Ano 13 Nº 63/2025 Do indivíduo ao coletivo: caminhos da Consciência Negra.
Mauricio Nunes Macedo de Carvalho
Vitória Vasconcellos da Luz

Fonte: ESESP, 2015.
Nas décadas de 1930 e 1940, o termo “consciência negra” ganhou força no movimento da Negritude, liderado por intelectuais africanos e caribenhos como Aimé Césaire e Léopold Senghor. Esse movimento surgiu como resposta ao colonialismo europeu, defendendo o orgulho da identidade africana e a valorização da cultura e da história dos povos negros, reafirmando sua contribuição essencial para a humanidade. (PORFÍRIO, 2025)
Na década de 1970, o conceito de “consciência negra” ganhou força no Brasil com a criação do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978. O movimento denunciava o racismo estrutural e reivindicava igualdade de direitos, inspirando-se em lutas internacionais, como o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos. Nesse contexto, a consciência negra passou a representar não apenas a denúncia das injustiças sociais, mas também o orgulho da identidade afro-brasileira e a resistência ativa contra a discriminação.
Celebrado em 20 de novembro, data que marca a morte de Zumbi dos Palmares em 1695, o Dia da Consciência Negra foi instituído oficialmente pela Lei nº 12.519/2011 e elevado à condição de feriado nacional em 2023 pela Lei nº 14.759. Mais do que uma data comemorativa, representa um momento de reflexão profunda sobre a posição da população negra na sociedade brasileira, promovendo debates, manifestações culturais e ações educativas que reforçam a luta contra o racismo e valorizam a contribuição afro-brasileira para a formação da nossa identidade nacional. (REDAÇÃO NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL, 2023)
Mas afinal, o que é consciência, como ela se manifesta e qual sua relação com a negritude?
A busca pela compreensão da consciência transcende o mero exercício intelectual, configurando-se como uma jornada que influencia profundamente diferentes áreas do saber, como a filosofia, a sociologia, a psicologia e a educação. O termo “consciência”, derivado do latim conscientia, significa, em sua essência, “conhecimento conjunto” ou “compartilhado”, remetendo a uma dimensão que ultrapassa o indivíduo e sugere uma ligação intrínseca com o autoconhecimento e com a percepção da própria alma ou essência. (LUCIDARIUM, s.d.)
Ao longo dos tempos, o conceito de consciência foi discutido por filósofos, sociólogos e educadores, cada um dentro de seu campo de estudo. Essas reflexões abriram caminho para identificar cinco tipos ou dimensões da consciência: consciência individual, moral, histórica, coletiva e cultural. Cada um deles destaca um aspecto específico da forma como os seres humanos percebem a si mesmos, os outros e o mundo.
Consciência individual
- A consciência individual, entendida como a capacidade de reconhecer-se como um ser único, com pensamentos e sentimentos próprios, estabelece uma relação direta com a consciência negra, que representa o reconhecimento da identidade e da dignidade da população afrodescendente na sociedade brasileira. Assim como John Locke destacou a consciência como percepção da mente e psicólogos posteriores aprofundaram a noção de subjetividade, a consciência negra amplia esse processo ao situar o indivíduo negro em sua história e cultura, fortalecendo sua autoconsciência e valorizando sua contribuição coletiva. Dessa forma, a consciência individual torna-se o ponto de partida para a consciência negra, pois é no reconhecimento íntimo de quem se é que nasce a força para afirmar a identidade, resistir ao racismo e reivindicar igualdade social. (WISDOMLIB, s.d.; PORFÍRIO, s.d.)
