Corpo: objeto desarmônico

Por Maria Yaguna

Corpos, figuras que respiram: Não fomos ensinados a amar a totalidade do corpo, sua subjetividade, morada de sentimentos. Fomos doutrinados a silenciar o corpo, não permitir que ele navegue em sonhos ou vigílias. E dessa doutrinação nasce o profundo medo de mostrar o corpo, não de maneira a expor partes, mas de utilizar o corpo, deixado à margem (periférico em muitos casos), para nos impor no mundo e “ganhar” nosso espaço. 

O corpo é fábula, nele escondem-se os instintos para que possamos caber, estar, permanecer, carregado da moral sócio/cultural na qual crescemos. O sujeito, fabulado, perde a essência e vai fragmentando-se, assumindo o corpo em partes, dividido: como saltar à independência emocional se estamos presos a partes do corpo que, quando surpreendidas em ação, abraçam sentimentos de vergonha e culpa?

A palavra transmitida pelo corpo surge em muitos episódios de liberdade, mas, culturalmente, a cada palavra livre surge uma teia, capaz de agarrar o corpo que proferiu. A comunicação, valiosa para a evolução e o aprendizado, torna-se escassa, acaba por abafar-se na disputa de quem tem razão ou não e, utilizando uma frase do momento: “É sobre isso, e tá tudo bem”, mas não está e talvez nem seja sobre isso ou aquilo. O corpo falante está cansado, cansado de palavras que não dizem nada.É urgente o renascimento de um quem sou, tanto do corpo adormecido, quanto da palavra não dita. A emergência de um corpo em sua completude, centralizado ou colocado onde deseja ser visto, apreciado, saindo da invisibilidade, liberto, percorrendo paisagens internas de autoconhecimento e caminhos externos, desbravador do mundo, potente.

Maria Yaguna Psicóloga Clínica CRP RS 07/37122Pós graduada em Psicanálise Clínica. Arteira, mulher do meidomato, mãe da Carola e dos tililicos.

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