Ano 14 Nº 12/2026 VAGANDO NA PENUMBRA

Éric Roberto da Paixão

Nos meus finíssimos ouvidos

essas vozes pousam de manso […]

Ribeiro Couto 

Sinto dentro de mim, nesta noite em que a lâmpada acesa é o sol dos meditabundos e dos  melancólicos, o aroma das chuvas de ontem. Sobe o perfume dos cristais d’água antecedentes,  após a queda e a dissolução das gotículas no solo. Tudo, pois, me remete aos companheiros que tenho em meu quarto, cujo parentesco todo se desenvolve nas semelhanças inesperadas  entre os seus modos íntimos de sentir, bem como no clima que atravessa os poemas de cada  um, escritos com distanciamento temporal e espacial, mas que evocam, tanto os de um como  os de outro, a intimidade das chuvas e dos aposentos. Dois companheiros, dois autores – ambos  me chamam a caminhar na penumbra a fim de ouvir-lhes as confidências. Passeando pelos  locais ignorados, cotidianos, contam-me eles do que lhes anda no coração, e as suas vozes formam a harmonia peculiaríssima do Outono, da Névoa, do Frio e da Melancolia. 

O primeiro, mais velho, é Antônio Nobre, com as sonatas imprevistas e os versos distendidos do (1892) seu primeiro e único livro publicado em vida. Esse poeta português, nascido no Porto, produziu uma obra singular, lida, em geral como um caldeirão simbolista-romântico, com laivos interessantes de um modernismo gerado antes do tempo, trazendo em sua verve lírica um tom intimista imerso na realidade de suas vivências, uma variegada exploração dos dialetos portugueses e uma autoironia que envereda pelas clareiras da linguagem mais confessional. Além disso, existe um evidente sabor biográfico nos poemas que compõem o livro, no qual são retomadas as recordações como uns vultos, sejam da infância, sejam do espaço universitário coimbrão no qual viveu o poeta – tudo com propósitos estéticos, ressalta-se. Além disso, um diálogo muito natural com a tradição da poesia medieval lusitana é também conquistado por Nobre ao longo das páginas do Só, que é tão rico em experimentações. 

O segundo companheiro, mais novo que o primeiro, é Rui Ribeiro Couto, poeta que integrou as efervescências modernistas brasileiras nos anos 20, mas de um modo um tanto distinto, se comparado ao que foi realizado pelos poetas antropófagos, entusiastas de uma arte mais primitiva e humorizante, como nos dá a entender alguns textos de Oswald de Andrade. Sem poemas-piada, gritarias e achincalhes, o brumoso e terníssimo Couto, que nasceu em Santos, Estado de São Paulo, veio com uma voz em surdina que surgiu no seio de seu primeiro livro, O Jardim das Confidências (1921), carregado de sentimentalidade e dotado, assim como a obra daquele meu companheiro mais velho, de um tom intimista que se agarra às coisas da vivência provinciana e do cotidiano, imergindo mais fundo ainda nessa torrente lírica singular com o seu segundo livro, Poemetos de Ternura e Melancolia (1924). Tão à flor da pele, tão romântica… mas jamais berra ou alardeia essa torrente, calmosa que é, meditabunda em seus muitos contornos. Os portões, os jardins, as praças e a casa simplória… ela os apanha com os sons dos sinos das igrejas e os latidos dos cachorros, enquanto as lavadeiras labutam com as roupas, na tarde suave. Respinga-se orvalho e chuva no quadro das janelas, pelas quais se observa a vida morosa da cidade, e a mesma torrente lírica, inimitável e tão única, lança seu pranto e seu encantamento, construindo uma sinfonia nada morna ou insossa, mesmo que arpejando sobre as coisas aparentemente mais triviais do mundo. Acordes de Melancolia nos violões da Bruma: a poesia do santista, meu companheiro, enche-se um êxtase muito quieto e cálido: uma névoa e uma docilidade cheia de um sentimento simbolista para entender as paisagens da cidade ignorada, com olhos atentos ao que habita as regiões da penumbra. 