Consciência moral
- A consciência moral, entendida como a capacidade de discernir entre o certo e o errado e de orientar nossas ações por princípios éticos universais, conecta-se diretamente à consciência negra ao evidenciar a necessidade de refletir sobre a injustiça histórica da escravidão e do racismo estrutural. Assim como Immanuel Kant destacou que a consciência moral guia o julgamento das ações humanas, o Dia da Consciência Negra convoca a sociedade a assumir responsabilidade ética diante das desigualdades que persistem, transformando o reconhecimento da dignidade da população negra em um imperativo moral. Nesse sentido, a consciência individual se fortalece ao integrar valores de justiça e respeito, enquanto a consciência negra amplia esse horizonte, exigindo que cada pessoa, independentemente de raça e cor, reconheça sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais igualitária. (EQUIPE DOS SIGNIFICADOS, s.d.; PAUGAM, 2017)
Consciência histórica
- A consciência histórica, entendida como a capacidade de interpretar o passado e relacioná-lo ao presente e futuro, conecta-se profundamente à consciência negra ao destacar a importância da memória coletiva na construção da identidade individual. Assim como Wilhelm Dilthey e Hans-Georg Gadamer ressaltaram que compreender a história dá sentido ao presente, a consciência negra reforça que cada indivíduo afrodescendente, ao reconhecer a trajetória de resistência de figuras como Zumbi dos Palmares, fortalece sua autoconsciência e dignidade. O 20 de novembro, escolhido em memória de Zumbi dos Palmares, simboliza não apenas a luta coletiva contra a escravidão, mas também o processo individual de reconhecimento da própria identidade e da ancestralidade. Dessa forma, a consciência histórica sustenta a consciência negra ao mostrar que lembrar o passado é essencial para transformar o presente e afirmar o valor do indivíduo negro(a) na sociedade. (PAUGAM, 2017)
Consciência cultural
- A consciência cultural, entendida como a capacidade de compreender e valorizar as diversas culturas que compõem a sociedade, conecta-se diretamente à consciência negra ao destacar a importância da herança africana na formação da identidade brasileira. Assim como pedagogos e antropólogos ressaltam que reconhecer e respeitar diferentes culturas é parte essencial da formação cidadã, a consciência negra reforça esse princípio ao evidenciar que elementos da cultura afro-brasileira — presentes na música, na religião, na culinária e em inúmeras manifestações sociais — são fundamentais para a construção da diversidade nacional. Nesse sentido, a consciência cultural amplia a consciência negra, pois ao reconhecer a riqueza da contribuição africana, promove-se não apenas o respeito às diferenças, mas também a valorização da identidade negra como parte indissociável da cultura brasileira. (ESCOLAS DISRUPTIVAS, 2024; BORGES, 2025)
Consciência coletiva
- A consciência coletiva, definida por Émile Durkheim como o conjunto de crenças, valores e sentimentos comuns que moldam comportamentos e garantem a coesão social, estabelece uma relação direta com a consciência negra ao transformar a percepção individual em mobilização social. Enquanto a consciência individual permite ao sujeito reconhecer sua identidade e dignidade, a consciência negra amplia esse processo ao promover uma consciência compartilhada, que une pessoas em torno da valorização da cultura afro-brasileira e da luta contra o racismo. Nesse sentido, o Dia da Consciência Negra simboliza a passagem do reconhecimento pessoal para a ação coletiva, mostrando que a afirmação da identidade negra não é apenas um ato individual, mas também um movimento social capaz de gerar mudanças estruturais na sociedade. (INFOESCOLA, 2025; PORFÍRIO, s.d.)
A capacidade de refletir sobre nossos pensamentos e ações, que constitui a essência da consciência e do autoconhecimento, encontra no Dia da Consciência Negra uma expressão concreta e coletiva. Se, em nível individual, a consciência nos permite identificar forças, fraquezas e objetivos, em nível social ela se transforma em mobilização política e cultural, convocando todos a reconhecer e valorizar a negritude como parte fundamental da identidade brasileira. Dessa forma, o Dia da Consciência Negra simboliza a passagem do autoconhecimento para a ação coletiva, mostrando que compreender nossa essência também implica assumir responsabilidades históricas e éticas na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Assim, compreender as múltiplas dimensões da consciência — individual, moral, histórica, coletiva e cultural — é reconhecer que a Consciência Negra não é um estado passageiro, mas um processo contínuo de afirmação, enfrentamento e transformação social. Celebrar o Dia da Consciência Negra é reafirmar que a luta antirracista é tarefa cotidiana, intelectual e política, que envolve a todos nós. Ao trazer essas reflexões, reafirmamos que a negritude é força, memória e projeto de futuro — um futuro no qual a dignidade das pessoas negras não seja exceção, mas fundamento de uma sociedade verdadeiramente justa e plural.
Mauricio Nunes Macedo de Carvalho – Professor no Bacharelado em Engenharia da Produção (UNIPAMPA); Graduado em Engenharia Elétrica (UFSM), Mestre em Engenharia da Produção (UFSM); Doutor em Engenharia da Produção e Sistemas (UNISINOS); Membro do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Coordenador do NEABI Oliveira Silveira (UNIPAMPA), Coordenador da Comissão de Avaliação Docente de Estágios Probatórios (UNIPAMPA). Coordenador do Comitê de Apoio Técnico Equidade (CAT-Equidade UNIPAMPA). Coordenador de Tutoria do Curso de Extensão, Formação para docência e gestão para educação das relações étnico-raciais e quilombolas (UAB-UNIPAMPA).
