Ano 14 Nº 58/2026 – Movimento Estudantil Democracia Sempre: a voz dos estudantes na construção de um movimento estudantil coletivo

Por Eduarda Moreira e Isabelli Batista

“A escola é, e sempre será, um espaço de disputa.” É com essa afirmação que o professor, doutor em Educação e especialista em História do Brasil, Alessandro Bica, explica a relação entre a educação e o Movimento Estudantil. Ao longo da história do Brasil, os estudantes estiveram presentes em importantes momentos de transformação social e política. Por meio da organização coletiva, de manifestações e da defesa de seus direitos, diferentes gerações se mobilizaram para reivindicar melhorias na educação e lutar por mudanças na sociedade. 

Segundo o professor, para compreender o surgimento e o desenvolvimento do Movimento Estudantil, também é necessário olhar para a história da educação brasileira. Ele explica que a organização dos estudantes está diretamente relacionada à ampliação do acesso às escolas e às universidades, especialmente a partir das décadas de 1930 e 1940. Nesse contexto, a escola sempre foi um espaço de disputas e interesses, no qual diferentes grupos da sociedade buscam defender suas ideias e reivindicações. É nesse cenário que o movimento estudantil ganha espaço e passa a atuar como uma forma de questionamento e pressão social.

Essa participação pode ser observada em diferentes momentos da história brasileira. Durante a Ditadura Militar, por exemplo, os estudantes tiveram um papel importante na resistência ao regime, participando de manifestações e mobilizações em defesa da democracia. O professor relembra a atuação da União Nacional dos Estudantes (UNE), a Passeata dos Cem Mil, em 1968, e a participação estudantil no processo de redemocratização. Para ele, essas experiências mostram a importância da organização coletiva e da participação dos jovens na construção da história do país.

Mas preservar essa história também é fundamental. Ao falar sobre a importância da memória dos movimentos estudantis, o professor chama a atenção para o que considera “o grande mal do brasileiro”: a falta de memória histórica. Segundo ele, muitas vezes, as pessoas esquecem as lutas que tornaram possíveis direitos que hoje fazem parte do cotidiano, como a assistência estudantil, o acesso ao Restaurante Universitário (RU) e os auxílios que contribuem para a permanência dos estudantes na universidade. 

Na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), o Movimento Estudantil também passou por diferentes momentos. O professor relembra que, durante a pandemia e no período posterior, a universidade tinha poucos estudantes e a mobilização perdeu força. Agora, porém, ele percebe sinais de retomada. “Acho que agora está tomando corpo”, comenta, ao observar o envolvimento de estudantes que voltam a se interessar pela organização e pela participação coletiva.

Ao olhar para essa movimentação, o professor também recorda sua própria trajetória e a influência que o movimento teve em sua formação. “Eu acreditava, continuo acreditando”, afirma. Para ele, aquelas experiências contribuíram para que escolhesse a História e, principalmente, para que continuasse acreditando que mudanças são possíveis. É essa esperança que também acompanha o movimento estudantil da UNIPAMPA, que começa a recuperar seu espaço e a construir novos caminhos. 

Em Bagé, o Movimento Estudantil Democracia Sempre busca fortalecer a participação estudantil, ampliar o diálogo entre instituições de ensino e mobilizar a comunidade em torno de reivindicações coletivas. O MEDS (Movimento Estudantil Democracia Sempre) surge em um contexto de mobilização política e da necessidade de fortalecer a presença dos estudantes nas discussões que envolvem a educação e a sociedade. 

Para compreender melhor a formação do movimento, suas ações e perspectivas, conversamos com Erykah Rodrigues, socióloga, mestranda em Ensino na Universidade Federal do Pampa – Campus Bagé (Unipampa) e uma das organizadoras do MEDS, e com Gabrielle Piquelet, graduanda em Engenharia da Computação na Universidade Federal do Pampa – Campus Bagé (Unipampa).

A seguir, a entrevista com Erykah e Gabrielle está organizada em tópicos.

O surgimento do MEDS e a mobilização estudantil

Segundo Erykah, o movimento surgiu de maneira espontânea, impulsionado por um contexto político que despertou entre os estudantes a necessidade de organização coletiva. Em seu relato, ela explica que a mobilização começou após o primeiro turno das eleições, quando estudantes passaram a discutir a necessidade de se reunir e reconstruir um movimento organizado em Bagé. 

O primeiro passo foi a criação de um grupo no WhatsApp, que possibilitou a aproximação entre estudantes e o planejamento das primeiras atividades. A partir dessa articulação, foi realizada uma Assembleia Geral Estudantil na Unipampa, reunindo estudantes de diferentes instituições de ensino da cidade. Erykah destaca que a proposta não era promover uma campanha eleitoral, mas abrir espaço para a discussão de pautas políticas e reivindicações estudantis. 

Para Gabrielle, sua aproximação com o movimento aconteceu em um momento de preocupação com o cenário político. Assim, Gabrielle também passou a participar das discussões do grupo de WhatsApp e, em poucos dias, já integrava a organização. 

Ao recordar esse início, destaca: “Quando eu vi, eu senti que ali tinha um caminho.” Para ela, participar do movimento representou uma maneira de transformar suas preocupações em ação coletiva. 

