Ano 14 Nº 09/2026 Mulheres negras: vozes que resistem, transformam e constroem futuros

Vitória Vasconcellos da Luz, Maurício Nunes Machado de Carvalho

Imagem: Criada pelo autor usando OpenAI ChatGPT (2026).

Março é amplamente reconhecido como o mês dedicado à reflexão sobre as conquistas e desafios das mulheres na sociedade. No entanto, ao falarmos sobre as experiências femininas, é fundamental reconhecer que elas não são homogêneas. As mulheres vivem realidades diferentes, atravessadas por fatores sociais, culturais, econômicos e raciais. Nesse contexto, refletir sobre as trajetórias das mulheres negras torna-se essencial para compreender de forma mais profunda as desigualdades históricas e, ao mesmo tempo, reconhecer as potências que emergem dessas experiências.

As diferenças mais marcantes entre as trajetórias de mulheres negras aparecem justamente na forma como racismo e machismo se combinam para produzir desigualdades específicas. Mulheres negras enfrentam maiores barreiras de acesso à educação e ao mercado de trabalho, recebem salários mais baixos mesmo quando possuem a mesma escolaridade, e estão mais expostas à violência doméstica, obstétrica e institucional. Além disso, carregam o peso histórico da escravidão, que ainda se reflete na concentração em trabalhos de cuidado e baixa remuneração. Essas desigualdades estruturais moldam oportunidades, expectativas e possibilidades de ascensão social, tornando suas trajetórias profundamente distintas das vividas pelas demais mulheres.

A história do Brasil foi construída também a partir da força e da resistência das mulheres negras. Desde o período da escravidão, elas desempenharam papéis fundamentais na sobrevivência das comunidades negras, na preservação de saberes ancestrais e na construção de estratégias de resistência frente às violências impostas por um sistema profundamente desigual. Muitas dessas mulheres foram responsáveis por manter vivas práticas culturais, conhecimentos sobre cuidado, alimentação, religiosidade e organização coletiva.

Apesar dessa presença central, suas histórias foram frequentemente invisibilizadas nos registros oficiais e nas narrativas tradicionais da história nacional. Durante muito tempo, as contribuições das mulheres negras foram silenciadas ou reduzidas a estereótipos que reforçam visões limitadas e preconceituosas. Ainda assim, elas permaneceram presentes em diferentes espaços de luta e construção social.

As trajetórias de mulheres como Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Ruth de Souza, Tia Ciata, Antonieta de Barros, Laudelina de Campos Melo e Maria Firmina dos Reis ilustram de forma contundente esse apagamento histórico. Mesmo tendo produzido literatura inovadora, pensamento intelectual sofisticado, arte de grande impacto, mobilização política pioneira e formas de resistência cultural que moldaram o Brasil, elas foram por décadas tratadas como figuras secundárias, lembradas apenas de maneira fragmentada ou reduzidas a estereótipos raciais e de classe. Suas obras foram desvalorizadas, suas vozes foram silenciadas e seus nomes raramente apareceram nos registros oficiais, apesar de terem desempenhado papéis centrais na formação cultural, social e política do país. Hoje, ao resgatar suas histórias, torna-se evidente que o Brasil sempre foi profundamente marcado pela atuação dessas mulheres, mesmo quando a sociedade tentou apagá-las.

Ao longo do tempo, mulheres negras assumiram protagonismo em movimentos sociais, organizações comunitárias, produções culturais e espaços acadêmicos. Intelectuais, educadoras, artistas, lideranças comunitárias e militantes negras têm desempenhado papel fundamental na construção de debates sobre justiça social, igualdade racial e direitos humanos. Suas vozes ampliaram as discussões sobre racismo estrutural, desigualdade de gênero e exclusão social, contribuindo para a construção de uma sociedade mais consciente de suas próprias contradições.

No cenário atual, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Erika Hilton, Vilma Reis, Preta Ferreira, Iza, Ludmilla e tantas outras têm se destacado de forma decisiva na luta contra a desigualdade de gênero e a exclusão social das mulheres negras. Atuando em diferentes frentes, da política institucional à produção intelectual, da arte ao ativismo comunitário, elas denunciam o racismo estrutural, reivindicam políticas públicas mais justas, ampliam a representatividade e fortalecem debates sobre direitos humanos. Suas vozes, cada vez mais presentes nos espaços de poder e na esfera pública, impulsionam transformações sociais profundas e reafirmam o protagonismo das mulheres negras na construção de um Brasil mais igualitário.

