Origem e Uso dos Pronomes Pessoais e o Papel da Escola

Mestranda Amália Josiane W. Rodrigues

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Fonte: mundoeducação.bol.uol.br

As escolas contemporâneas, em sua grande maioria, ainda seguem o modelo gramatical normativo deixando de lado os fenômenos linguísticos como se estes fossem algo a parte no ensino da língua portuguesa. Por esta razão, diz-se que a norma curta é a que predomina nas escolas, na mídia, nos cursinhos, etc. É usada essa terminação: “Norma Curta” porque nesse modelo de ensino traz o rótulo de certo e errado, desqualificando a língua escrita usada no Brasil e seus falantes. São regras que não refletem o português contemporâneo, um exemplo disso, é o desuso do pronome vós e ainda cobrado do aluno e dos pronomes você e a gente, que está cada vez mais sendo utilizado, no entanto, não é apresentado em sala de aula para que sejam estudados o seu uso e quais as suas funcionalidades na língua portuguesa.  

Ao longo dos anos, podem-se perceber várias mudanças na língua portuguesa brasileira. A essas mudanças atribuímos o nome de variação linguística. Dentre as variações destacam-se as mudanças que vêm sofrendo os pronomes pessoais do caso reto, que as gramáticas normativas apresentam: eu, tu, ele ou ela, nós, vós, eles ou elas. No entanto, o “vós”, atualmente, está em desuso, exceto, nos textos bíblicos. Em contrapartida, os pronomes ganharam mais duas formas: você e a gente que aparecem em concorrência com o tu/você; tu + eles/vocês; tu/ você/ele/ ela/ a gente e ainda muitas vezes no uso do “a gente” está incluído o eu  e também como uma indeterminação.

O pronome você era considerado um pronome de tratamento que sofreu algumas alterações a partir do uso pelos falantes passando a fazer parte dos pronomes pessoais do caso reto. De acordo com Lopes (2009, p.103): “Originada de uma expressão nominal de tratamento (Vossa Mercê) que leva o verbo de terceira pessoa do singular, a forma você manteve algumas propriedades mórficas que acarretam no rearranjo do sistema.” Sendo essas mudanças a nível dos pronomes oblíquos átonos, dos possessivos e reestruturação verbal. Já a expressão gente era classificada somente como substantivo coletivo da mesma forma que povo, grupo, multidão que podia ser flexionado para o plural, por exemplo: esta gente/ estas gentes. Porém com o passar dos anos essa forma de número plural acabou se perdendo. Assim como aconteceu em (mercê – mercês) Vossa Mercê que resultou com o passar do tempo em você, pronome de tratamento, e que atualmente, você passou a ser usado como um pronome pessoal, como já havia mencionado anteriormente.

No que tange à reestruturação verbal, as flexões verbais passaram de seis para três formas de flexão do verbo: conforme Lopes (2009, p. 104) “eu falo, tu/você/ele /a agente fala, vocês/eles falam.” Esse fato está fazendo com que o português brasileiro passe a ser uma língua com sujeito preenchido, isto é, torna-se indispensável o preenchimento do sujeito para que se possa saber qual o indicador de pessoa, pois somente a flexão verbal não está sendo suficiente para tal indicação.  Já o pronome você flexiona-se na terceira pessoa apesar de fazer referência à segunda.

Quanto às mudanças nos pronomes oblíquos dativo ou acusativo, o pronome você gerou uma mudança nas possibilidades de combinações que é considerada pelos gramáticos como uma mistura de tratamento ou falta de uniformidade no tratamento. Na verdade, essa “mistura de tratamento” se dá em prol da escrita e da fala para que seja desfeita ou que não haja qualquer ambiguidade sem que tenha prejuízo no entendimento. Conforme afirma Lopes (2009, p. 103):

“Algumas alterações afetam em cadeia as subclasses dos oblíquos átonos (pronomes-complemento) e dos possessivos, como ilustrado em (1)
(1) Você disse que eu te acharia na faculdade para pegar o teu livro.
Em que novas possibilidades combinatórias ( você com te, teu /tua) se tornariam usuais. Entretanto, os compêndios gramaticais rotulam (1) como “mistura de tratamento” e só aceitam as combinações propostas em 92)
(2) Você disse que eu o acharia na faculdade para pegar o seu livro.

