Ano 14 Nº 51/2026 – COLUNA PET – LETRAS | Nós realmente dissociamos a obra do autor?

por Yasmym Alessandra Santos

A formação do repertório cultural de cada indivíduo começa ainda na infância e é direcionada para temas específicos quando nos tornamos adolescentes e formam nossos gostos internalizados quando adultos. Por isso, muitas vezes nos perguntamos por que gostávamos de certos estilos musicais, autores de livros ou tipos de filmes, mas raramente nos perguntamos por que gostamos daquilo que consumimos no momento presente. E, quando esse questionamento finalmente surge, é a partir de uma reflexão, que, muitas vezes, não nos propomos a fazer de forma espontânea, para algo que tange tão intimamente o nosso campo afetivo. 

Me deparei com essa questão há cerca de um ano atrás, enquanto preparava uma aula de língua portuguesa para estrangeiros com a temática “Infância no Brasil”. No planejamento daquela aula, eu propunha dois momentos: o expositivo, onde eu iria apresentar os elementos culturais das mais diversas semióticas que fizeram parte da infância da minha geração e das gerações que vieram depois de mim, para que, em um segundo momento, os meus alunos conseguissem elaborar um relato curto sobre a própria infância em seu país de origem, usando, por consequência, algumas expressões de passado estudadas anteriormente. 

O problema surgiu durante a escolha de materiais para essa aula. Eu me peguei pensando se deveria ou não citar as obras de Monteiro Lobato, autor que foi tão presente na minha infância através de livros e posteriormente da adaptação televisiva de “Sítio do Picapau Amarelo”. Pensei também, se deveria ou não mencionar a relação dos adolescentes brasileiros dos anos 2000 com a saga de livros Harry Potter escrita por J.K. Rowling. A dúvida não surgiu porque eu deixei de reconhecer a relevância dessas obras, surgiu justamente porque, depois que cresci, a ótica sob a qual eu as vi amadureceu e com ela a percepção de que os ideais dos autores estavam presentes de forma explícita ou implícita. 

Cada obra irá apresentar marcas de seu tempo, dos contextos sociais abordados e do contexto social do autor. Em Crepúsculo (saga de livros que li e reli entre meus dos meus 14 aos 17 anos), a autora explora a cultura indígena e se apropria de crenças e tradições para criar os personagens da tribo Quileute. Considerando a contemporaneidade da obra, qual seria a excusa para esse erro? 

É de se pensar que dissociar a obra do autor é algo fácil, quando observamos um ponto de aversão sendo construído, palavra por palavra, conforme realizamos essa leitura, mas a verdade é que, mesmo que nós não concordemos em nenhum ideal representado por eles, a obra em si constrói uma memória, um vínculo que não é fácil de desvincular. Hoje em dia, se relemos algumas dessas obras os sentimentos podem conflitar — o deleite da releitura indo de encontro com as percepções daquilo que nos incomoda — mas, ainda sim, podemos condenar quem se apega apenas àquilo que a obra representa no campo afetivo? 

No fim de tudo, eu não me senti no direito de não citar O Sítio do Picapau Amarelo como uma das obras que marcaram minha infância, porque, ainda que hoje em dia, se reconheça a importância da discussão sobre a ideologia eugenista e racialista do autor impactar na representação dos personagens da obra, apresentei, naquela aula, uma mostra do que foi a minha infância e das histórias que fizeram parte dela, mesmo que hoje, o Sítio do Picapau Amarelo não seja mais tão precioso para mim. Dissociar a obra do autor é um processo não só racional, ao lermos e relermos suas obras e revisitá-las depois com diversos questionamentos, mas é também um processo intrínseco de cada um, que pode gerar um conflito no campo afetivo. 

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Yasmym Alessandra Santos é graduada em Letras – Línguas Adicionias e graduanda em Letras – Português na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé – RS. Atualmente é bolsita do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras. E-mail: yasmymsantos.aluno@unipampa.edu.br. Professora Responsável: Carolina Fernandes.

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