Ano 14 Nº 49/2026 – O que a história não traz sobre os Lanceiros Negros: resistência, coragem e luta pela liberdade
Por Andréa de Carvalho Pereira

Grafite dos Lanceiros Negros na Casa do Estudante Universitário II (CEU II) da UFSM. Obra de Deivison Lima e Patrick Vitos (setembro de 2013)
Quando se fala na Guerra dos Farrapos, é comum que a memória coletiva destaque nomes como Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi e Antônio de Souza Netto, entre outros considerados como heróis da revolução. Entretanto, por trás dessas figuras conhecidas, existiram milhares de homens e mulheres que também participaram daquele período histórico e que não são mencionados nos livros ou registros daquela época de forma que se consiga perceber sua importância.
Entre eles estavam os Lanceiros Negros, cuja participação foi fundamental para as forças farroupilhas. A própria Biblioteca Nacional reconhece que, embora a Guerra dos Farrapos tenha sido liderada majoritariamente por elites estancieiras e militares, diferentes grupos sociais participaram do conflito, incluindo combatentes negros.
A história dos Lanceiros Negros, entretanto, não pode ser reduzida à participação militar. Para muitos daqueles homens, a guerra representava uma possibilidade concreta de alcançar a liberdade em uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão.
É justamente essa visão completa do cenário vivenciado que merece ser recuperada: quem eram esses homens que viveram essa época, por que lutaram e o que sua história revela sobre resistência, resiliência e coragem?
Os Lanceiros Negros eram corpos militares constituídos predominantemente por homens negros. Muitos eram escravizados e foram incorporados às tropas farroupilhas sob a promessa de liberdade. Por essa razão, deram suas vidas, almejando um futuro livre.
Estudos sobre o tema indicam que a participação dos negros foi expressiva durante o conflito, mas, quando o tema era abordado, não se mencionava ou destacava sua participação. Uma pesquisa recente da Universidade Federal de Uberlândia destaca a formação de grupos militares compostos por negros e chama atenção para o apagamento desses sujeitos nas narrativas tradicionais sobre a Guerra dos Farrapos.
Essa realidade revela uma das maiores contradições da Revolução Farroupilha: homens escravizados lutavam em um movimento que defendia mudanças políticas enquanto a escravidão continuava presente na sociedade rio-grandense.
Portanto, não é suficiente afirmar que os Lanceiros Negros simplesmente “lutaram pelos Farrapos”; é necessário compreender que, para muitos deles, havia uma motivação diretamente relacionada à própria sobrevivência e à possibilidade de liberdade.
A resistência dos Lanceiros Negros precisa ser entendida dentro do contexto da escravidão brasileira do século XIX, já que ser escravizado significava ter sua liberdade, seu trabalho e, muitas vezes, seus vínculos familiares submetidos ao poder de outras pessoas. Nesse contexto, participar de uma guerra poderia representar riscos enormes, mas também abrir uma possibilidade de transformação da própria condição.
Os Lanceiros não foram apenas instrumentos passivos das lideranças farroupilhas; também se constituíam como homens que participaram de combates, deslocamentos e estratégias militares e que, ao fazê-lo, procuraram construir alternativas para suas próprias vidas.
Cabe, entretanto, evitar uma visão romantizada, pois a promessa de liberdade fazia parte de uma relação marcada por desigualdades e interesses políticos. A participação dos Lanceiros deve ser compreendida simultaneamente como resultado de circunstâncias de guerra e como expressão de agência e resistência. Essa interpretação permite reconhecer esses homens como sujeitos históricos.
Na madrugada de 14 de novembro de 1844, já próximo ao final da Guerra dos Farrapos, ocorreu no Cerro de Porongos, atual município de Pinheiro Machado (RS), um dos episódios mais marcantes da história dos Lanceiros Negros.
O acampamento das tropas farroupilhas foi atacado por forças imperiais. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), aproximadamente 100 soldados negros foram mortos, em um episódio que praticamente dizimou o grupo de Lanceiros Negros presente no local.
As circunstâncias de Porongos continuam sendo objeto de discussão historiográfica. Existe uma longa controvérsia sobre a chamada Carta de Porongos, o desarmamento dos soldados negros e a possível existência de acordos entre lideranças farroupilhas e imperiais.
