Ano 13 Nº 62/2025 O que pude experienciar em um congresso para pesquisadores negros?

Ana Paula Fontoura Pinto

Fonte: Pixabay. https://pixabay.com/pt/photos/assentos-laranja-congresso-vazio-2954367/

O que pude experienciar em um congresso para pesquisadores negros?

Quando um filho nasce, surge uma mistura de sentimentos que emocionam muitas mulheres. Isso acontece porque geramos um ser humano dentro de nós por nove meses e, durante esse tempo, nos alimentamos com uma dieta rica em nutrientes e ingerimos medicamentos para que o feto se desenvolva e nasça com saúde. Também superamos todas as dificuldades que logo esquecemos quando ouvimos o coraçãozinho dele batendo em cada ultrassom. 

Posso fazer esta metáfora com a vida de um pesquisador negro. Durante a elaboração do projeto de pesquisa, o processo de levantamento de dados pode ser comparado ao processo de gestação no qual procuramos os livros, artigos e trabalhos publicados para que a nossa pesquisa se desenvolva de forma produtiva. O processo de escrita é a ferramenta necessária para que ele seja alimentado, e assim promover estratégias de autocrítica, reflexões.

E, após todos os contratempos durante o projeto, as dificuldades internas e externas, o projeto se torna um trabalho que será publicado para que outros possam acessar. Quando a banca aprova o trabalho, e ele finalmente é considerado uma dissertação ou tese é como se fosse o trabalho de parto de uma mulher. É o momento em que a mulher passa por momentos de dores e gritos até o nascimento do bebê. Nesse instante os sentimentos estão aflorados e intensos.

Logo queres mostrar para todos a tua obra recém realizada, neste caso, a pesquisa, quando nossos filhos nascem também queremos mostrar ao mundo o quanto nosso filho é lindo. 

Mamãe Oxum é generosa conosco! Ela nos ajuda a passar por todas as dificuldades para nos presentear com o maior amor de nossas vidas: nossos filhos. 

Sentimos orgulho de um trabalho acadêmico feito durante muito tempo, no qual renunciamos horas de sono momentos que dedicaríamos para fazer qualquer outra coisa.   

Isso foi o que fiz no VII Copene Sul 2025. 

O Congresso de Pesquisadores Negros do Sul desta edição foi realizado na Universidade Federal de Santa Maria- UFSM, entre os dias 15 a 18 de outubro de 2025. Neste evento, ocorreram rodas de conversa, oficinas, palestras com diversos(as) pesquisadores (as) negros (as), da maioria das áreas de conhecimento. Nesta edição, tive a honra de conhecer indígenas, participando como palestrantes. 

Ouvi palestrantes pretas e indígenas da área da saúde falando sobre os efeitos da colonização na saúde da população negra e indígena. 

Quanto ao povo negro situações que já conhecemos como: o precário acesso ao Sistema Único de Saúde pela população negra e a situação dos profissionais negros da saúde, principalmente na área da enfermagem. Em relação aos povos originários, a palestrante indígena que trabalha na área da saúde do povo Guarani, relata que há falta de conciliação entre os saberes tradicionais com os dos anciões da aldeia. Ela ressalta que os Pajés estão perdendo autoridade quanto aos conhecimentos nativos medicinais. 

Eu apresentei meu trabalho dias depois, em uma tarde quente de quinta-feira em uma roda de conversa em que o principal objetivo era compartilhar memórias e saberes de pesquisadores negros.  

Foi emocionante falar sobre minhas avós como protagonistas da minha pesquisa! Eu me emocionei de tal forma que não consegui falar teoricamente sobre ela. Isso ocorreu porque eu soube finalmente o papel delas na sociedade e o quanto elas lutaram e tomaram atitudes, controversas para os dias de hoje, para sobreviver a um mundo racista, machista e misógino.  

Participei de uma oficina sobre Escutas do feminino e da ancestralidade: imaginário, racialidade e decolonialidade em Malinche, de Laura Esquivel, e Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. As ministrantes fizeram com que visitássemos nossas vozes, pois para elas a memória tem som.  Confesso, meu caro leitor, revisitar sons foi desconcertante. 

Antes de encerrarmos essa longa conversa, meu caro leitor, preciso te dizer que esta pesquisa foi uma gestação bem longa e um parto bem difícil no qual tive que alimentá-la com produção de conhecimento que nem eu sabia que tinha. Valorizei uma parte de mim a qual eu travava uma guerra há muito tempo: minha autoestima.

Coloquei todas as memórias, doloridas ou não, nessa dissertação. Tornei todo o conhecimento oral que minhas avós me passaram em um memorial acadêmico que ficou para a história da minha família e da minha vida. Meu filho lerá um dia isso tudo!

Então, posso dizer que minha experiência nesta jornada pelo conhecimento, como uma pesquisadora negra, foi MEMORÁVEL!

Que venham outros!

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