Ano 14 Nº 56/2026 – Entre Reencontros e Reflexões: O Que Aprendi ao Voltar ao Brasil
Por Paula Diele Fonseca Lages

Mas como, de fato, foi essa chegada? Esse foi meu último questionamento na edição anterior.
Voltar ao Brasil foi uma experiência muito mais difícil do que eu imaginava. Parece até contraditório dizer isso, principalmente porque quem acompanha meus artigos sabe o quanto o Brasil significa para mim: minha cultura, minha família, meus amigos e todas as raízes que carrego com orgulho.
Ainda assim, retornar não foi simples. Existe uma ideia muito romantizada sobre “voltar para casa”, como se tudo automaticamente encontrasse novamente o seu lugar.
Mas a verdade é que nós mudamos durante o caminho, pois, quando mudamos, o lugar que deixamos também já não é exatamente o mesmo.
Cheguei com o coração dividido entre a felicidade dos reencontros e a sensação estranha de não me reconhecer completamente em uma rotina que um dia foi tão familiar.
Foi preciso reaprender hábitos, reconstruir conexões e entender que voltar também exige adaptação.
Talvez a parte mais difícil tenha sido entender que, depois de viver fora, passamos a pertencer a mais de um lugar ao mesmo tempo. Uma parte minha continuou vivendo nas experiências que tive na China, enquanto outra buscava novamente o conforto das minhas origens.
E foi justamente nesse processo, entre saudade, expectativas e reencontros, que comecei a compreender que retornar para casa também pode ser uma jornada de transformação.
Os primeiros impactos apareceram logo no início da nova rotina. Um deles foi enfrentar diariamente o trânsito e toda a mudança que isso trouxe para os nossos dias.
Depois de viver em um país onde a mobilidade realmente funciona, com ônibus pontuais, trens eficientes e cidades planejadas para facilitar a vida das pessoas, voltar a perder horas no trânsito acabou se tornando um choque constante.
E esses são detalhes que, no dia a dia, afetam diretamente a qualidade de vida das famílias.
Ao mesmo tempo, precisávamos encontrar uma escola para o Samuel, e certamente esse foi um dos processos que mais me fizeram refletir sobre educação, valores e o tipo de formação que estamos oferecendo às crianças atualmente.
Nossa maior preocupação não era encontrar a escola “mais moderna” ou aquela com a estrutura mais impressionante. Queríamos um ambiente onde ele pudesse se sentir acolhido, seguro e respeitado emocionalmente.
Mas também buscávamos algo que, para mim, deveria ser básico dentro de qualquer instituição de ensino: disciplina, respeito e valorização do professor.
Durante o período em que vivemos na China, uma das coisas que mais me marcou foi justamente a forma como as crianças aprendem, desde cedo, a respeitar seus professores, seus colegas e o ambiente escolar.
Existe disciplina, organização e limites claros, não através do medo, mas da consciência coletiva de que educação exige respeito.
E posso dizer, com sinceridade, que vi isso transformar o Samuel de maneira muito positiva.
Ele desenvolveu autonomia, responsabilidade e, principalmente, respeito dentro da sala de aula. Aprendeu a ouvir, esperar, compreender regras e valorizar a figura do professor como alguém fundamental no seu desenvolvimento.
Ao retornar ao Brasil e visitar algumas escolas em Caxias do Sul, tive, muitas vezes, a sensação de que estamos caminhando na direção oposta. Vejo instituições extremamente preocupadas em vender diferenciais, investir em marketing, tecnologia, robótica e estruturas modernas, como se isso, sozinho, fosse definir a qualidade da educação.
E eu não sou contra tecnologia, inovação ou novas metodologias. Pelo contrário. Tudo isso pode enriquecer muito o aprendizado quando existe equilíbrio.
O que me preocupa é perceber que, em muitos casos, aspectos essenciais da formação humana parecem estar ficando em segundo plano.
Na minha opinião, nenhuma tecnologia substitui valores. Nenhuma sala moderna substitui uma educação baseada em respeito. E nenhum currículo sofisticado compensa a ausência de disciplina, limites saudáveis e valorização do professor.
