Ano 14 Nº 11/2026 Memórias que surgiram de um ventre

Melina Rosa Cesarino

Vivências são compostas por memórias. Desse modo, esses fragmentos de acontecimentos captados ao ver, ao ouvir e ao presenciar se organizam no hipocampo, parte crucial do cérebro. Nesse urgir em linhas do tempo, as lembranças de momentos em minha família, com uma coletividade que compartilha o mesmo DNA surgindo de um mesmo ventre — o de minha vovó — resgatam em mim uma força, uma vivência: ser mulher.


Com a minha vovó, compartilho inúmeras memórias, como uma vez em que eu estava andando de bicicleta na campanha e uma cobra surgiu do mato! Só tenho um flash em minha mente quando penso nesse acontecimento: o pé de vovó esmagando a cobra. Meu hipocampo, sem dúvidas, associou-a a uma guerreira inigualável. Contudo, não foi somente nesse momento que percebi que estava convivendo com uma valente senhora. Antes disso, ela havia sobrevivido a um AVC e a um acidente de carro. Vovó é uma mulher forte.


Lembrar de experiências é poder refletir e mudar o passado. Visitar o que meu sangue viveu em anos passados ajuda o meu caminhar. Por exemplo, minha avó não conseguiu concluir seus anos escolares, mas, ao compreender seu passado, incentiva meu futuro na universidade. Às vezes, agarramo-nos às vivências; todavia, nem sempre devemos nos prender a elas.


Diante desse cenário, o meu agora abraça a força e a perseverança de minha avó, mas não os impedimentos que a cercaram. Ao passo que as âncoras que a seguravam foram deixadas sozinhas ao mar, meu barco pode avançar ao observá-las no fundo azul-marinho — âncoras que seguraram uma guerreira, entretanto não prenderão sua descendência.

Melina Rosa Cesarino – uma estudante de Direito que ama o universo da escrita.

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