do que estar matriculada. Ela está relacionada às condições materiais para continuar estudando, ao acesso a políticas de assistência estudantil, ao acolhimento institucional e ao reconhecimento de que diferentes estudantes chegam à universidade trazendo histórias, desafios e experiências distintas. Quando essas condições não são igualmente garantidas, o direito à educação deixa de ser vivido da mesma forma por todas.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que as mulheres negras não ocupam a universidade apenas como estudantes. Elas também estão na pesquisa, na docência, na extensão e na produção científica, contribuindo para ampliar os temas investigados e as perspectivas presentes no ambiente acadêmico. Suas experiências permitem formular novas perguntas, recuperar histórias muitas vezes silenciadas e produzir conhecimentos que ajudam a compreender a sociedade brasileira a partir de outros olhares.
Essa presença também transforma a universidade quando passa a ocupar espaços de decisão. Professoras, pesquisadoras, coordenadoras, orientadoras e gestoras contribuem para construir instituições mais diversas, nas quais diferentes trajetórias possam ser reconhecidas
como parte da produção do conhecimento. Afinal, pensar em representatividade não significa apenas observar quem ocupa uma cadeira na sala de aula, mas também quem participa da definição dos rumos da própria universidade.
Outro aspecto importante diz respeito ao reconhecimento da produção intelectual das mulheres negras. Nem sempre a desigualdade aparece apenas no acesso às instituições, mas também na visibilidade concedida às pesquisas, às referências bibliográficas e às autoras que compõem a formação universitária. Perguntar-se quais autores e autoras são lidos e citados, bem como quais conhecimentos são considerados centrais, permite compreender que a produção acadêmica também é atravessada por relações de poder.
É nesse contexto que intelectuais como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro se tornam referências fundamentais. Suas produções ampliaram o debate sobre racismo, gênero, educação e sociedade brasileira, demonstrando que as experiências das mulheres negras não ocupam um lugar periférico na construção do conhecimento, mas constituem parte essencial dele. Suas reflexões continuam oferecendo ferramentas importantes para compreender as desigualdades que atravessam os espaços educacionais e para pensar possibilidades de transformação.
A literatura também ocupa um lugar importante nesse debate. Conceição Evaristo, por meio de sua produção literária, amplia a visibilidade das experiências, das memórias e das vivências de mulheres negras, colocando essas histórias no centro da narrativa. Em obras como Olhos d’água, sua escrita evidencia que contar essas experiências também é produzir conhecimento sobre a sociedade, sobre os afetos e sobre as desigualdades que atravessam o cotidiano. Quando autoras como Conceição Evaristo passam a integrar as leituras realizadas na universidade, seus textos ampliam o repertório acadêmico e reafirmam que a literatura de autoria negra também é parte fundamental da formação intelectual.
Por isso, a discussão sobre mulheres negras na universidade não deve acontecer somente durante o mês da Consciência Negra. Novembro pode ser um ponto de partida para olhar para a estrutura da universidade e refletir sobre quem está presente, quem ainda encontra dificuldades para permanecer e quais vozes precisam ser mais ouvidas. Nesse sentido, a universidade também se transforma quando reconhece a diversidade daqueles que a constroem, valorizando a presença das mulheres negras, suas trajetórias, suas pesquisas, seus saberes e suas contribuições para a educação e para a sociedade.
Mais do que ocupar um espaço, trata-se de poder permanecer nele, produzir conhecimento e abrir caminhos para que outras mulheres negras também possam chegar. Nesse sentido, falar sobre Consciência Negra é também falar sobre educação como possibilidade de transformação e sobre uma universidade que precisa ser cada vez mais plural, diversa e comprometida com o reconhecimento de diferentes histórias e saberes.
Referências:
RIOS, Flávia; MELLO, Luiz. Estudantes e docentes negras/os nas instituições de ensino superior: em busca da diversidade étnico-racial nos espaços de formação acadêmica no Brasil. Boletim Lua Nova, 2019.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Ciências Sociais Hoje, p. 223–244, 1984.
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2014.
CARNEIRO, Sueli. Raça e educação. Portal Geledés, 8 set. 2000. Disponível em: https://www.geledes.org.br/raca-e-educacao-por-sueli-carneiro/. Acesso em: 28 out. 2026.
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Milena da Luz Alves é graduanda do sexto semestre do curso de Letras-Português, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé. Atualmente é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras. E-mail: milenaalves.aluno@unipampa.edu.br Professora responsável: Carolina Fernandes
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