Hoje vejo muitos pais preocupados em oferecer aos filhos aquilo que existe de mais moderno, mas pouco se fala sobre comportamento, responsabilidade e convivência. Parece que ensinar uma criança a respeitar o professor virou algo ultrapassado, quando, na verdade, deveria ser um dos pilares da educação.
Porque o professor não é apenas alguém que transmite conteúdo; o professor influencia comportamentos, constrói referências e participa diretamente da formação emocional e intelectual de uma criança.
E não existe aprendizado verdadeiro em um ambiente onde o educador perde sua autoridade, sua voz e seu espaço para conduzir a sala de aula com equilíbrio e respeito mútuo.
Sinto falta de escolas com um olhar mais humano, escolas que entendem que formar uma criança vai muito além de preparar alunos para provas ou apresentar atividades modernas aos pais.
Educar também é formar caráter, ensinar empatia, responsabilidade e preparar seres humanos para viver em sociedade.
No fim, acredito que aquilo que realmente marca a trajetória de uma criança não é apenas o conteúdo aprendido nos livros, mas os valores que ela leva para a vida inteira.
E ainda foi necessária a busca por um professor de mandarim, pois Samuel já lia e escrevia na língua, e eu sabia que, se interrompesse esse contato, aos poucos acabaria esquecendo tudo aquilo que havia construído com tanto esforço e dedicação.
E, aproveitando essa conexão sobre professores, vivi uma cena que nunca saiu da minha memória.
Quando Samuel iniciou as aulas de mandarim no Brasil, fui acompanhá-lo em um dos primeiros dias junto com uma amiga.
Como toda criança, ele estava brincando, falando alto, pulando e cheio de energia, até que o professor falou algumas palavras em chinês.
Naquele instante, Samuel sentou-se corretamente, ajeitou a postura e permaneceu atento, em silêncio, como se toda a agitação tivesse desaparecido.
Aquilo me fez perceber, de forma muito clara, o quanto o respeito ao professor dentro da cultura chinesa é algo real, profundo e naturalmente construído desde cedo. Minha amiga ficou encantada.
Essa busca não foi fácil. Encontrar alguém que pudesse não apenas ensinar o idioma, mas também manter viva a conexão dele com a cultura chinesa parecia quase impossível. Mas, felizmente, conseguimos encontrar não apenas um, mas dois professores incríveis.
Foi nesse contexto que conhecemos a família de um dos professores de Samuel, uma família chinesa maravilhosa que nos acolheu com um carinho imenso, especialmente ao Samuel.
Eles se tornaram verdadeiros anjos em nossas vidas aqui em Caxias do Sul. A mãe do professor prepara diversas delícias chinesas para ele, e é emocionante ver a felicidade estampada em seu rosto ao sentir novamente sabores que fizeram parte da sua infância e da sua vida na China.
Pequenos gestos como esses mantêm vivas memórias, sentimentos e laços que atravessam qualquer distância.
Estar perto de quem nos ama e de quem escolhe nos amar também traz força, conforto e esperança. São essas conexões humanas que sustentam nossos dias, preservam nossas raízes e fazem com que, mesmo longe de tudo aquilo que um dia conhecemos, nunca nos sintamos verdadeiramente sozinhos.
E talvez seja justamente isso que as mudanças, os recomeços e as expatriações nos ensinem: o verdadeiro lar não é apenas um lugar no mapa, mas as pessoas que caminham conosco ao longo da jornada.
Por agora, encerro este capítulo da nossa história com o coração cheio de gratidão por tudo o que vivemos, aprendemos e construímos até aqui.
Mas levo comigo a certeza de que o mundo ainda nos reserva novos caminhos, novas culturas e novos encontros inesquecíveis.
E quem sabe… em uma próxima expatriação, eu volte para contar mais um capítulo dessa aventura chamada vida.

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Paula Diele Fonseca Lages
Mestre em sanidade animal
Graduada em Medicina Veterinária – URCAMP
Especialista em clínica e cirurgia de pequenos animais – Equallis
Especialista em cirurgia -Qualittas
Fone:(53) 9930-1313
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