Ano 14 Nº 21/2026 Puxa o banco e chega mais: uma prosa sobre ser do Sul
Por Aline Batista Nunes

Tchê, puxa o banco e ajeita o mate, mas não te esquece que a bomba não é marcha de carro, que a nossa prosa já vai começar. Porque, se tem uma coisa que a gente sabe fazer bem, é contar história. E, se vier com um pouquinho de exagero, melhor ainda. Não é por querer ser mais que ninguém, mas é bem capaz de tu estar prestes a ouvir a melhor prosa da tua vida…
Para o sulista o Pampa não é apenas um simples bioma, é um estado de espírito, ou, mais do que isso, um sentimento que se carrega no peito. E quem nasceu, cresceu e viveu longe daqui, mas está chegando agora em nossa terra, já se acostumou: a gente tem um jeito todo especial de complicar o que é simples e simplificar o que é um problemão. Dessa forma, se tu já é de casa ou caiu de paraquedas por essas “bandas”, deixa eu te apresentar um pouquito da nossa cultura, identidade e do nosso falar “gauchês” que, por ora, dispensa dicionários.
Para iniciar, temos a nossa “unidade de medida espacial”. Se tu perguntar onde fica o mercado, que para muitos de nós é a “venda”, e ouvir como resposta “é logo ali, dois palitos”, prepare-se: tu pode estar há 30 metros ou a 3 quilômetros de distância. Para o olhar de quem chega de fora, o gaúcho pode ser um mistério. Mas, para nós, o mistério mesmo está em como alguém consegue viver sem entender a diferença entre um “Bah” de admiração e um “Bah” de decepção. Quando algo dá muito errado, por exemplo, ele é seco, curto e dito rapidamente, quase sem emoção, marcando frustração ou irritação. Já quando a notícia é boa, ele é longo, prolongado e até cantado, expressando surpresa, alegria ou admiração. É o nosso ponto de exclamação, interrogação e reticências, tudo resumido em três letras: o BAH!
Mas, talvez, a verdadeira prova de pertencimento de quem habita este chão recaia sobre o domínio do famoso “Capaz!”. E se eu puder deixar a minha opinião, essa é uma das diversas construções a respeito do falar gauchesco mais geniais e que serve para “uma pá” de explicações. Vejamos, com a mesma palavra, a gente nega um favor (“Capaz que vou te deixar a pé!”), expressa surpresa ou dúvida (“Capaz que ele disse isso?”) e até encerrar uma conversa com aquela modéstia bem nossa (“Bem Capaz, não foi nada!”).
Nossa identidade também se revela por meio de pequenos gestos, daqueles que a correria do dia a dia quase não deixa notar. É o som da água quente encontrando a cuia logo cedo, um costume que não desperta só o corpo, mas acalma a alma e ajeita os pensamentos.
O chimarrão, para nós, carrega um significado que vai além da bebida: é um gesto que se transmite de geração em geração, um ato de acolhimento, sensibilidade e paciência, mesmo que de maneira silenciosa. Oferecer um mate, muitas das vezes, até sem dizer nada, é como fazer um convite: “chega mais, fica à vontade, é bom te ter perto.” É nessa hospitalidade que o tempo se perde e as distâncias encurtam, em que um desconhecido que chega para uma prosa de repente, em dez minutos, já se torna um primo ou quase um irmão de consideração.
Além disso, viver na região da campanha ensina a gente a se perder no horizonte verde do campo, onde tudo parece se alongar até a última árvore virar um pontinho, e também a dar valor ao que está por perto. Aprendemos, inclusive, que o vento Minuano (um convidado abusado que entra sem bater e gela até a alma de quem esqueceu o poncho), embora gelado, é o que nos faz valorizar o calor do fogão a lenha e o aconchego de uma conversa ao pé do fogo.
Afinal, como bem definido pelo bageense Jader Moreci Teixeira, mais conhecido como Leonardo na canção “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor”, “esse é o meu Rio Grande do Sul”. E este é o sentimento de pertencimento: o de carregar consigo, por mais distante que estejamos, algo dentro da gente sempre volta, no compasso de um galope, no cheiro da terra depois da chuva e no calor de um fogo de chão.
Referências Bibliográficas:
Leonardo (cantor gaúcho). Céu, sol, sul, terra e cor. Acesso em 15/04/2026. Disponível em: Céu, Sol, Sul, Terra e Cor – Leonardo (gaúcho) – LETRAS.MUS.BR
DICIONÁRIO Gauchês – Expressões clássicas. Disponível em: https://hridiomas.com/dicionario-gauches-expressoes-classicas/. Acesso em: 8 abr. 2026.
Sobre a autora:

Aline Batista Nunes é estudante do nono semestre do curso Letras-Português, na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé—RS. Atualmente, é bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET) Letras.
“Esta é a coluna do PET-Letras, Programa de Educação Tutorial do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa, do campus Bagé. O programa, financiado pelo FNDE/MEC, visa fornecer aos seus bolsistas uma formação ampla que contemple não apenas uma formação acadêmica qualificada como também uma formação cidadã no sentido de formar sujeitos responsáveis por seu papel social na transformação da realidade nacional. Com essa filosofia é que o PET desenvolve projetos e ações nos eixos de pesquisa, ensino e extensão. Nessa coluna, você lerá textos produzidos pelos petianos que registram suas reflexões acerca de temas gerados e debatidos a partir das ações desenvolvidas pelo grupo. Esperamos que apreciem nossa coluna. Boa leitura”.
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