Nas últimas décadas, a presença de mulheres negras nas universidades brasileiras tem crescido de forma significativa, resultado de políticas públicas de inclusão, mobilização social e luta histórica por acesso à educação. Esse movimento representa uma conquista importante, mas também traz consigo novos desafios. O ambiente acadêmico, ainda marcado por desigualdades estruturais, precisa constantemente refletir sobre suas práticas para garantir que esses espaços sejam verdadeiramente inclusivos e acolhedores.

Nesse sentido, os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) desempenham um papel fundamental dentro das instituições de ensino. Esses espaços promovem debates, pesquisas e ações educativas voltadas para a valorização da diversidade cultural, para o enfrentamento do racismo e para a construção de práticas pedagógicas comprometidas com a justiça social.

No entanto, a mobilização antirracista dentro da universidade não pode ficar restrita aos Núcleos de Estudos Afro‑Brasileiros (NEABI), pois o enfrentamento ao racismo exige a atuação articulada de múltiplas instâncias institucionais. Pró‑reitorias, comissões de relações étnico‑raciais, ouvidorias, núcleos de direitos humanos, grupos de pesquisa, projetos de extensão, coletivos estudantis e diretórios acadêmicos precisam assumir responsabilidade compartilhada na construção de políticas, práticas e debates que promovam equidade racial. Quando esses espaços atuam de forma integrada, acolhendo denúncias, produzindo conhecimento, formando estudantes e servidores, fortalecendo ações afirmativas e ampliando a participação negra, a universidade se aproxima de um compromisso real com a justiça social e com a transformação das estruturas que historicamente reproduzem desigualdades.

Falar sobre mulheres negras também é reconhecer a riqueza de suas trajetórias e saberes. São histórias que atravessam gerações, conectando passado, presente e futuro. Histórias que falam de luta, mas também de cuidado, criatividade, inteligência e resistência cotidiana. Em cada comunidade, em cada família e em cada espaço de aprendizagem, mulheres negras seguem construindo caminhos, abrindo possibilidades e inspirando novas formas de existir e transformar o mundo.

Mais do que reconhecer essas trajetórias apenas em momentos específicos do calendário, é necessário ampliar continuamente os espaços de escuta, valorização e reconhecimento dessas experiências. A construção de uma sociedade verdadeiramente democrática passa pela valorização da diversidade e pelo enfrentamento das desigualdades que ainda marcam profundamente a realidade brasileira.

Refletir sobre a presença e a importância das mulheres negras é, portanto, um exercício de memória, justiça e transformação social. É reconhecer que suas histórias não pertencem apenas ao passado, mas continuam sendo escritas todos os dias, em diferentes territórios e espaços de atuação.

Porque quando uma mulher negra se levanta, ela não se levanta sozinha: levanta consigo a memória, a luta e o futuro de um povo inteiro.

Autores:

Vitória Vasconcellos da Luz  – Egressa do curso Técnico Integrado em Informática no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia Sul-Riograndense, do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas ambos no IFSul, Câmpus Bagé. Especialista em informática da educação e educação especial pela FACIBA. Mestre e doutoranda em ensino pela Universidade Federal do Pampa. Realiza pesquisas nas áreas de ações afirmativas, inclusão e acessibilidade. É voluntária na Associação Bajeense de Pessoas com Deficiência (ABADEF). Coordenadora Adjunta do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI – Oliveira Silveira) e do Grupo de Pesquisas INCLUSIVE ambos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) do Campus Bagé. É técnica administrativa em educação na Unipampa onde atuou na Diretoria de Tecnologia da Informação e Comunicação – DTIC e, atualmente, é Assessora de Tecnologia, Comunicação e Acessibilidade na Pró-Reitoria de Comunidades, Ações Afirmativas, Diversidade e Inclusão – PROCADI.

 

Mauricio Nunes Macedo de Carvalho – Professor no Bacharelado em Engenharia da Produção (UNIPAMPA); Graduado em Engenharia Elétrica (UFSM), Mestre em Engenharia da Produção (UFSM); Doutor em Engenharia da Produção e Sistemas (UNISINOS); Membro do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Coordenador do NEABI Oliveira Silveira (UNIPAMPA), Coordenador da Comissão de Avaliação Docente de Estágios Probatórios (UNIPAMPA). Coordenador do Comitê de Apoio Técnico  Equidade (CAT-Equidade UNIPAMPA). Coordenador de Tutoria do Curso de Extensão, Formação para docência e gestão para educação das relações étnico-raciais e quilombolas (UAB-UNIPAMPA).

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