Dos estudos na Universidade de Coimbra aos vilarejos e às freguesias mais ignoradas de Portugal, como Tentúgal, faz seu percurso a solitária voz do , admirando as tradições populares, os olivais viçosos e as cantigas de sua gente, aqueles portugueses que não conhecemos, mas que habitam à margem dos fogos-fátuos e das ruidosas novidades dos grandes centros: os pescadores e as camponesas. Antônio Nobre segue ao fundo dos reinos singelos da província mais íntima que há dentre todas: o próprio coração do poeta. Na penumbra, caminha procurando conhecer o que todos ignoram, e, assim como Ribeiro Couto, elabora uma arte de tons preciosos, permeada pela confidência e o universo da intimidade, que se convertem em lirismo tão convincente. 

Vê-se, portanto, o parentesco entre os meus dois companheiros. Como, pois, cheguei a percebê-lo? Por leitura, certamente. Mas a primeira pista veio quando, consultando o volume VI de A Literatura Brasileira (1965), do crítico e escritor Wilson Martins, conheci uma “escola” muito intrigante, cujo pendor me lembrou, segundo a definição apresentada, a poesia de um outro autor de que gosto bastante, o qual possui lugar entre os meus prediletos: 

Guilherme de Almeida, nascido em Campinas. Ora, Martins afirmou que houve, no Brasil, ao mesmo tempo que os gritos de pilhéria e transformação da Semana de 22, uma “escola” penumbrista, cuja estética formava-se numa atmosfera brumosa e pacata, suave, dedicada a elementos do cotidiano e carregada de um tom profundamente intimista. O expoente reconhecido dessa tendência foi Rui Ribeiro Couto, meu companheiro mais novo, que contagiou todo um grupo de poetas nos seus dias, com aqueles dois livros dos quais já fiz menção. 

O Penumbrismo não é algo muito lembrado hoje, mas tem seu muito valor pela riqueza de expressão elaborada numa linguagem aparentemente fácil, visto que carrega de certa coloquialidade. Encanta-nos pela suavidade, que não é desprovida de um robusto sentimento e de uma impressão mais densa, nada trivial, das coisas contempladas. Como disse o próprio poeta santista, em carta a seu amigo, Rodrigo Octavio Filho: “Não foram, entretanto, os temas do ‘cotidiano’ que fizeram falar de uma ‘escola penumbrista’, e sim um certo jeito, um tom, um clima de expressão poética”. Um clima que ele e Antônio Nobre compartilham, vagando na penumbra pacata e despercebida, na qual também prossigo, ouvindo-os dizerem-me suas palavras de Outono, Névoa, Frio e Melancolia, as quais não são carentes de Amor, Encantamento e Doçura. 

Octavio Filho viu no Penumbrismo uma espécie de mescla entre o Simbolismo, que estava já nos seus últimos frutos, e o Modernismo, que começava a despontar como árvore nova. Talvez. É possível mesmo que assim façamos uma leitura da poesia de Ribeiro Couto e daqueles que o acompanharam… mas eu acredito que o meu companheiro mais novo, assim como o mais velho, alcançou algo um tanto único, peculiaríssimo, formando uma harmonia muito distinta, que vale a pena ser conhecida por ela mesma. Portanto, cabe a mim continuar a ouvir as vozes do e d’O Jardim de Confidências, bem como dos Poemetos de Ternura e Melancolia, a fim de conhecê-las bem, na província íntima do coração a que me chamam e que me oferecem, com tanta atitude de intimidade.

Roberto da Paixão é poeta, autor de “Tapeçaria”, obra de poesia publicada pela editora Mondrongo em 2024, e cursante da Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa e Suas Literaturas pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Atualmente, integra o PET-Letras como bolsista.

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Junipampa