Vitória Vasconcellos da Luz – Egressa do curso Técnico Integrado em Informática no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia Sul-Riograndense, do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas ambos no IFSul, Câmpus Bagé. Especialista em informática da educação e educação especial pela FACIBA. Mestre em ensino pela Universidade Federal do Pampa. Realiza pesquisas nas áreas de ações afirmativas, inclusão e acessibilidade. É voluntária na Associação Bajeense de Pessoas com Deficiência (ABADEF). Coordenadora Adjunta do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI – Oliveira Silveira) e do Grupo de Pesquisas INCLUSIVE ambos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) do Campus Bagé. É técnica administrativa em educação na Unipampa onde atuou na Diretoria de Tecnologia da Informação e Comunicação – DTIC e, atualmente, é Assessora de Tecnologia, Comunicação e Acessibilidade na Pró-Reitoria de Comunidades, Ações Afirmativas, Diversidade e Inclusão – PROCADI.
Referências:
ARAÚJO, Marcele Juliane Frossard de. Consciência coletiva: teoria de Émile Durkheim. InfoEscola, s.d. Disponível em: https://www.infoescola.com/sociologia/consciencia-coletiva/#goog_rewarded. Acesso em: 16 nov. 2025.
BORGES, Lucas; RAMOS, Maria Fernanda. Dia da Consciência Negra é feriado? Saiba tudo sobre a data. Itatiaia, 13 nov. 2025. Disponível em: https://www.itatiaia.com.br/brasil/brasil-geral/dia-da-consciencia-negra-e-feriado-saiba-tudo-sobre-a-data. Acesso em: 16 nov. 2025.
EQUIPE DO SIGNIFICADOS. Dia da Consciência Negra: o que é e o que significa. Significados.com.br, s.d. Disponível em: https://www.significados.com.br/dia-da-consciencia-negra/. Acesso em: 16 nov. 2025.
ESCOLA DE SERVIÇO PÚBLICO DO ESPÍRITO SANTO ‒ ESESP. Dia Consciência Negra. Esesp.es.gov.br, 2015. Disponível em: https://esesp.es.gov.br/dia-consciencia-negra. Acesso em: 16 nov. 2025.
ESCOLAS DISRUPTIVAS. Consciência cultural. Escolas Disruptivas, 25 ago. 2024. Disponível em: https://escolasdisruptivas.com.br/glossario/consciencia-cultural/. Acesso em: 16 nov. 2025.
LUCIDARIUM. Conceito de consciência: origem, definição e significado. Lucidarium, [s.d.]. Disponível em: https://lucidarium.com.br/conceito-de-consciencia-origem-definicao-e-significado/. Acesso em: 16 nov. 2025.
MAESTROVIRTUALE. Consciência moral: características, para que serve e exemplos. Maestrovirtuale.com, [s.d.]. Disponível em: https://maestrovirtuale.com/consciencia-moral-caracteristicas-para-que-serve-e-exemplos/. Acesso em: 16 nov. 2025.
PAUGAM, Serge. Durkheim e o vínculo aos grupos: uma teoria social inacabada. Sociologias, Porto Alegre, v. 19, n. 44, p. 128-160, jan./abr. 2017. DOI: 10.1590/15174522-019004405.
PORFÍRIO, Francisco. Consciência negra. Brasil Escola, s.d. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/consciencia-negra.htm. Acesso em: 16 nov. 2025.
REDAÇÃO NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Dia da Consciência Negra: o que é e por que se celebra em 20 de novembro. National Geographic Brasil, 16 nov. 2023. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2023/11/dia-da-consciencia-negra-o-que-e-e-por-que-se-celebra-em-20-de-novembro. Acesso em: 16 nov. 2025.
WISDOMLIB. Consciência individual. Wisdomlib, [s.d.]. Disponível em: https://www.wisdomlib.org/pt/concept/consci%C3%AAncia-individual. Acesso em: 16 nov. 2025.
WIKIPÉDIA. Consciência histórica. Wikipedia: a enciclopédia livre, [s.d.]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Consci%C3%AAncia_hist%C3%B3rica. Acesso em: 16 nov. 2025.
.jpeg)


