Ano 14 Nº 26/2026 Quem ama, aceita

Matheus Machado¹

Ele era apenas um menino. Como seus pais sonhavam com seu nascimento. Parecia um menino como os outros quando recém-nascido, mas, conforme crescia, seus pais perceberam que havia algo diferente nele. O modo como olhava para as outras pessoas era bastante diferente e peculiar. Além disso, seus olhos eram avermelhados, o que era estranho, pois ele não era albino e também não tinha problemas de visão. Quando estava escuro, seus pais percebiam que seus olhos brilhavam e iluminavam ao redor como lanternas naturais. Seus pais ficaram muito preocupados, pois uma característica tão peculiar poderia se tornar motivo de zombaria e até de repulsa diante das outras pessoas. Por isso, não deixavam seu filho sair à noite e, durante o dia, ele usava óculos escuros. Seus pais diziam aos outros que eram óculos especiais para que a luz do sol não machucasse seus olhos tão sensíveis.

O menino cresceu e foi para a escola. Seus colegas achavam esquisito ele usar óculos escuros mesmo em ambientes fechados, mas ele era bem aceito por todos e nunca teve problemas na escola. Ele tentava viver uma vida normal dentro do possível, mas sabia que algumas precauções eram necessárias, como nunca deixar que o vissem sem os óculos e cuidar para não perdê-los ou deixar que quebrassem. Com esses devidos cuidados, pensava que tudo ficaria bem, e isso tranquilizava a si mesmo e a seus pais, que temiam que ele sofresse humilhações na escola por causa de seu segredo ou até mesmo fosse visto pelos outros como um “animal raro”.

No fundo, o que mais incomodava seus pais era o fato de que eles não aceitavam seu filho como ele era. O amavam, mas, quando se tratava de encarar a característica tão peculiar que envolvia os olhos dele, seus pais perguntavam a si mesmos por que aquilo tinha acontecido com eles. Afinal, não conheciam outros casais que tivessem filhos assim. Os filhos de seus amigos e parentes eram considerados “normais”, então não aceitavam o fato de que o filho deles não fosse “normal”. Isso lhes dava raiva, e não sabiam como apoiar o garoto, que se sentia solitário dentro da própria casa pela não aceitação de seus pais.

Preocupados, os pais do garoto o levaram a um médico de confiança para que o examinasse e visse se não havia algum tratamento que pudesse curá-lo. O médico, no entanto, revelou aos pais que os olhos dele eram perfeitos e que o fato de serem diferentes não significava que houvesse algo de errado com o filho deles. O garoto era forte e saudável, e sua visão era perfeita. Ele não precisava de cirurgia nem de qualquer tipo de tratamento, pois, como não tinha nada de errado, não havia nada a ser feito, já que não há cura para o que não é doença.

Ao invés de saírem tranquilos do consultório, os pais do garoto estavam arrasados, pois achavam que o médico poderia fazer algo pelo filho deles. A verdade é que o casal não conseguia aceitar a particularidade de seu filho de forma alguma. Com o tempo, chegaram a duvidar do amor que sentiam por ele, porque pensavam que ele deveria tentar, de alguma forma, ser um menino como os outros. Isso criou uma barreira entre o casal e seu filho, e os afetos deixaram de existir. Não houve mais nenhuma demonstração de amor e carinho dentro da casa deles. O casal percebeu que sentia repulsa pelo fato de o filho não estar dentro daquilo que esperavam, ou seja, um filho considerado “normal”. Mas, afinal, o que significava ser “normal”? Nem eles mesmos sabiam. Só sabiam que o filho deles não era, mas eles eram.

Esse questionamento sobre a possível “anormalidade” do menino levou o pai a questionar se de fato era o pai dele ou não. Infelizmente, o preconceito falou mais alto, e ele não quis ao menos fazer um teste de paternidade. Simplesmente disse que o menino não era filho dele, pois um filho seu jamais nasceria assim. Desse modo, o pai arrumou suas malas e foi embora de casa, tratando do divórcio com sua esposa por intermédio de um advogado. O divórcio saiu rápido, pois ambos estavam de acordo, já que o amor entre os dois esfriou e se desgastou devido à não aceitação do filho, um menino tão doce e gentil que se sentia culpado pela separação dos pais. Mas não foi difícil para ele encontrar apoio entre seus colegas de escola, já que muitos tinham pais divorciados.

O menino ficou sob total responsabilidade de sua mãe, que também não quis ficar com ele. Passou a guarda dele para a avó materna do menino, uma senhora sábia pelos muitos anos de vida que tinha. Era incrível que, mesmo sendo mais velha que os pais dele e tendo tido uma criação ainda mais rígida, fosse uma mulher à frente de seu tempo e com uma capacidade de amar que tinha muito a ensinar a qualquer pessoa.

O menino sofreu por não ter mais seus pais, mas sua avó lhe mostrou o que era o amor de uma família. Nos braços dela, sentia-se feliz e seguro e sabia que poderia contar com sua ajuda sempre que precisasse. Ela deixou claro que o amava do jeitinho que ele era e que jamais mudaria nada nele. Isso lhe deu forças para enfrentar todos os desafios que surgissem em sua vida.

Com o tempo, o menino percebeu que todos os seus colegas de escola tinham suas particularidades e todos eram bem aceitos pelos professores. Assim, incentivado por sua avó, compartilhou seu segredo na escola e percebeu que não apenas ela, mas muitas pessoas estavam dispostas a aceitá-lo do jeito que era.

Houve um teatro na escola sobre diversidade no qual ele se apresentaria. Ele estava animado, pois as famílias iriam assistir a seus filhos, e sua avó estaria lá para vê-lo. Nada o deixaria mais feliz. O título da peça foi uma sugestão sua: “Quem ama, aceita”. A peça foi encenada no ginásio da escola, que estava lotado, por sinal.

No palco, o menino fez algo que jamais teve segurança para fazer: tirar seus óculos na frente de todos. O brilho de seus olhos fez com que ele fosse aplaudido de pé por todos os presentes. E, no meio deles, estavam seus pais, que subiram ao palco chorando e arrependidos por não o terem compreendido. Os três se abraçaram em meio a lágrimas de alegria e perdão. A emoção tomou conta de todos os presentes, e a avó também subiu ao palco para se juntar àquele abraço tão gostoso.

O garoto voltou a viver com seus pais, que anularam o divórcio. A avó passou a morar com eles e, dali em diante, ninguém soltaria a mão de ninguém, e todos poderiam contar uns com os outros sempre que precisassem. O amor superou todas as barreiras do preconceito e da intolerância a tempo de que os pais do menino percebessem o grande erro que cometeram. Ele já não precisava de seus óculos escuros, pois não tinha mais motivos para se esconder. Aquela se tornou, de fato, uma família feliz.

Houve outros desafios ali, mas todos foram superados porque já não havia espaço para preconceito e discriminação, pois, onde há amor de verdade, não existem reservas nem barreiras. E uma placa foi colocada na frente da casa deles, onde estava escrito o novo lema da família: “Quem ama, aceita”.

¹ Matheus Machado é licenciado em Pedagogia pela UNOPAR e em Letras-Português pela UNIPAMPA. É especialista em Educação Especial Inclusiva pela UNIASSELVI e em Atendimento Educacional Especializado pela UERGS. Atua como professor de Educação Infantil na rede pública municipal. Gosta de escrever, ler, assistir novelas e séries, fazer ginástica, caminhar, fazer doces e bolos, aprender novos idiomas, estudar. Lançou recentemente uma antologia de contos de terror e suspense.
E-mail: teteusmachado17@gmail.com

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