O vestido

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(Foto: Acervo pessoal)

Enfim chegou junho, um dos seus meses preferidos do ano. Tá, ela também gosta de outros, porque adora festas, como outubro, mês do seu aniversário, dezembro por causa do final do ano, acha linda essa ideia de renovação, de fechar um ciclo e começar outro. Ah, mas junho, junho tem um lugar especial em seu coração.

Era o dia da tão esperada festa, tinha escolhido sua roupa junto com sua mãe, na verdade nem teve escolha, era seu único vestido. Costurado pelas mãos enrugadas de sua vó, que apesar da idade, mantinha a mesma agilidade de quando começou sua longa carreira como costureira. Era lindo, cheio de flores que lembram a primavera, uma das suas estações preferidas, mesmo tendo renite. Além das flores, tinha detalhes nas mangas e na frente do vestido em lilás, sua cor preferida. Quanta amorosidade de sua vó ao pensar nisso. 

Levantou ansiosa, tomou banho, passou perfume e foi logo conferir o vestido, mesmo sua mãe dizendo que era cedo demais. Viu, lá estava ele, com seu fundo branco cheio de flores, cheirava a amaciante, pendurado no cabide pra se manter intacto como sua mãe tinha deixado. Ela não passava roupas, até hoje não faz, passa de um lado, amassa do outro, que trabalheira sem fim.

Não aguentou a ansiedade e logo se vestiu, prometeu pra sua mãe que não se mexeria, se fosse preciso, mas aquele vestido estaria intacto no horário da festa. Até que enfim chegou a hora de ir. Chegando lá, encontrou sua melhor amiga, brincaram, comeram pipoca, carrapinha – seu doce preferido destas festas- pularam fogueira. Houve até desfile, ela participou, exibiu orgulhosa seu vestido. Depois disso, escolheram a caipira da escola, sua amiga ganhou.

Achou estranho que ninguém elogiou seu lindo vestido. Será que foi porque era repetido? Mas o que que tinha, ele era lindo e feito com o maior amor. A festa durou mais um pouco, correu, brincou, foi um dia tão lindo. Sua mãe não a deixava correr, sempre ficava doente, mas nesse dia até abriu uma exceção, que dia especial. 

Aquele dia ficou pra sempre marcado em sua memória. Anos depois, revendo fotos antigas não é que encontrou uma foto desse dia. Na foto exibia um sorriso tímido e segurava a mão de sua amiga, todas as memórias vieram à tona com detalhes, quase conseguia sentir cada cheiro que emanava naquele ambiente. Mas um detalhe chamou sua atenção, detalhe que mesmo já tendo revisto essa foto muitas vezes nunca tinha percebido. O seu vestido, aquele do seu imaginário tão lindo, realmente era lindo, mas nada apropriado pra ocasião, era um vestido de prenda.

Todas estavam ali com seus chapéus de palha e seus vestidos curtos, e ela ali toda pilchada como dizemos, na hora achou um papelão. Logo, foi tirar satisfação com sua mãe. 

– Poxa, como tu foi fazer isso comigo?

– Tu não tinha outro vestido, mas te divertiu ou não? Isso que importa.

Ela sorriu. Não é que ela tava certa.

  • Em homenagem à minha mãe, e à minha vó Rosa. Duas mulheres fortes, que mesmo que a realidade fosse difícil sempre me proporcionaram imaginar e acreditar em outras realidades possíveis. 

Flávia é mestra em Ensino de Línguas, inquieta, otimista assumida, co-coordenadora do Lab. Interessada em aprender com tudo e todos.

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