Ano 14 Nº 23/2026 Relato de Experiência: “Memórias Vivas da América Latina” – Um Mural Interativo entre Língua Portuguesa e História no 9º Ano

Mariane Larissa Lima Debus¹

Nesse primeiro trimestre de 2026, na Escola Estadual Aníbal Loureiro, tive a oportunidade de desenvolver um trabalho interdisciplinar entre as disciplinas de Língua Portuguesa e História com os alunos do 9º ano, com o objetivo central de explorar a cultura latino-americana sob duas perspectivas complementares: a histórica, abordando contextos de colonização, resistências populares, ditaduras militares e movimentos sociais na América Latina; e a literária, por meio da produção de textos autorais inspirados em grandes nomes da literatura latino-americana, como Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano e Clarice Lispector, esta última com forte diálogo com as identidades e as dores do continente. A ideia que direcionou todo o projeto foi a criação de um mural interativo intitulado “Memórias Vivas da América Latina”, no qual cada aluno se tornaria um narrador de uma história real ou fictícia ambientada em algum país latino-americano, dando voz a personagens anônimos que vivenciaram momentos marcantes da história regional. Desde o início, a proposta foi recebida com curiosidade pelos estudantes, que logo perceberam que se tratava de um convite à criação artística e ao mergulho empático em outras realidades. 

O planejamento da atividade foi dividido em quatro etapas bem definidas, todas articuladas entre as duas disciplinas. Na primeira etapa, sob orientação da disciplina de História, cada dupla de alunos escolheu um país latino-americano, como Chile, Argentina, Colômbia, Peru, México, Cuba ou Bolívia, e investigou um evento histórico marcante, como o golpe militar no Chile em 1973, a Guerra das Malvinas, as ditaduras do Cone Sul, o movimento zapatista no México, a guerrilha das FARC na Colômbia ou o Massacre de El Mozote em El Salvador. Na segunda etapa, já no âmbito da Língua Portuguesa, realizamos leituras compartilhadas de trechos selecionados de “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez, “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano, e alguns contos de Clarice Lispector que, embora brasileiros, dialogam fortemente com a sensibilidade latino-americana. Na terceira etapa, os alunos partiram para a produção textual criativa: cada dupla escreveu uma carta ou um diário pessoal baseado em uma pessoa comum, uma criança, um idoso, uma professora, um agricultor ou uma costureira, vivendo aquele evento histórico em primeira pessoa. Por fim, na quarta etapa, realizamos a montagem do mural interativo na sala de aula, onde os textos foram expostos ao lado de fotografias, mapas dos países e QR codes que direcionaram os visitantes a músicas latino-americanas de artistas como Wisin, Maluma, Luis Fonsi e Bad Bunny. 

O engajamento dos alunos do 9º ano superou em muito minhas expectativas iniciais, porquanto, no início, havia certa resistência, afinal, propor um trabalho que une duas disciplinas e exige pesquisa, leitura, escrita criativa, produção artesanal e apresentação oral poderia parecer intimidador. No entanto, assim que os textos começaram a ser escritos, percebi um entusiasmo crescente. Vários aspectos do engajamento merecem destaque: primeiro, a empatia histórica desenvolvida pelos estudantes, que, ao escreverem como personagens, demonstraram compreensão profunda das dores, medos, resistências e esperanças dos povos latino-americanos, indo muito além da memorização de nomes e datas; segundo, a criatividade exacerbada que emergiu espontaneamente; terceiro, o protagonismo de alunos que normalmente eram tímidos ou pouco participativos, durante as apresentações esses estudantes se destacaram na leitura dramática dos textos, revelando talentos para a interpretação e a oralidade que dificilmente apareceriam em atividades convencionais; quarto, a curiosidade extraclasse, que surgiu naturalmente, com vários alunos buscando por conta própria filmes, documentários e músicas sobre os países escolhidos. 

Como considerações finais, fica evidente que trabalhar a cultura latino-americana de forma interdisciplinar e criativa no 9º ano é possível e altamente recomendável. Ao transformar os alunos em narradores de suas próprias “memórias latinas” ainda que fictícias, eles não apenas aprenderam os conteúdos programáticos de História e Português; eles vivenciaram a América Latina em sua complexidade, contradições e belezas. A Escola Estadual Aníbal Loureiro, com seu corpo discente diverso, curioso e cheio de histórias pessoais que muitas vezes se entrelaçam com a história do continente, provou mais uma vez que a sala de aula pode ser um espaço de invenção, afeto e resistência. Projetos como “Memórias Vivas da América Latina” reforçam minha convicção de que educar é, antes de tudo, contar histórias e permitir que os jovens também contem as suas, com suas próprias vozes e suas próprias memórias, ainda que estejam sendo construídas agora.

¹email: marianedebus.aluno@unipampa.edub.br, professora da Educação Básica, egressa da Unipampa do curso de Letras, Mestranda em Ciências Humanas pela Unipampa, campus São Borja; e Professor Dr. Edson Paniágua, edsonpaniagua@unipampa.edu.br, professor do Mestrado em Ciências Humanas Campus São Borja.

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