“Tocados pelo Fogo”, a beleza poética e transtorno bipolar

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Por Melissa Barbieri

One day the sun cast onto the world                   
to show its image in different light.
All the lines were in place
but in between no shape or shades,
just shadows of the past
cast against an aging brain,
fading with the sunset’s dying rays…
Wiping away all trace of yesterday.”

(Touched With Fire, 2015)

“Um dia o sol nasceu sobre o mundo

para mostrar sua imagem em luzes distintas.

Todas as linhas no lugar

mas entre elas nenhuma forma ou máscara,

apenas sombras do passado

projetadas contra um cérebro envelhecido,

sumindo nos últimos raios de sol

Limpando todo vestígio do dia findado.”

(Touched With Fire, 2015)*

Tocados pelo Fogo (título original, Touched With Fire) começa no outono com a poesia acima, declamada pela personagem Carla Lucia. “Alguém tem perguntas para a autora?”, questiona aquela que parece ser a mediadora do evento acontecendo nessa rápida primeira cena do filme. Nenhuma resposta. Apenas silêncio. Nos primeiros minutos e, em algumas outras partes do filme, o silêncio é quase uma presença. Em realidade, não exatamente o silêncio, mas a ausência de diálogos. Há sempre algum som, em geral poesias, ou sons de caneta ou lápis, já que os dois protagonistas do longa de pouco mais de 01:40 horas são poetas. Ambos também têm transtorno bipolar, e é explorando as nuances dos personagens, assim como da bipolaridade, que o filme acontece. Além disso, as cenas são acompanhadas por uma das trilhas sonoras mais simples e bem feitas que já vi/ ouvi, produzida pelo também escritor e diretor do filme Paul Dalio.

No último ano, esse foi o primeiro filme que vi, depois de muito tempo sem ver filme algum ou conseguir gostar de qualquer produto da sétima arte- ou de qualquer coisa. Brevemente falando, Carla, interpretada por Katie Holmes, e Marco, interpretado por Luke Kirby, são os protagonistas de uma história sobre saúde mental, amor e descoberta. Descobertas essas, tanto sobre si mesmos, quanto de um em relação ao outro nas diferentes fases de uma relação. No núcleo próximo ao casal vemos as suas famílias, lembrando ao espectador a importância do papel familiar. Inclui-se aí o apoio dado pelos pais a seus respectivos filhos, mas também a não aceitação das famílias em relação ao romance de Carla e Marco.

Em geral tenho receio de ver qualquer filme ou série que trate de transtornos mentais, porque tendo a achar um tanto caricato. Personagens sem uma personalidade que vá além do transtorno ou como se o transtorno fosse algo passageiro, que um ou dois eventos bons possam “curar” de repente. Tocados pelo fogo me conquistou não apenas por fugir dessa fórmula, mas a princípio principalmente por isso.

Paul Dalio, escritor do filme e portador de transtorno bipolar, se inspirou à escrita do longa metragem após ler o livro “Touched With Fire: Manic Depressive Illness and the Artistic Temperament.”. Este livro foi escrito pela Ph.D Kay Redfield Jamison que, aliás, faz participação especial no filme.  Como o título do livro de Jamison nos lembra, o transtorno bipolar foi por muito tempo chamado de “transtorno maníaco depressivo”, isto porque ele se caracteriza por episódios de mania (ou hipomania) e episódios de depressão. É em um episódio maníaco que conhecemos Carla e Marco, que possuem transtorno bipolar tipo I, no qual a mania se apresenta em sua forma mais severa (a forma menos severa é a hipomania, que caracteriza o transtorno bipolar tipo II).

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Vulgarmente falando, o transtorno bipolar não tem nada a ver com os posts engraçados, dramáticos ou em alguns casos mesmo (uma tentativa de) fofos, que vemos por aí. Ora se ama uma coisa ou pessoa, ora odeia. Ora está triste, ora feliz. Isso são apenas mudanças de humor normais que todo mundo tem ou pelo menos pode ter. Sim, essas ações mencionadas são caracterizadas por fazerem parte de polos opostos e, sim, apenas a palavra bipolar está atrelada à ideia de dois polos. O transtorno bipolar, no entanto, passa longe disso, é bastante complexo e creio que Tocados pelo Fogo representa extremamente bem muitas de suas particularidades.

No começo do filme, vemos ambos os personagens, principalmente Marco, em mania grave. O personagem é quase a personificação dos conceitos de euforia, agitação e ideias delirantes. Vemos ainda, ambos os personagens retomando a seu comportamento habitual, assim como em fase depressiva grave. Esses são, no entanto, backgrounds de uma história maior e quase hipnotizante. Nela, vemos a constante da figura de Van Gogh, ou melhor, da sua famosa obra “A Starry Night”. Vemos ainda, o nascer de uma relação ímpar e a beleza e feiuras de uma relação romântica bastante intensa e permeada por algumas diferenças minúsculas e outras gigantescas entre Marco e Carla Lucia.

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(Os personagens Carla e Marco em frente à pintura “A Starry Night”, de Van Gogh.)

Outra questão presente no filme é o da medicação psiquiátrica e seus dilemas. Uma das primeiras cenas do longa é dos personagens se livrando de sua medicação. De um lado, afirmam não se sentirem mais eles mesmos devido à efeitos colaterais bastante conhecidos de alguns remédios no início do tratamento, como diminuição de memória, sonolência ou (ao contrário) insônia, lentidão motora e de raciocínio. De outro lado, o tratamento lhes permite viver tendo relativo controle dos sintomas da depressão ou mania. Esta parte da história é contada de fundo, mas pode provocar identificação para aqueles que já utilizaram ou ainda tem de utilizar medicação em função de algum transtorno e não se adaptaram totalmente à eles.

Soma-se à essa lista cenas divertidas, de ação e outras extremamente tocantes. Não é por poucas razões que Tocados pelo Fogo continua sendo o único filme que vejo pelo menos de dois em dois meses- e que via (mais ouvia, em realidade) enquanto escrevia esse texto.

*Tradução minha

P.S: Touched with Fire está no catálogo da Netflix.

Fontes:

Site oficial do filme: touchedwithfire.com

Cartilha da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria): http://www.abp.org.br/portal/wp-content/upload/2013/10/Cartilha_ABP_2009_light.pdf

as pode provocar identificação para aqueles que já utilizaram ou ainda tem de utilizar medicação em função de algum transtorno e não se adaptaram totalmente à eles.

 

 

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