Ano 14 Nº 52/2026 – Educação: a materialização de um poema

Por Melina Rosa Cesarino

Cresci em uma casa cheia de professoras. As datas de festa junina, de show de final de ano e de dias especiais em homenagem aos familiares têm uma linha tênue entre a apresentação aos familiares dos alunos e a família da professora, que passou o dia anterior ao evento cortando folhas, EVA ou colando a decoração.

Durante minha vida escolar, na noite anterior à prova de História, eu perguntava tudo para minha tia — saber todos os nomes da Princesa Isabel era a prova de que ela era a melhor — e, quando precisava fazer uma maquete, sabia quem podia me ajudar: a outra tia, que ensinava nos anos iniciais, pois, com ela, a criatividade não faltava.

Quando encontro ex-alunos, percebo que elas não fizeram somente parte do meu crescer, mas também do desenvolvimento de muitas gerações. Ao visitar a escola em que minha mãe é diretora — e na qual também foi professora durante muitos anos — encontrei uma ex-aluna que agora leva os próprios filhos para estudar na mesma instituição.

Isso é permanência na educação: uma escola que não acolheu somente uma menina, mas também os seus descendentes.

Perante diversas memórias antigas e recentes, almejo compartilhar um pouco mais  sobre a minha mãe. Por ensinar sobre Literatura e Língua Portuguesa, ela tem uma lista com  os seus poemas favoritos, entre os quais são encontrados os versos do poema “Saber Viver”,  de Cora Coralina: 

Muitas vezes basta ser: 

o colo que acolhe, 

o braço que envolve, 

a palavra que conforta, 

o silêncio que respeita, 

a alegria que contagia, 

a lágrima que corre, 

o olhar que acaricia, 

o desejo que sacia, 

o amor que promove. 

Esse trecho da escrita de Cora Coralina representa características de zelar por alguém, em sua riqueza de substantivos que completam verbos conjugados em amor, bem como o ato de lecionar. Vejo a materialização desse poema na sala de aula do primeiro ano do ensino fundamental, em que minha tia é professora: ela é a palavra que conforta toda vez que seus olhos encontram olhinhos menores, ao ressaltar o valor de cada estudante com frases como: “Tu és a minha futura juíza e tu és o meu futuro médico.” Dessa forma, ouvir isso na composição de uma identidade faz muita diferença.

Em contraste, diante do individualismo crescente, muitos educadores esquecem que, durante uma tarde ou uma manhã, possuem o poder de mudar ciclos de autodepreciação — isto é, quando os alunos não conseguem ver o potencial em si mesmos. Nesse sentido, documentários brasileiros, como a obra “Nunca Me Sonharam”, apresentam a perspectiva estudantil ao se deparar com a invisibilidade que envolve suas expectativas. Todavia, a professora que é o olhar que acaricia transforma esse cenário!

Assim como toda professora de Português, a educadora que foi meu lar por nove meses ama “O Pequeno Príncipe” e, em inúmeras conversas, mencionava a frase: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Ao meu ver, todo professor cativa.

A figura de autoridade em sala de aula é desconhecida; a mente humana ama mistério. Para a criança, a professora é um enigma: será que ela tem mãe, pai ou namorado? Queria saber! Mas de uma coisa tenho certeza: ela é responsável por quem a admira.

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Melina Rosa Cesarino – uma estudante de Direito que ama o universo da escrita.

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