Ano 14 Nº 22/2026 Entre a partida e o retorno: o peso das escolhas e o medo do recomeço
Paula Diele Pereira Fonseca

E então chegou o momento tão aguardado e, ao mesmo tempo, tão inquietante. É curioso perceber como a emoção do retorno pode caminhar lado a lado com a ansiedade diante do desconhecido.
Quando recebemos a notícia de que voltaríamos, fomos tomados por um grande susto. Havíamos renovado o contrato do meu esposo por mais dois anos e confesso que isso já me causava certo receio, pois a ideia de permanecer tanto tempo longe da minha terra era difícil de assimilar. Por isso, a mudança repentina de planos foi tão inesperada quanto intensa.
Tudo aconteceu de forma rápida, quase sem tempo para assimilar. Para o Samuel, especialmente, a notícia trouxe frustração. Ele estava plenamente adaptado: feliz com seus amigos, envolvido com a escola e com vínculos já construídos com professores e colegas. Romper com essa realidade não foi simples.
Acredito que, para o Fábio, a notícia também não tenha sido recebida com total entusiasmo. No entanto, ela vinha acompanhada de uma oportunidade importante: uma promoção e a possibilidade de assumir um novo cargo no Brasil. Sob essa perspectiva, havia, sim, um lado positivo e promissor.
Por outro lado, enfrentávamos um desafio significativo: Samuel estava completamente inserido na rotina, nas regras e nos costumes chineses. O sistema educacional na China exige alto nível de comprometimento desde cedo, incentivando a proatividade e o destaque individual. Crianças que não acompanham esse ritmo acabam ficando para trás, em um processo bastante exigente.
Diante disso, sabíamos que a transição não seria fácil. Inseri-lo novamente no contexto das escolas brasileiras exigiria adaptação e, inevitavelmente, estranhamento.
Ainda assim, seguíamos conscientes de que cada mudança carrega consigo não apenas dificuldades, mas também oportunidades de crescimento.
Além de tudo, eu também precisaria retomar minha própria rotina. E, como já mencionei em outras ocasiões, sempre me senti mais acolhida na China do que em Caxias do Sul. Saber que, mais uma vez, eu enfrentaria um novo processo de adaptação despertava em mim sentimentos mistos, entre insegurança e resignação.
Após a notícia do retorno, tivemos apenas dois meses para organizar toda a nossa vida e nos despedirmos das pessoas que, ao longo do tempo, se tornaram parte da nossa história como família.
Foram semanas intensas, preenchidas por compromissos práticos, mas também por encontros carregados de significado.
Coincidentemente, nesse mesmo período, já havíamos planejado uma viagem ao Camboja com um casal de amigos muito especiais – amigos que, inclusive, tivemos a alegria de apadrinhar em seu casamento no Brasil. Essa viagem acabou se transformando em nossa despedida da Ásia.
E que despedida foi essa. Partimos com o coração apertado, conscientes de que deixaríamos para trás não apenas um lugar, mas uma fase inteira de nossas vidas. Sabíamos que a saudade seria inevitável.
Durante essa viagem, entre paisagens e conversas, buscamos também organizar nossos pensamentos e nos preparar emocionalmente para o retorno ao Brasil.
Foi um momento significativo não apenas para refletirmos, mas, sobretudo, para iniciarmos um diálogo sincero com o Samuel sobre tudo o que estava por vir.
Ainda tão pequeno, ele interpretava nossas conversas com leveza e uma inocência comovente.
Para ele, a ideia de voltar ao Brasil parecia apenas mais uma viagem de férias – uma compreensão simples, distante da real dimensão daquela mudança que, para nós, carregava tantas camadas e incertezas.
Diante disso, buscamos abordar o assunto de forma cuidadosa e acolhedora. Falávamos sobre uma nova escola, sobre a proximidade com a avó, sobre a alegria de estar mais perto da irmã. Tentávamos, com palavras suaves, construir para ele uma visão positiva desse retorno.
No entanto, fomos surpreendidos pela clareza de seus sentimentos. Com a sinceridade que só uma criança é capaz de expressar, aquele pequeno – mas já tão firme em suas emoções – revelou sua vontade.
Disse, com simplicidade desarmante, que preferia permanecer na escola e que poderíamos buscá-lo nas férias.
