Ano 14 Nº 46/2026 – O ódio contra as mulheres
Por Camila Bernardes Godinho
Imagem retirada do Pinterest.
Recentemente, assisti a um vídeo no YouTube que começava com a seguinte pergunta: “Será que existe gente que realmente odeia mulheres?”. A resposta foi curta e precisa: “Sim”. Sem mais explicações, aquele vídeo despertou em mim a curiosidade de entender por que existem pessoas que de fato odeiam mulheres.
O conteúdo tratava do Projeto de Lei (PL nº 896/2023), motivado para combater a violência verbal e consequentemente, a violência física contra as mulheres, e que desencadeou comentários como: “Então, se eu falar com uma mulher no bar, sou misógino?”, “Ah, se eu discordar de uma mulher, sou misógino?”, entre tantas outras falas que frequentemente ouvimos de homens que opinam sobre o assunto sem sequer compreendê-lo.
Mas, cá entre nós, o problema não é a lei da misoginia que incomoda alguns homens, digo “alguns”, pois não pretendo generalizar. O verdadeiro problema é entender por que ela é necessária. Ela é necessária porque muitas mulheres ainda vivem situações de desrespeito simplesmente por serem mulheres. Porque, em diversas vezes, a voz masculina continua sendo tratada como a única verdade absoluta. Porque a paquera em bares, tão citada nesses comentários, nem sempre
é apenas uma tentativa de aproximação, muitas vezes, quando a mulher demonstra desinteresse ou diz “não”, a conversa rapidamente se transforma em ofensas, senão em algo pior. Ou quando a mulher expõe suas opiniões com um tom de autoridade, logo vem um comentário como “Tá de TPM?” e tantas outras frases misóginas, como: “Tinha que ser mulher, né?”, “Bah, mulher no volante não dá”, “Lugar de mulher é na cozinha”, ou aquela que mais detesto: “Por trás de um grande homem, há uma grande mulher”.
O desprezo contra as mulheres ultrapassa as situações do dia a dia, podendo muitas vezes se manifestar, principalmente nos ambientes digitais. Os ataques surgem em sites ou canais utilizados para disseminar o ódio. Entre os conteúdos identificados, estão vídeos com os títulos de: “Como colocar as mulheres no seu devido lugar” e “Como reagir quando a menina diz não”. Segundo um estudo do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ ), em parceria com o Ministério das Mulheres, que analisou o período de 2018 a 2024, foram identificados 137 canais que disseminam misoginia. Mais recentemente, uma atualização desse estudo, apontou que 90% dos canais ainda estão ativos no Youtube e que possuem milhões de visualizações. Ou seja, conteúdos que servem para humilhar, desprezar, e desrespeitar as mulheres nas mídias.
Durante toda a minha juventude, ouvia minha mãe repetir os mesmos conselhos: “Não ande de vestido sozinha na rua.” “Não use shorts muito curtos.” “Não vista uma blusa decotada.” Na época, eu acreditava que aquelas recomendações tinham relação apenas com a forma de me vestir. E com o tempo, percebi que era muito mais do que isso. Passei a me preocupar ao caminhar sozinha na rua, principalmente à noite. No ônibus, escolho com cuidado onde sentar e fico sempre atenta às pessoas ao meu redor. Compartilho minha localização com amigos ou familiares sempre que entro em um carro de aplicativo, evito determinadas ruas e, muitas vezes, acelero o passo ao perceber alguém caminhando atrás de mim. Mas, por quê?
O que mais me incomoda é perceber que esses comportamentos nunca me foram ensinados porque o mundo era perigoso para todos igualmente. Eles me foram ensinados porque simplesmente nasci mulher. Somos ensinadas desde cedo a cuidar do tamanho de nossas roupas, nossos horários, nossos caminhos e até a forma como reagimos diante de um homem para que eles não interpretem mal. O problema nunca foi a maneira como as mulheres se vestem e se comportam, mas a violência e a cultura que insiste em responsabilizar as mulheres pelas violências que sofrem.
Talvez a pergunta não devesse ser “se existem pessoas que odeiam mulheres”, por que a resposta para isso é evidente em dados científicos. A pergunta que realmente deveria ser feita é: por que ainda é tão difícil reconhecer que esse ódio existe e que combatê-lo é uma necessidade?
Referências:
DANIEL MARTINS DE BARROS. Misoginia: Entenda o que são as atitudes misóginas. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SBzcsUcXWak>. Acesso em: 5 ago.. 2026.
na. G1. [S.l.: S.n.]. Disponível em:
<https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2024/12/13/estudo-identifica-crescimento-do-discurso-de -odio-contra-mulheres-na-internet.ghtml>. Acesso em: 5 ago.. 2026.
ZANIN, Giuliana. 90% dos canais com discurso misógino continuam ativos no YouTube, diz UFRJ. Disponível em:
<https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/90-dos-canais-com-discurso-misogino-continuam-ativos -no-youtube-diz-ufrj/>. Acesso em: 5 ago.. 2026.
13 expressões machistas para tirar do vocabulário | Instituto Claro. Portal de Cidadania do Instituto Claro. [S.l.: S.n.]. Disponível em:
<https://www.institutoclaro.org.br/cidadania/nossas-novidades/reportagens/confira-13-expressoes-ma chistas-para-retirar-do-vocabulario/>. Acesso em: 5 ago.. 2026.
Camila Bernardes Godinho é estudante do sexto semestre do curso Letras-Português, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé—RS. Atualmente, é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras. E-mail: camilabernardes.aluno@unipampa.edu.br
Professora responsável: Carolina Fernandes.
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