Ano 14 Nº 10/2026 Remendos
Vitória Gery Barbosa

Imagem: gerada pelo Gemini
Existe uma frase muito popular de Guimarães Rosa que diz: “Viver é um rasgar-se e
remendar-se”. Apesar de a frase se aplicar à experiência humana em geral e não falar de um gênero específico, enquanto mulher, sinto-a ecoar dentro de mim diariamente.
O maior rasgo — o que ainda não consegui remendar — veio da pessoa que tinha como
responsabilidade me proteger, o primeiro homem que me machucou: o meu pai.
Desde pequena, ouvi frases como: “Senta direito, isso não é coisa de mocinha”, “Que boca é essa? Isso não é coisa que menina fale”, “Com esse teu gênio forte, nenhum homem vai te querer”. Mas que mulher nunca ouviu essas frases? Eu, particularmente, as ouço desde muito jovem, quando era pequena demais para sequer entender o significado delas.
Durante a infância, minha própria família rasgou quem eu verdadeiramente era várias vezes, e eu precisei remendar todos os pedacinhos que sobraram. Na adolescência, as coisas pioraram, e ela foi marcada por mais violência; se esconder e se proteger virou uma necessidade que não podia mais ser adiada.
Na minha adolescência, quase não sobrou nada para eu remendar.
— Fulaninho passou a mão na tua perna? Mas tu estava de short, né? Mereceu — disse a diretora da escola, outra mulher.
Dias depois, a mesma diretora me puxou em um canto, enquanto eu estava na fila do refeitório, e disse:
— Blusa “cavada”, Maria? Depois você vai na secretaria reclamar dos meninos; assim eu não posso te defender.
Eu escutava quase diariamente comentários sobre o meu corpo, o quanto eu tinha “crescido”, e reclamar para a escola nunca surtiu efeito algum. Eventualmente, percebi que ninguém me defenderia; então, eu mesma rasguei o que eu era, o que eu gostava de vestir e a forma como eu me portava. Passei a usar roupas largas para me esconder o máximo que pudesse e me costurei em uma versão mais agressiva, rude e distante.
Em casa, as coisas não eram melhores: mãe e pai machistas e conservadores, cujas cobranças criaram rasgos que se tornaram buracos na minha alma.
— Mãe, por que eu preciso lavar a louça, mas meu irmão não?
— Porque tu é mulher, e eu gasto mais dinheiro contigo! Tu me pede absorvente, gillette, creme para o cabelo. Pode deixar que da criação do teu irmão cuido eu.
Por causa dos problemas, comecei a passar menos tempo em casa e, aos 15 anos, conheci um cara de 22. Ninguém me protegeu; diziam que era porque eu era muito rebelde, não adiantaria de nada. E foi assim que eu tive o resto da minha adolescência roubada por um relacionamento abusivo. Mais uma vez, eu me rasguei, e só me remendei cinco anos depois.
Hoje, na vida adulta, me vejo remendada com o que consegui encontrar: panos frágeis e sensíveis. Vivo com medo de que alguém ou algo faça eu me despedaçar de novo. Me pergunto: será que eu aguentaria me remendar mais uma vez?
Sou uma mulher, devo aguentar.
Vitória Gery Barbosa é graduanda do curso de Letras – Línguas Adicionais: Inglês, Espanhol e Respectivas Literaturas e atualmente está no 7º semestre. Se interessa por literatura, linguística aplicada e tradução.
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