Na visão tradicional, os gramáticos normativos classificam os pronomes pessoais em três pessoas indicadoras do discurso: quem fala, com quem se fala, e de quem se fala sendo que cada uma delas apresenta uma forma no singular e uma correspondente no plural, por exemplo: 1ª pessoa do singular, EU, corresponde a 1ª pessoa do plural, NÓS; 2ª pessoa do singular, TU, corresponde a terceira do plural, VÓS (está em desuso); 3ª pessoa do singular, ELE/ELA, corresponde a terceira do plural, ELES/ELAS. Como se pode perceber não estão elencados nas gramáticas normativas, tampouco considerados pelos gramáticos, os pronomes você e a gente, sendo essas duas formas muito utilizadas na linguagem coloquial que vem ganhando espaço nas últimas três décadas na norma culta.  Vale aqui ressaltar que entende-se por Norma Culta  um conjunto de fenômenos linguísticos variáveis que acontecem na fala e na escrita em ambientes mais monitorados por falantes de prestígio em que a sociedade atribui um valor social positivo a esse conjunto. Na verdade, na norma culta é refletida a língua contemporânea diferentemente do que ocorre com a Norma Padrão conjunto de regras que não reflete efetivamente a nossa língua, pois a codificação é relativamente abstrata, construída de forma artificial, baseada no modelo lusitano de escrita e de fala e é tida como ideal. Por esta razão, essa última não dá conta de nos orientar como falamos ou escrevemos tendo em vista, que a nossa língua é outra, isto é, o Português Brasileiro é diferente do Português Europeu.

Ainda, pensando no singular e plural idealizados pelos gramáticos há uma incoerência semântica quanto as respectivas correspondências, tendo em vista que um elemento X (no singular) é correspondente a mais de um elemento X (no plural) e não um elemento X (singular) é correspondente a um elemento Y (plural). Isto é, a incoerência está, por exemplo, na soma de eu+tu=nós, pois se trata de elementos distintos e assim respectivamente nas demais correspondências.

A partir de tudo o que foi mencionado anteriormente, os professores de línguas, principalmente o de língua portuguesa, deve levar em consideração o uso efetivo da língua para levar esses conhecimentos aos alunos. Não que não devam mostrar as outras formas da língua, mas dar subsídios para que os alunos possam conhecer a língua como um organismo vivo sujeito à mudança. Para que desconstrua aquela ideia de que o português aprendido na escola é como se fosse uma segunda língua, ou pior ainda, que os brasileiros não sabem falar português. Pensando nisso, podemos afirmar que cada língua possui uma gramática específica daquela língua, logo a gramática normativa não é espelho da gramática do português brasileiro contemporâneo, mas sim baseada no português europeu que não leva em consideração os fenômenos linguísticos da nossa língua: Língua Portuguesa Brasileira. E neste caso específico dos pronomes pessoais, cada vez mais vem aumentando o uso do a gente e do você e que não devem ser ignorados porque se está em uso é devido a determinada motivação funcional a qual preenche perfeitamente essa função e a escola tem a obrigação de acompanhar a evolução da língua sem que os alunos sejam privados deste conhecimento que não é algo novo, já que faz parte do uso no cotidiano. Assim, a escola apenas fará o reconhecimento destes e de outros fenômenos linguísticos como parte integrante da nossa gramática e que seu uso não está errado, mostrando que há uma mobilidade na língua como bem afirma Faraco (2008, p.__): “…caber ao ensino ampliar a mobilidade sociolinguística do falante… e não concentrar-se apenas no estudo de um objeto autônomo e despregado das práticas socioverbais (o estrutural em si).” A gramática normativa trata exatamente desta última parte, do estrutural em si.

Referências:

FARACO, Carlos Alberto. Norma culta brasileira: desatando alguns nós. São Paulo: Parábula, 2008;

LOPES, Célia Regina. Pronomes Pessoais. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues; BRANDÃO, Silvia Figueiredo (orgs). Ensino de Gramática, descrições e uso. São Paulo: Contexto, 2009.

QUINO. Tirinha Mafalda. Disponível em: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/gramatica/a-gente-agente-ou-ha-gente.htm. Acesso em 07/08/2017 às 13 horas e 15 minutos.

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