3 considerações básicas para reconstruir a forma de se relacionar consigo e com o outro/ Coluna Saulo Eich

Imagem criada pelo autor

Imagem criada pelo autor

 

Por Saulo Eich

Interpretar o que se lê no outro. Esse é o primeiro e importante ponto. Cada pessoa passa, através de suas condutas, suas ações e também de sua fala,  mensagens que requerem capacidade interpretativa. Tem muita gente que fala A querendo dizer B, seja por uma inabilidade na hora de se expressar, seja porque encontra no tergiversar uma forma de se defender, seja pelo que for. A mensagem nem sempre vem numa escrita legível, numa fala ‘reta e direta’. As falhas de comunicação entre as pessoas produzem, com tamanha facilidade, mágoas e desentendimentos. Podam oportunidades e enfraquecem laços. 

Um segundo ponto que destaco se refere à recorrente mania de se comparar ao outro. O fator comparativo produz tantas distorções que, se soubéssemos, talvez faríamos um esforcinho extra pra começar a abrir mão desse ‘mecanismo’ em nosso dia a dia. E é bastante simples entender o porquê de ser tão nocivo medir a nossa vida tendo o outro como parâmetro: porque cada um de nós conhece a desordem da própria vida. Não só a nossa ‘arrumação’, mas também as nossas ‘bagunças’. Em outras palavras, o equilíbrio e o caos que nos habitam.  E é aí que entra o que vemos do outro: muito mais ordem do que desordem. Muito mais ‘arrumação’ do que ‘bagunça’; muito mais equilíbrio do que caos. Afinal, ninguém quer se mostrar por inteiro, preferindo omitir algumas partes ‘feias’. Nesse sentido, é esteticamente mais ‘bonito’ mostrar uma vida no caminho da perfeição. Mas, do mesmo modo, é humanamente impossível ter essa vida, digamos, ‘perfeita’. Só que as pessoas maquiam, controlam, selecionam e colocam filtros nas fotos que vão para as redes sociais. E a gente se olha no espelho de casa – que não tem o recurso do filtro – e se compara com o quê? Com aquela ‘superfoto’, carregada no filtro, que a pessoa postou. Essa comparação toda não seria um exercício de autodepreciação? Para nos agredirmos, nos machucarmos, nos desprezarmos? Por isso, é incompatível comparar-se. É injusto consigo mesmo. 

E daí, trago um terceiro ponto: ser mais generoso consigo e, quando possível, com o outro também. E explico o que quero dizer: um inseguro não é ‘só’ um inseguro, mas também um indivíduo autoconfiante em alguma situação. O depressivo não é ‘somente’ um depressivo, mas alguém que, em algum momento, consegue se sentir suficientemente feliz. O mentiroso não é ‘só’ um mentiroso, mas alguém que, em algumas circunstâncias, também é verdadeiro. A pessoa tóxica não é ‘somente’ uma pessoa tóxica, mas alguém com, no mínimo, condições de aprender, rever e mudar comportamentos tóxicos. O problema é que a gente vê essas questões – em nós e no outro – como vereditos, como algo pronto, acabado, impondo, assim, um aspecto limitante a tudo, não crendo justamente naquilo que geralmente desejamos: as mudanças necessárias. Quando alguém tem um comportamento entendido como inadequado ou tóxico, é mais fácil ‘cancelarmos’ (seguindo a linha da nova cultura do cancelamento em vigor nas redes sociais) a pessoa tóxica do que fazermos, ao menos, uma tentativa de oportunizar um aprendizado através do erro. E é assim que acontece com quase tudo hoje em dia. A cultura do ‘cancelamento’ expõe uma tolerância menor com equívocos históricos que precisam ser corrigidos, mas nos faz esquecer, muitas vezes, que, nem nós e nem os outros, nascemos desconstruídos e que, se quisermos esse mundo melhor como almejamos, muitas vezes vamos precisar ser agentes de transformação desses equívocos e não simples ‘agentes do cancelamento’.

Ler o outro com a intencionalidade real de compreendê-lo; entender que entre eu e o outro existe uma infinidade de variáveis que inviabilizam o recurso comparativo entre nós; e encarar a difícil missão de selecionar o que é passível de se ‘cancelar’ e o que é digno de possibilitar uma desconstrução do erro, através do aprendizado com o próprio erro, são 3 pilares básicos para as relações humanas e 3 exercícios necessários a todos, inclusive a mim.

Até o mês que vem!

*

junipampaa

Saulo Eich é psicólogo clínico infantil e adulto,  de abordagem Cognitivo Comportamental, em Bagé/RS.

Comentários

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado.

Junipampa