Ano 14 Nº 14/2026 Onde o coração aprende a morar…
Paula Diele Pereira Fonseca¹

Ser expatriado é uma experiência singular. Há uma constante sensação de não pertencimento, como se algo estivesse sempre fora do lugar. Até mesmo o clima, que muitas vezes passa despercebido no cotidiano, ganha um peso diferente: acordar na China sob 40 °C, em um calor abafado e persistente, contrasta profundamente com a vivência no sul do Brasil.
Em diversos momentos, senti falta de coisas que, à primeira vista, parecem simples, como: o chimarrão na frente de casa, o vento minuano, o som dos pássaros e, especialmente, o canto do quero-quero. Pode soar pequeno para quem ouve, mas, para quem vive, carrega um significado imenso; são esses detalhes que constroem a sensação de lar.
Ainda assim, mesmo em meio à saudade, a experiência de estar longe também traz encontros inesperados e preciosos. Foi nesse contexto que conheci pessoas que se tornaram essenciais na minha rotina, tornando-a mais leve e tranquila. Entre elas, Cassia, gaúcha de Soledade, uma daquelas pessoas genuinamente boas que a vida coloca no nosso caminho no momento certo.
Cássia foi mais do que companhia; tornou-se uma verdadeira rede de apoio para mim e para o Samuel. Era a amiga que aparecia no fim da tarde para um chimarrão despretensioso, trazendo consigo não apenas a lembrança de casa, mas também conforto, acolhimento e leveza. Em meio a um cenário tão distante, esses encontros tinham o poder de aquecer o coração e, por instantes, fazer tudo parecer familiar novamente.
Assim como a Cassia, há na China uma comunidade brasileira expressiva que, de certa forma, encurta distâncias e torna a adaptação mais leve. Em meio a uma cultura tão diferente, encontrar brasileiros — com seus costumes, sua língua e sua forma acolhedora de viver — cria uma sensação reconfortante de proximidade com o nosso Brasil, tão rico e especial.
Dentro dessa comunidade, destacam-se mulheres incríveis, cuja presença e atuação chamam a atenção pela força e competência. Muitas estão na China a trabalho, ocupando espaços e demonstrando, com naturalidade, a excelência da mulher brasileira em diferentes áreas. Outras, assim como eu, chegaram acompanhando seus esposos e famílias, trazendo consigo o desafio de recomeçar em um novo país.
Ainda assim, o que se vê é um movimento constante de reinvenção. São mulheres que não se acomodam; ao contrário, buscam formas de se manter ativas, produtivas e realizadas. Há aquelas que encantam com a culinária brasileira, levando um pouco do nosso sabor a quem está longe de casa, e outras que atuam na tradução de novelas chinesas para o português, conectando culturas e ampliando horizontes. Entre tantas histórias, há um ponto em comum: a disposição de seguir construindo, aprendendo e contribuindo. Essa presença feminina, diversa e resiliente, não apenas fortalece a comunidade brasileira no exterior, como também evidencia o quanto somos capazes, adaptáveis e determinadas, independentemente de onde estejamos.
Ao conversar com essas mulheres, fica claro que, no fundo, todas compartilhamos os mesmos medos, principalmente quando temos filhos. É impossível não pensar em como nossos pequenos estão lidando com os desafios do dia a dia em um lugar tão diferente do que conhecíamos. Ao mesmo tempo, há algo muito bonito de se ver: nossos filhos fazem amigos com uma naturalidade impressionante, sejam eles chineses, brasileiros ou de outras nacionalidades.
De forma quase surpreendente, muitos acabam preferindo usar o chinês nas brincadeiras do cotidiano. Talvez isso aconteça porque, nesse universo lúdico, o vocabulário em português acaba sendo mais limitado por aqui. Mas, mais do que isso, é incrível perceber como eles se adaptam, aprendem e constroem pontes com facilidade — muitas vezes, melhor do que nós mesmos.
Nos verões, já virou tradição: um grupo de brasileiros aluga uma casa grande com piscina, faz aquele churrasco, coloca um pagode para tocar e passa horas conversando — um pedacinho do Brasil no meio da China. Em um desses encontros, havia um casal que ainda não tinha filhos, enquanto o resto do grupo estava com as crianças. Em certo momento, esse casal assumiu a missão de “olhar os pequenos”, até que, de repente, um deles apareceu meio perdido e disse:
— Gente… seus filhos estão brigando!
Na hora, todo mundo se preocupou:
— Brigando? Mas por quê?
E veio a resposta, com a maior sinceridade do mundo:
— Não sei… eles estão brigando em chinês!
Foi impossível não cair na risada. Afinal, até nas brigas nossos filhos já estão completamente integrados e, às vezes, a gente nem entende mais o que está acontecendo. É incrível tudo o que vivemos e aprendemos por aqui. Conhecer pessoas tão especiais fez toda a diferença nessa jornada, e eu quero apresentar um pouquinho delas para vocês — espero que consigam imaginar essas famílias tão queridas que tive o prazer de conhecer.
A Naiara, uma mineira arretada, é simplesmente incrível: divertida, companheira e dona de um coração gigante. Ela fazia parte do meu dia a dia e, junto com ela, vinham a Solange e a Vitória. Nossa rotina de treinos pela manhã não só rendia boas risadas, como também deixava meu dia muito mais leve e cheio de energia.
A Solange e a Vitória são duas mulheres que admiro profundamente. Já aposentadas, elas aceitaram o desafio de viver essa experiência fora do país ao lado dos seus esposos, deixando filhos e família no Brasil. É uma coragem e tanto e uma inspiração também. E não posso deixar de falar da Elena, uma espanhola que conquistou meu coração. Ela já morou no Brasil e fala um português impecável. Foi lá que teve suas duas filhas: Valéria, hoje com 8 anos, e Elisa, com 4. A Elena é daquelas pessoas à frente do seu tempo: engraçada, carinhosa e cheia de vida. Tentávamos nos encontrar pelo menos uma vez por semana e, com ela, vivi momentos de muita troca cultural, daqueles que a gente leva para a vida toda.
É com o coração cheio de gratidão por todas essas histórias, encontros e aprendizados que encerro essa parte, mas ainda tem muito para contar. No próximo texto, quero dividir com vocês um outro lado dessa experiência: o choque cultural reverso, as despedidas que não são nada fáceis e aquele frio na barriga que vem junto com o medo do retorno. Porque, depois de tudo isso, voltar também é, de certa forma, recomeçar.

¹Mestre em sanidade animal
Graduada em Medicina Veterinária – URCAMP
Especialista em clínica e cirurgia de pequenos animais – Equallis
Especialista em cirurgia -Qualittas
Fone:(53) 9930-1313
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