Ano 14 Nº 01/2026 Do Átomo ao Silêncio: Entropia e Relações
Gabriel Padão

No poema “Canção de vidro”, de Mário Quintana, é citado um cristal:
“Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
Cala, amigo…
Cuidado, amiga…
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre…”
Esses versos evocam a fragilidade de uma relação valiosa, que se rompeu silenciosamente e nunca mais será a mesma. Essa imagem se aproxima da ideia de entropia: tudo está sujeito a um grau inevitável de desordem. Um cristal quebrado, por exemplo, jamais retorna ao seu estado original — tal como certas relações, ou como determina a segunda lei da termodinâmica. Essas compreensões demonstram como a física e os pensamentos filosóficos presentes na literatura podem convergir para o mesmo ponto . Contudo, é importante compreender melhor esses dois conceitos centrais da física — pertencentes ao campo da termodinâmica — já que a entropia, embora não seja uma grandeza fundamental como temperatura ou massa, é um conceito essencial para entender os processos energéticos e o comportamento dos sistemas físicos. Toda energia que não está concentrada em um determinado ponto para executar certas reações — seja em um corpo ou em um sistema elétrico — encontra-se em um estado entrópico.
Diante disso, vamos usar a entropia presente em nosso corpo e na ecologia como exemplos. O corpo humano precisa que a glicólise quebre a molécula energética que produzimos a partir do material orgânico. Essa glicose se transformará em fosfato (energia), que será armazenado no ATP (Adenosina Trifosfato), para então ser enviada à respiração celular, mantendo o funcionamento do nosso corpo. Isso é um pequeno resumo de como essas reações ocorrem. No entanto, o ATP não transfere toda sua energia à respiração celular — parte dela se dissipa pelo corpo. Essa energia dispersa representa um estado entrópico, pois já não está concentrada em um ponto específico. É justamente essa desordem energética que contribui para o aumento da temperatura corporal, acionando as glândulas sudoríparas: suamos para liberar o excesso de calor e evitar a febre. Quando o suor evapora, parte dessa energia é levada embora, em forma de vapor de água.
Entretanto, temos na natureza outros exemplos que explicam esse fenômeno muito bem. Podemos observar, por exemplo, uma cadeia alimentar com uma árvore como produtora e primeiro nível trófico; o gafanhoto como primeiro consumidor e segundo nível trófico; o sapo como segundo consumidor e terceiro nível trófico; e a cobra como terceiro consumidor e quarto nível trófico. Sabemos que a árvore recebe energia a partir da fotossíntese e produz sua própria glicose, sendo, assim, um ser autótrofo. Quando o gafanhoto se alimenta da árvore, recebe uma parte dessa energia. O mesmo ocorre quando o sapo se alimenta do gafanhoto e, depois, a cobra do sapo. Mas aonde quero chegar com isso? Ao fato de que, a cada nível trófico, parte da energia é perdida no ecossistema, e essa energia, ao se dispersar, entra em um estado entrópico, pois já não está concentrada em um único corpo ou sistema para cumprir uma função específica. Um exemplo simples é o nosso quarto, quando arrumado, ele está em baixa entropia, pois há organização. Mas, com o tempo, mesmo sem interferência direta, ele se desorganiza — acumula poeira, objetos fora do lugar. É natural pensar: “Basta arrumar de novo.” Mas não é tão simples assim. Como já foi dito, nosso corpo precisa de energia para realizar essa tarefa, e parte dessa energia também é dissipada no ambiente enquanto arrumamos o quarto, o que, paradoxalmente, aumenta a entropia do sistema — mesmo que não seja visível.
Levando tudo isso em consideração, entendemos que a entropia e a segunda lei da termodinâmica estão intimamente ligadas: uma é consequência da outra. Essa segunda lei também nos ensina que é impossível prever todas as consequências de uma ação antes que ela ocorra, e que não há como retornar ao estado original — o que explica por que a entropia nunca retrocede; ela apenas se mantém ou avança. Um exemplo extremo está na fissão nuclear: quando o núcleo de um átomo de urânio é atingido por um próton, ele se quebra e libera uma enorme quantidade de energia. Essa energia entra em estado de entropia, e o processo é irreversível — como determina a segunda lei da termodinâmica, a energia liberada atinge outros átomos, repetindo o ciclo inúmeras vezes, como ocorre nas explosões nucleares. Isso é chamado de “fissão nuclear” e ocorre no núcleo do urânio-235, utilizado para provocar essas reações em cadeia em armas nucleares.
Em síntese, nossas ações carregam peso — e algumas delas, como sugere o poema, não podem ser desfeitas. Há decisões que se assemelham a uma bomba atômica: lançadas, causam impactos irreversíveis. Até mesmo aquilo que dizemos se relaciona com essa lógica: dependendo do que sai de nossa boca, as palavras não podem ser recolhidas nem desditas. Elas são lançadas, atingem um alvo e podem encerrar relações — como uma bomba atômica que devasta sentimentos e cria uma reação em cadeia (contritos e mais contritos nas relações) ou como um cristal que, uma vez quebrado, nunca mais voltará ao estado anterior e jamais emitirá o “mesmo som”. Além disso, nossas relações também se assemelham ao nosso quarto: precisam ser arrumadas constantemente. Assim como o tempo leva o quarto a estados de desordem — exigindo nossa energia para reorganizá-lo —, o mesmo ocorre com as relações, que, com o passar dos dias, tendem a estados entrópicos, de pequenas ou grandes desordens. Por isso, é necessário dedicar esforço contínuo à manutenção dos vínculos afetivos, mesmo que esse processo exija energia. Ainda assim, é preciso ter consciência de que algumas dessas relações podem, com o tempo, atingir um estado de irreversibilidade. Pois tudo avança, e algumas coisas jamais retornam ao estado primário. Da mesma forma, devemos seguir a lógica da entropia: que caminha apenas para frente, sem jamais retroceder. Precisamos deixar as situações passadas no passado e seguir em frente. Nossas vidas são constantes e entrópicas. Em alguns momentos, isso gera consequências irreversíveis, como ocorre nos processos físicos da termodinâmica. No entanto, esses momentos não devem nos aprisionar. Não devemos tentar colar um copo que já se quebrou, mas sim buscar um novo, deixando aquele que se partiu para trás.
Entrementes, é fulcral pontuar também que, como o poema expõe, devemos cuidar do que falamos. Muitas vezes, o silêncio se faz necessário para que, como já mencionado, não lancemos uma “bomba atômica” sobre alguém que amamos, provocando a “morte” de sentimentos genuínos. A compreensão da irreversibilidade das coisas nos leva a uma reflexão mais profunda sobre nossos atos. Dessa forma, compreendemos melhor por que o poeta valoriza tanto o silêncio:
“Cala, amigo…
Cuidado, amiga…
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre…
E é tão puro o silêncio agora!”
O ritmo do poema é pausado, transmitindo uma sensação de tensão — algo muito presente em momentos de conflito em nossas relações —, como se, a qualquer instante, algo destrutivo pudesse ser lançado. Podemos machucar pessoas com uma palavra, e a desordem pode acontecer em um relacionamento sem percebermos, da mesma forma que ocorre com a entropia, em que o caos, muitas vezes, é invisível, conforme descrito no texto.
Referências:
Tudo é poema. 29 de mai. 2023. Disponível em:https://www.tudoepoema.com.br/mario-quintana-cancao-de-vidro/. Acesso em: 11 de jul. de 2025.
Gabriel Padão é discente do curso de Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé. Atualmente, bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET).
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