Naquele instante, meu coração se encheu de dor. Percebi que não se tratava apenas de uma mudança geográfica, mas de algo profundamente significativo para ele.
Samuel havia criado laços, desenvolvido afeto e construído pertencimento. Seu amor pela China se tornava evidente, e isso nos comovia profundamente.
Com delicadeza, procurei explicar que ele não poderia permanecer, mas que voltaríamos para visitar, assim como fazíamos quando vivíamos na China e viajávamos ao Brasil.
Era uma tentativa de oferecer algum conforto, de transformar a despedida em algo menos definitivo.
Ainda assim, dentro de mim permanecia a certeza de que todos nós, cada um à sua maneira, estávamos aprendendo a lidar com o difícil processo de partir.
Em mim, no entanto, também habitava uma inquietação silenciosa: a dúvida sobre a decisão de retornar. Era como se algo ainda estivesse inacabado.
Um sentimento difícil de traduzir em palavras, mas que se manifestava constantemente na forma de um questionamento interno: será que estamos fazendo o certo?
Apesar dessas incertezas, tudo seguia conforme o planejado para o retorno. Vivíamos dias intensos, marcados por despedidas, encontros e celebrações que, ao mesmo tempo em que aqueciam o coração, também reforçavam a dor da partida.
Entre malas sendo organizadas e bens sendo cuidadosamente separados, a realidade da mudança se tornava cada vez mais concreta.
Mas havia ainda outro receio que me acompanhava: o impacto de deixar para trás uma rotina marcada pela praticidade.
Na China, a vida fluía com uma eficiência impressionante. A locomoção era simples, os serviços funcionavam com agilidade e o cotidiano parecia desenhado para facilitar cada detalhe.
Aplicativos como o DiDi tornavam o transporte acessível e rápido, enquanto entregas de mercado, hortifrúti e refeições chegavam com qualidade e pontualidade quase impecáveis. Era um estilo de vida ao qual nos adaptamos e, inevitavelmente, nos acostumamos.
Foi nesse momento que compreendi que enfrentaria não apenas uma mudança geográfica, mas também um possível choque cultural reverso.
Retornar ao Brasil significava, de certa forma, abrir mão dessa dinâmica eficiente para reencontrar uma realidade diferente, com seus próprios desafios.
E, acima de tudo, havia a questão da segurança: a liberdade de ir e vir sem medo, de caminhar pelas ruas com tranquilidade, era algo que fazia parte do nosso cotidiano na China.
A sensação de proteção era constante, quase natural – um contraste marcante com aquilo que sabíamos que encontraríamos ao voltar.
Assim, entre despedidas e preparativos, eu me via dividida entre a razão e o sentimento, carregando comigo não apenas malas, mas também dúvidas, receios e a esperança de que, mesmo diante das incertezas, encontraríamos novamente o nosso lugar.
E assim, entre incertezas, despedidas e expectativas, nos aproximávamos do momento do retorno. Sabíamos que não seria fácil.
Recomeçar exige coragem, sobretudo quando se deixa para trás uma vida já estruturada, vínculos construídos e uma rotina que funcionava com fluidez.
O retorno carrega, inevitavelmente, seus desafios. Há a readaptação, as comparações silenciosas, o estranhamento diante daquilo que um dia já foi familiar.
Existe o desconforto de não se sentir completamente pertencente, nem ao lugar que se deixou, nem, por um tempo, ao lugar para onde se volta.
Mas, ao mesmo tempo, havia algo maior pulsando dentro de nós: o reencontro com nossas raízes.
A proximidade com a família, os laços que o tempo e a distância não foram capazes de romper, o acolhimento daquilo que, no fundo, sempre foi parte de quem somos. Voltar também é, de certa forma, um retorno a si mesmo.
Entre a dificuldade e a emoção, seguíamos, carregando saudades de um lado e esperança do outro, aprendendo que cada ciclo que se encerra também abre espaço para novos começos.
E foi assim que desembarcamos nessa nova e, ao mesmo tempo, antiga fase da nossa vida.
Mas como, de fato, foi essa chegada? Como enfrentamos os primeiros dias, a busca por uma nova escola e o desafio de reconstruir uma rotina?
Essa é uma história que merece ser contada com calma… e que fica para o próximo capítulo.

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