Ano 14 Nº 35/2026 – Estudar também é resistir
Por Franciele Loureiro
Imagem gerada por IA
Existe uma idealização do ingresso no Ensino Superior de que seria o início de um futuro promissor. E eu concordo, pois chegar ao ensino superior realmente é uma conquista importante. Mas, ao pensar em alguns colegas e até mesmo nos dois primeiros anos da minha graduação, percebo que conquistar uma vaga é apenas o começo de uma caminhada marcada por muitos desafios. Para milhares de estudantes, permanecer na Universidade é um desafio diário que exige muito mais do que apenas dedicação aos estudos. É preciso conciliar o trabalho, a família, as dificuldades financeiras e uma rotina desgastante que coloca em risco a nossa saúde física e mental.
Para quem depende do salário no final do mês para pagar aluguel, transporte, alimentação e ajudar no sustento da família, estudar deixa de ser apenas uma escolha e passa a ser uma resistência. Enquanto alguns de nós conseguimos dedicar boa parte do tempo às leituras, às pesquisas e às atividades acadêmicas, outros precisam sair do trabalho direto para a sala de aula, sem ter tido tempo sequer para descansar ou fazer uma refeição adequada.
Essa realidade mostra uma desigualdade que nem sempre é percebida. A universidade junta alunos com histórias de vida muito diferentes, e nem todos têm as mesmas condições para continuar os estudos. Quem vem de uma realidade de vulnerabilidade econômica costuma enfrentar barreiras que vão além das provas e dos trabalhos, o cansaço acumulado, a preocupação com as contas no final do mês, a culpa por não conseguir produzir tanto quanto gostaria e o medo de que qualquer dificuldade financeira interrompa e coloque em risco um sonho conquistado com muito esforço.
O desgaste não é apenas físico, mas também é emocional. Há dias em que a exaustão faz parecer impossível continuar, a pressão por apresentar bons resultados, cumprir prazos e manter o desempenho acadêmico convive com a necessidade de trabalhar para sobreviver. Com essa situação, o aluno aprende a administrar o tempo, mas também convive com a ansiedade, o esgotamento e a sensação de estar sempre devendo alguma coisa, seja no trabalho ou no estudo.
Apesar de sabermos que a educação transforma vidas, ainda é comum que alunos de origem humilde precisem enfrentar esse caminho penoso quase sozinhos. Embora existam políticas e programas importantes de permanência, muitos alunos
ainda encontram barreiras que dificultam a sua caminhada. A desigualdade de oportunidades faz com que o diploma que, para alguns, é apenas a conclusão do curso, para outros represente anos de renúncias, noites mal dormidas, jornadas duplas e uma persistência que nem sempre é reconhecida.
Ainda assim, esses alunos seguem em frente, não porque o caminho é fácil, mas porque compreendem o valor da educação como a única possibilidade de ampliar horizontes, conquistar sua autonomia e transformar a própria realidade. Cada disciplina concluída, cada trabalho entregue e cada semestre vencido representam muito mais do que notas. Representam a resistência diante de
situações que impõem obstáculos para quem nasceu com menos oportunidades na vida.
Concluir a graduação não deveria depender da capacidade de suportar o esgotamento extremo, a universidade precisa continuar sendo um espaço de produção de conhecimento, mas também de acolhimento, permanência e inclusão.
O papel dos professores também vai muito além da transmissão de conteúdos. A empatia, a escuta e a compreensão para com os alunos são fatores decisivos para que eles permaneçam na universidade. Compreender que nem todos chegam à sala de aula nas mesmas condições não significa reduzir as exigências acadêmicas, mas reconhecer que a educação também se constrói por meio da solidariedade.
Para muitos, estudar é só uma etapa da formação profissional, mas para outros, estudar também é um ato de coragem, de resistência e de esperança. E talvez seja justamente essa esperança que continue fazendo tantos alunos acreditarem que vale a pena continuar estudando.

Franciele Loureiro é graduanda em Letras – Português E Literaturas De Língua Portuguesa pela (UNIPAMPA). Desenvolve pesquisas nas áreas: História da Educação e Análise do Discurso. Atualmente, é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras. E-mail: francieleloureiro.aluno@unipampa.edu.br
Projeto: Programa de Educação Tutorial (PET) Letras.
Professora responsável: Carolina Fernandes.
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