Por essa razão, é importante distinguir aquilo que está documentado das interpretações ainda debatidas pelos historiadores. O que não pode ser apagado, entretanto, é que homens negros que participavam da guerra foram mortos em Porongos e que esse acontecimento passou a ocupar um lugar central na memória da população negra do Rio Grande do Sul.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quem foram os Lanceiros Negros?”, mas: por que sua participação permaneceu durante tanto tempo em segundo plano na narrativa da Guerra dos Farrapos?
A historiografia tradicional construiu uma memória centrada nas lideranças políticas, nos combates e nos projetos das elites. Nesse processo, homens negros muitas vezes apareceram apenas como parte das tropas, sem que suas histórias, expectativas e experiências fossem devidamente consideradas, sem serem reconhecidos como sujeitos e personagens significativos.
A produção acadêmica, cada vez mais, tem procurado questionar esse apagamento. A pesquisa de Vitor Gabriel Coelho Ribeiro, por exemplo, analisa especificamente a participação dos Lanceiros Negros e aponta a necessidade de superar o apagamento da luta pela liberdade dos escravizados nas narrativas históricas e educacionais. A história dos Lanceiros Negros revela uma dimensão frequentemente esquecida da Guerra dos Farrapos.
Foram homens negros que participaram de uma guerra em condições extremamente difíceis e que, para muitos, tinham na liberdade a principal expectativa. Sua trajetória demonstra que a população negra não foi mera espectadora da história do Rio Grande do Sul; ela construiu e faz parte da mesma.
Os Lanceiros Negros resistiram, lutaram e demonstraram coragem.
Porongos representa uma das páginas mais dolorosas dessa trajetória, mas não deve ser o único episódio pelo qual esses homens sejam lembrados. Sua história também precisa ser associada à resistência, à resiliência e à luta pela liberdade e pelo protagonismo.
Recontar essa história é, portanto, uma forma de reconhecer aqueles que, durante muito tempo, permaneceram nas margens das narrativas oficiais. Mais do que lembrar como morreram, é necessário lembrar por que lutaram.
E talvez essa seja a principal história que ainda precisamos contar sobre os Lanceiros Negros: a história de homens que, mesmo submetidos à escravidão, tiveram coragem de lutar por aquilo que lhes era negado — a liberdade.
Referências
BIBLIOTECA NACIONAL. Documento da Semana: 20 de setembro de 1835 – Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2025. Disponível em: Biblioteca Nacional Digital. Acesso em: 01 set. 2026.
BRASIL. Senado Federal. Lanceiros Negros serão incluídos no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. Brasília: Senado Federal, 2024. Disponível em:. Senado Notícias. Acesso em: 01 set. 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN. Tombamento do Cerro de Porongos, em Pinheiro Machado (RS), avança no Iphan. Brasília: IPHAN, 2026. Disponível em: IPHAN . Acesso em: 27 ago. 2026.
RIBEIRO, Vitor Gabriel Coelho. Entre sarjetas: lanceiros negros na Guerra de Farrapos (1836-1844). Dissertação. Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia: UFU, 2024. Disponível em: Repositório Institucional da UFU. Acesso em: 22 ago. 2026.
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Cultura. RS Negro: cartografias sobre a produção do conhecimento. Porto Alegre: Secretaria da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, 2010.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA. Por que esquecemos dos Lanceiros Negros? Ilustração Lanceiros Negros. Santa Maria: UFSM, [201-]. Disponível em: https://www.ufsm.br/unidades-universitarias/ccne/2019/09/18/por-que-esquecemos-dos-lanceiros. Acesso em: 26 ago. 2026.
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Andréa de Carvalho Pereira – Graduada em Administração de Empresas pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG (2001). Graduada em Biblioteconomia pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande- FURG (2006). Pós-Graduada com Especializações em: Gestão em Arquivos pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM (2011) e Rio Grande do Sul: Sociedade, Política e Cultura pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG (2011). Bibliotecária do Campus Bagé da Universidade Federal do Pampa. Ex- Coordenadora do Neabi Oliveira Silveira – Unipampa, Campus Bagé desde (2019-2025). Mestra em Ensino pela Universidade Federal do Pampa – Unipampa, Campus Bagé (2021).

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