A estrangeira em nós: o eu no espelho embaçado.

Por Maria Yaguna

Identidade e saúde psicoemocional são subjetividades que se emaranham no processo de pertencimento e tecem, junto a padrões socioculturais que se naturalizam, a mudança de lugar quando, ao invés de ser o sujeito da decisão, a decisão é o sujeito: Tornar-se diferente do que se é para agradar, fazer parte, conviver. A descontinuidade de si mesma se dá, mais cedo ou mais tarde, em todas nós.

É preciso compreender que em determinados momentos, nos afastamos do que é conhecido, assim como encontramos a nós (o diferente), em um “eu no espelho embaçado”. Nossa subjetividade e as relações sociais são alguns motivos de tal encontro: eu me vejo, mas não me reconheço. Quem é aquela no espelho?

O entrelaçado de emoções e sentimentos que se mobiliza no processo de não pertencimento tem consequências em várias áreas da vida, sobretudo a psíquica. E a negação dos cuidados mentais na mulher torna-se silêncio emocional protetor, em face do sofrimento e da solidão, uma pausa no tempo e no espaço até que se desenvolvam relações de confiança e ela possa, finalmente, dar seguimento à sua continuidade subjetiva.  

Pode-se perceber um processo de sujeição. Não adaptada, sujeita-se à condição sócio-política, resguardada por certa urgência, para a manutenção da (mínima) saúde mental (de forma não consciente), fazendo com que mais tarde possam surgir, a partir das falhas da formulação saudável das mudanças, sintomas emocionais de um luto mal elaborado.

Dentre os processos subjetivos que enfrentam muitas mulheres, está a cruel adaptação às situações de precariedade emocional nas relações, inclusive com a presença de vários tipos de violência e abusos, obrigando-se a estar ali, mas culpando-se por “esquecer” quem é. 

Implicações como ansiedade, medo, insegurança, inquietude, condutas agressivas, atitudes defensivas, dificuldade de tomar decisões e muitas reações pressupostas são entendidas como manifestações clínicas nos processos de não-pertencimento e posterior adaptação. Esses efeitos tendem a diminuir com o tempo se a mulher encontra amparo emocional. 

A mudança na posição subjetiva se dá quando a mulher entra em contato com seus conteúdos reprimidos de forma saudável, manifestando sua essência ao mundo, através da aceitação da própria mudança, da manutenção da saúde e da luz no fim do túnel que se acende para muitas, desembaçando o espelho, descobrindo a si mesma, seus gostos, seus talentos, sua liberdade.

É necessária uma certa qualidade de presença para que a mulher se fortaleça, essa presença pode ser a de outras mulheres que já limparam seu espelho, um trabalho que a liberte, deixe a autoestima fortalecida.

Infelizmente muitas mulheres vivem “nem aqui, nem lá”, na prisão da irregularidade emocional, a condição de (des)identidade e a paralisia frente a inúmeras desfragmentações, despedaçam o eu frente ao espelho.  

A estrangeira em todas nós sofre com a descontextualização de ser quem é, fato que contribui para a invisibilidade: as miudezas da vida cotidiana perdem o sabor, a mulher afasta-se do íntimo, adapta-se ao que o mundo espera dela e esse é um preço muito alto que tem a pagar.

O corpo feminino, muitas vezes estrangeiro e periférico, é o que extravasa o biológico, é social/subjetivo, constituído da história da mulher: sempre marginal, fronteiriço, à mercê das vontades de uma sociedade que a despreza.

O corpo é o “próprio”, a primeira pessoa, representação do inconsciente, dos significados, habitado por fantasmas do passado de sua trajetória. Por isso é tão importante a palavra, que ajuda a decifrar a dor não dita, por isso é tão importante a voz, que atravessa o corpo que a carrega, desvelando sensibilidades, permitindo subir à superfície do próprio corpo estrangeiro e libertar-se.

Através da aceitação, o espelho torna-se nítido e limpo, o eu do outro lado é uma paisagem humana, povoada de belezas e esperança, força e qualidades. À estrangeira que vive em nós devemos dizer: nunca é tarde para ser quem somos, existe um caminho possível de seguir, quais são os passos que devo dar em sua direção?

Maria YagunaPsicóloga ClínicaCRP RS 07/37122Pós graduada em Psicanálise ClínicaArteira, mulher do meidomato, mãe da Carola e dos tililicos.

Comentários
  1. Luiza Schafer

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