Ano 13 Nº 69/2025 Entre Pacientes e Novas Palavras: Meu Novo Mundo sendo veterinária na china.
Paula Diele Pereira Fonseca

Este é, sem dúvida, o tema mais sensível de abordar, pois a Medicina Veterinária representa minha grande paixão, e nutro profundo amor e gratidão por essa profissão. Ser médico-veterinário vai muito além do cuidado direto com os animais. A Medicina Veterinária exerce papel fundamental na saúde pública, especialmente por meio do controle sanitário de diversos alimentos, o que evidencia sua importância para o bem-estar humano.
Além disso, a profissão é essencial na promoção do bem-estar animal, área na qual adquirimos amplo conhecimento sobre comportamento e qualidade de vida dos animais. A partir da experiência que vivenciei, apresento a seguir uma reflexão pessoal sobre os animais mantidos em cativeiro.
Mesmo quando nascidos em cativeiro, considero essa prática extremamente questionável. Reconheço que os zoológicos têm como propósito exibir a biodiversidade e promover a educação ambiental, além de possuírem objetivos turísticos e econômicos. Também compreendo que, em alguns casos, a reprodução é incentivada, especialmente entre espécies ameaçadas, como parte de programas de conservação. No entanto, ainda assim, trata-se de manter animais em espaços reduzidos, essencialmente para fins de entretenimento humano. Diante disso, questiono: seria essa prática realmente justa?
Nunca atuei como ativista nem havia refletido profundamente sobre tais práticas. Confesso que, até então, considerava os passeios a zoológicos experiências encantadoras até me deparar, pessoalmente, com a realidade desses animais. Hoje afirmo com convicção: não existe bem-estar em contextos de confinamento. Para ilustrar, basta recordar o período da pandemia de Covid-19, em que muitos de nós permanecemos reclusos em nossas casas, ainda que com conforto e acesso a serviços. Mesmo assim, o sentimento de restrição foi marcante.
Por outro lado, existem locais que merecem reconhecimento e incentivo, os chamados santuários. Esses espaços têm como objetivo principal oferecer abrigo e cuidado vitalício a animais resgatados de situações de exploração, abandono, maus-tratos ou tráfico. Neles, o foco é a proteção, a reabilitação e, sobretudo, a dignidade dos animais, garantindo espaço, liberdade e tranquilidade.
Nos santuários, a reprodução geralmente não é permitida. Em minha opinião, poderia haver exceções para espécies ameaçadas de extinção, considerando que o ambiente controlado favorece programas de conservação. As visitas são permitidas, mas possuem caráter estritamente educativo e sem interação direta com os animais.
Apresentadas essas considerações, acredito que o leitor possa compreender o propósito desta introdução. Minha experiência profissional no zoológico representou uma vivência extraordinária, desafiadora e profundamente transformadora. Enfrentei barreiras linguísticas porém apesar das dificuldades de comunicação, o uso de tradutores e a colaboração entre os membros da equipe onde alguns possuíam conhecimento básico de inglês permitindo o desenvolvimento de um trabalho coeso e eficiente.
Até então, eu não possuía experiência prévia com animais selvagens. Cada dia de trabalho constituiu um novo desafio e uma oportunidade única de aprendizado.
Durante o período em que atuei, participei de diversos procedimentos clínicos e cirúrgicos em diferentes espécies, além de acompanhar o trabalho de médicos-veterinários altamente capacitados e dedicados. Meu principal campo de atuação foi a maternidade, setor responsável por acolher filhotes rejeitados pelas mães. Nesse ambiente, tive a oportunidade de cuidar de lobos, tigres e ursos ainda em fase neonatal, presenciar seu desenvolvimento saudável e observar, com o tempo, a manifestação de seus instintos naturais foi uma experiência verdadeiramente marcante.
Da mesma forma, vivenciar a recuperação de um animal enfermo proporcionava uma sensação indescritível de realização e propósito, evidenciando que o trabalho veterinário é capaz de transformar realidades e devolver a vida. A possibilidade de realizar procedimentos em espécies com as quais eu nunca havia tido contato foi igualmente significativa, despertando sentimentos que vão além da descrição racional.
Entre as atividades rotineiras, as rondas diárias também se destacavam como momentos de intensa conexão com a fauna silvestre. Caminhar ao lado de girafas e elefantes, além de manter contato próximo com pandas vermelhos e pandas-gigantes, foi uma experiência singular e enriquecedora.
Entretanto, mesmo diante de tantos aspectos positivos, não consegui me sentir plenamente confortável naquele ambiente. A percepção de que muitos animais permaneciam confinados, privados de liberdade, gerava em mim um profundo sentimento de impotência. Na China, diferentemente do Brasil, ainda é permitido o uso de animais em apresentações e espetáculos essa prática que, infelizmente, está associada a maus-tratos e sofrimento.
Essa realidade me impactou profundamente. Os olhos daqueles animais transmitiam tristeza e resignação, e compreender que sua presença ali servia unicamente ao entretenimento humano foi algo que transformou minha percepção sobre o papel ético do profissional médico-veterinário.
E essa experiencia me tornou um pouco mais humana em relação as coisas que acontecem ao meu redor, me fazendo enxergar muito além, entendendo também as nossas responsabilidades como seres humanos.
Essa vivência no zoológico proporcionou não apenas um aprendizado técnico e científico, mas também uma profunda reflexão ética. A convivência diária com os animais em cativeiro evidenciou, de forma incontestável, que nenhuma espécie foi criada para viver sob olhares constantes, isolada de seu ambiente natural e de suas expressões mais genuínas de comportamento.
Cada olhar, cada movimento contido, revelava silenciosamente o impacto do confinamento. Essa experiência reforçou em mim a convicção de que o verdadeiro respeito pela vida animal está em preservar a liberdade, o habitat e a dignidade de cada ser vivo e não devemos exibi-los como objetos de contemplação.
Foi essa compreensão que ampliou minha visão sobre o papel da medicina veterinária e da conservação, inspirando-me a seguir em busca de experiências que unam conhecimento, ética e empatia. Na próxima coluna, compartilharei as vivências que tive em diferentes regiões, dentro e fora da China, trajetórias que me ensinaram novas formas de compreender o mundo e o valor da liberdade.
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