Das assembleias às ruas: a construção coletiva 

Entre as ações relatadas pela entrevistada, destacam-se a realização da Assembleia Geral Estudantil e a organização de uma manifestação pública, que contou com a participação de estudantes, trabalhadores, artistas e integrantes de movimentos sociais. 

Ao recordar essa mobilização, Erykah destaca a importância da participação coletiva: 

“Olha só, a juventude está mobilizada; olha só, o trabalho coletivo dá frutos.” 

Para ela, um dos aspectos mais significativos da experiência foi a oportunidade de garantir que os próprios estudantes ocupassem os espaços de fala durante as manifestações.

“A gente chamou os estudantes para tomarem a voz no trio elétrico. A gente pediu, a gente lutou para que isso acontecesse e a galera abraçou. E a galera se sentiu vista, a galera se sentiu ouvida.”   

Gabrielle também relembra a primeira assembleia realizada na Unipampa como um dos momentos mais marcantes da trajetória do MEDS. Segundo ela, foi nessa ocasião que muitos integrantes da organização se conheceram pessoalmente e perceberam a dimensão que o movimento poderia alcançar. 

“Ali foi o primeiro momento em que, de fato, as pessoas puderam conhecer qual o objetivo, qual era a nossa intenção, que era, de fato, dar voz para as pessoas.” 

Além da assembleia, Gabrielle ressalta a primeira caminhada em defesa da democracia, cuja participação superou as expectativas dos organizadores. 

As pautas e os objetivos do movimento

Ao abordar os objetivos do MEDS, Erykah explica que uma das principais propostas é reconstruir a organização estudantil em Bagé, que segundo sua avaliação, passou por um longo período de desmobilização. Entre as reivindicações mencionadas estão a criação de um Diretório Central dos Estudantes (DCE) na Unipampa e a aproximação com estudantes de outras instituições de ensino. 

A entrevistada também aponta preocupações relacionadas à permanência na universidade, à ampliação de políticas de inclusão na pós-graduação, à infraestrutura de escolas públicas e à participação dos estudantes na construção dos currículos. 

“O nosso objetivo é tratar dos problemas dos estudantes, sem nunca perder esses problemas de vista, porque eles ligam todas nós.”  

Ao abordar as reivindicações do MEDS, Gabrielle destaca a defesa da democracia, dos direitos humanos, da justiça social e de uma educação pública, gratuita e de qualidade. 

Para ela, o acesso à universidade precisa estar acompanhado de condições que permitam aos estudantes concluir sua formação. 

“Não basta garantir o ingresso, não basta garantir que uma pessoa consiga acesso a uma faculdade, é preciso que essa pessoa tenha condições de permanecer nela.”

Educação, democracia e transformação social 

A participação do movimento estudantil também é compreendida por Erykah como uma experiência de formação política e social. Em sua fala, ela relaciona a educação à construção de vínculos, ao diálogo e à possibilidade de transformação da realidade. 

Inspirada nas reflexões de Paulo Freire e nas experiências educativas dos movimentos sociais, a entrevistada defende uma compreensão da educação que ultrapasse os espaços escolares. 

“Educação é diálogo. Educação é a sociedade que a gente quer transformar.” 

Ao refletir sobre o futuro do MEDS, a entrevistada reconhece que o movimento ainda está em construção e que seus objetivos de longo prazo precisam ser discutidos coletivamente.

Entretanto, sua expectativa é que a organização continue fortalecendo a participação dos estudantes e contribuindo para a reconstrução dos vínculos entre a comunidade acadêmica e os movimentos sociais. 

A partir dessa perspectiva, Erykah sintetiza a importância de ocupar os espaços de participação: 

“Eu penso que a gente tem que ocupar para movimentar, porque esses espaços também são nossos.” 

Ao refletir sobre sua experiência, Gabrielle destaca que a participação no MEDS transformou sua maneira de compreender a força da organização coletiva. 

“E mudou a forma como eu enxergo as coisas, porque, de fato, ninguém anda sozinho.” 

Como mulher negra, estudante da universidade pública e com experiência na docência, ela reconhece a educação como um elemento fundamental de sua própria trajetória. Para Gabrielle, defender a educação significa também demonstrar que ela pode transformar vidas e ampliar oportunidades. 

Mais do que uma organização voltada a reivindicações pontuais, o MEDS é apresentado pela entrevistada como uma possibilidade de reconstruir a participação estudantil em Bagé, valorizando a autonomia, a escuta e a construção coletiva de uma educação mais democrática. 

A trajetória do MEDS mostra que a participação estudantil continua sendo importante para fortalecer a educação e a democracia. Mesmo diante dos desafios, a organização dos estudantes abre espaço para o diálogo, a construção coletiva e a busca por mudanças. Mais do que fazer reivindicações, o movimento representa a oportunidade de participar ativamente da construção de uma universidade e de uma sociedade melhores.

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Eduarda Moreira Menezes  –  Graduanda em Línguas Adicionais-Inglês e Espanhol na UNIPAMPA Campus-Bagé / Futura professora e futura pesquisadora de interculturalidade e políticas sociais ( e apaixonada pela arte da comunicação.)

Isabelli Batista, ou Isa, ou San –  Graduanda em Letras – Línguas Adicionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), ama idiomas, literatura, livros e chá de camomila.

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