Ano 14 Nº 07/2026 Eu lembro da minha mãe reclamando.
Ana Gabrielly dos Santos Dias

Reclamava do cansaço, do preço das coisas, da correria do dia. Às vezes dizia que estava exausta, que precisava de um descanso que nunca parecia chegar. Mas, mesmo reclamando, ela nunca desistiu.
Lembro dela chegando em casa.
A porta abrindo no fim de tarde. O barulho da bolsa sendo colocada na mesa. O sapato tirado com um movimento mais lento. Um silêncio curto antes de perguntar:
— Vocês já comeram?
Naquela época, eu não sabia que trabalhar em mais de um emprego não era apenas “trabalhar muito”. Eu não entendi o peso de sustentar uma casa quando o dinheiro nunca parecia suficiente. Eu só sabia que algumas coisas precisavam esperar. Que certos pedidos recebiam um “depois a gente vê”. Que o mês sempre parecia maior que o salário.
Foi na adolescência que comecei a enxergar melhor. Foi quando deixei de ser apenas filha e comecei a me tornar amiga. Quando as conversas ficaram mais longas, eu passei a perceber o que antes parecia invisível.
Eu via o cansaço. Via quando ela chegava mais quieta do que o normal. Quando sentava por alguns minutos, antes de levantar de novo. Quando dizia que estava tudo bem, mesmo não estando. Mas, mesmo cansada, ela ficava. Ficava para organizar a casa, para perguntar da escola e para garantir que nada faltasse, mesmo quando faltava para ela.
E, mesmo assim, havia espaço para noites de filmes. A sala simples virava cinema e não importava se o filme era repetido ou se o sofá era desconfortável. Por algumas horas, a preocupação esperava do lado de fora. E a gente ria.
Havia também os livros.
Eu a via lendo. Mesmo cansada, com o corpo pedindo descanso, ela abria um livro ou um gibi. Às vezes, lia para ela, muitas vezes, lia para nós. Sentava ao nosso lado e transformava aquelas páginas em aventura, em personagens com vozes diferentes, em histórias que pareciam maiores do que o quarto. Não era obrigação ler, era esforço.
Ela poderia ter escolhido apenas descansar, mas escolhia abrir um gibi, escolher uma história, dividir aquele momento. Talvez ela não soubesse, e não sabia ainda, mas ali, ela estava plantando algo definitivo em mim.
Eu não aprendi que estudar era importante apenas porque alguém disse. Eu aprendi porque vi. Vi que, mesmo na rotina difícil, havia espaço para as palavras. Vi que o cansaço não anulava o desejo de aprender. Vi que a leitura podia ser refúgio, sonho e possibilidade.
Na adolescência, quando as conversas se tornavam mais sinceras, eu comecei a entender melhor o tamanho da luta diária que ela enfrentava. O dinheiro contado, as escolhas adidas e a responsabilidade constante.
Minha tranquilidade foi sustentada por decisões difíceis que eu só compreendi com o tempo. Minha mãe nunca fez discursos sobre força. Ela simplesmente acordava no dia seguinte e começava tudo outra vez.
Talvez ser mulher, para mim, tenha começado ali, não em frases bonitas, mas na convivência. Na amizade que nasceu quando eu passei a enxergá-la não apenas como mãe, como uma mulher que lutava, persistia e sonha até hoje.
Neste Dia das Mulheres, minha homenagem não é feita de palavras grandiosas. É feita de reconhecimento. Reconhecimento do esforço que ninguém via, do amor que se manifestava em trabalho.
Se hoje eu sigo meu caminho, estudo, ensino e acredito na educação, é porque um dia alguém trabalhou dobrado para que eu pudesse escolher. E essa mulher nunca precisou ser perfeita. Ela apenas nunca desistiu. E eu aprendi olhando.

Ana Gabrielly dos Santos Dias. gabys91856782@gmail.com.
Licenciada em Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa e Mestra em Ensino de Línguas pela UNIPAMPA. Atualmente professora na escola Maria Joaquina de Menezes – Lavras do Sul – RS.
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