Ano 14 Nº 06/2026 Ser artista e as festividades brasileiras na China
Paula Diele Pereira Fonseca

A recepção da população chinesa em relação aos estrangeiros constitui um aspecto que chama significativamente a atenção. Observa-se, de modo recorrente, uma disposição genuína para oferecer auxílio em situações cotidianas. Por exemplo, ao perceberem que um visitante aparenta estar desorientado ou perdido em vias públicas, é comum que cidadãos locais se aproximem espontaneamente para prestar ajuda, demonstrando hospitalidade e cordialidade notáveis.
Outro ponto que, em minha avaliação, possui grande relevância refere-se ao empenho da população em promover uma imagem positiva de seu país perante os visitantes internacionais. Há um esforço perceptível em apresentar e valorizar a própria cultura de maneira acolhedora e envolvente, estimulando os estrangeiros não apenas a permanecer, mas também a aprofundar seu interesse e conhecimento acerca das múltiplas riquezas culturais e sociais da China.
A população se mostra frequentemente cordial e sorridente, demonstrando aparente satisfação com o país, com a organização política e com as condições de vida cotidiana.
Em diversos espaços públicos, percebe-se uma sensação generalizada de tranquilidade em relação à segurança, evidenciada por comportamentos como deixar pertences pessoais em motocicletas ou manter veículos destrancados. Práticas que, para visitantes estrangeiros, podem parecer particularmente surpreendentes. Esse contexto de segurança contribui significativamente para a vivência noturna, tornando-a mais livre e agradável.
Deslocamentos a pé durante a noite, seja para frequentar bares ou eventos festivos, são comuns, assim como o retorno para casa em horários avançados da madrugada. Tal ambiente transmite aos residentes e visitantes uma sensação ampliada de proteção e bem-estar, mesmo em situações de maior vulnerabilidade, como após o consumo de bebidas alcoólicas.
O elevado nível de segurança contribuiu para que eu, acompanhada de meu esposo ou de amigas, me dispusesse a explorar a vida noturna da China. A experiência revelou-se bastante dinâmica e socialmente ativa, evidenciando diferentes formas de lazer entre os frequentadores.
Observa-se, por exemplo, que determinados grupos de jovens participam de eventos noturnos com o objetivo de socializar por meio do consumo de bebidas alcoólicas, do tabagismo e da prática de jogos recreativos, como cartas ou dados.
Outro aspecto que se mostra particularmente distinto em comparação com a realidade contemporânea do Brasil refere-se à permissividade em relação ao consumo de cigarros em ambientes fechados. Em muitos espaços de entretenimento, o tabagismo ocorre de forma ampla e socialmente aceita, sem as restrições comumente observadas em outros contextos nacionais.
Como consequência direta dessa prática, ao retornar das atividades noturnas, é frequente que roupas e cabelos apresentem odor intenso de fumaça de cigarro, evidenciando o impacto do tabagismo nesses espaços de convivência social. Contudo, é importante destacar que essa realidade também foi comum no Brasil durante décadas anteriores, especialmente em ambientes de entretenimento e socialização.
Com o passar do tempo, foram implementadas regulamentações progressivas, como a criação de áreas destinadas a fumantes e não fumantes, além de restrições mais amplas ao consumo de tabaco em ambientes fechados.
Atualmente, no contexto brasileiro, o ato de fumar está limitado a espaços abertos, como resultado de políticas públicas voltadas à promoção da saúde coletiva e à redução da exposição passiva à fumaça.
Considerando esse processo histórico, é plausível supor que transformações semelhantes possam ocorrer futuramente na China, à medida que avanços regulatórios e mudanças socioculturais se consolidem.
Por fim, observa-se que o tabagismo entre jovens é relativamente frequente, o que contrasta com a realidade vivenciada em minha própria adolescência, período em que esse comportamento já não se mostrava tão disseminado em determinados contextos sociais.
Apesar disso, a vida noturna revela-se bastante animada e acolhedora, proporcionando experiências de lazer marcadas pela sociabilidade e pela descontração.
Em minha vivência pessoal, as ocasiões festivas foram, de modo geral, extremamente agradáveis, com ampla participação do público em atividades como dança e canto coletivo.
Observa-se, ainda, a forte presença de músicas latinas no repertório desses eventos, com destaque recorrente para canções amplamente reconhecidas internacionalmente, como Ai Se Eu Te Pego, interpretada por Michel Teló. A popularidade desse repertório evidencia o alcance global da música latina e sua capacidade de promover interação cultural em diferentes contextos sociais.
Em minha cidade de residência, também era comum a realização periódica de festas temáticas latinas, organizadas por um hotel local a cada dois meses. Nesses eventos, além das músicas latinas, havia espaço para a música funk do Brasil, incluindo produções de artistas como Dennis DJ, que integravam o repertório festivo e ampliavam as possibilidades de participação do público.
De modo geral, tais celebrações caracterizavam-se por um ambiente altamente interativo, no qual a música funcionava como elemento central de integração cultural.
A receptividade do público estrangeiro às produções musicais brasileiras evidencia o potencial da música como instrumento de aproximação entre diferentes tradições e formas de expressão cultural.
Em determinado momento da experiência já imersa no ambiente festivo e após alguns brindes compartilhados fui espontaneamente convidada a subir ao palco para cantar, reproduzindo uma prática que me é familiar em celebrações no Brasil.
A resposta do público foi particularmente significativa: mesmo sem compreender o idioma, as pessoas acompanharam, cantaram e dançaram, demonstrando, de forma concreta, a força agregadora da música e a notável abertura cultural dessa sociedade.
E assim, entre luzes neon, música alta e brindes improvisados, fui descobrindo que a noite na China não é só sobre festa, é sobre encontros inesperados, risadas que atravessam idiomas e momentos que parecem pequenos, mas ficam gigantes dentro da gente.
No próximo mês, abordarei o expressivo número de pessoas que tive a oportunidade de conhecer e que levarei comigo como parte significativa da minha trajetória de vida. Também relatarei o momento da despedida e o processo de retorno ao Brasil, país ao qual retorno com profundo apreço e admiração.
Paula Diele Pereira Fonseca, médica veterinária, mãe e educadora. Formada pela Universidade da Região da Campanha (URCAMP/Bagé). Mestre em Sanidade animal pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), possuo 13 anos de experiência com clinica e cirurgia de pequenos animais. E-mail pauladpflages@gmail.com
.jpeg)