Sobre metades de laranjas, almas gêmeas e por que meter a colher em briga de marido e mulher

“Sei que é clichê, mas você está assim porque só será realmente feliz quando encontrar sua alma gêmea”, me disse, te disse, disse pra sua amiga/mãe/colega alguém, alguma vez na vida, mesmo que não exatamente com essas palavras. Alguém na TV, na sua casa, na sua escola e em qualquer outro lugar que possa te passar pela cabeça, te disse também que você só será completa/o quando encontrar “aquela pessoa”. Aquela, que fará dos seus problemas algo insignificante, que te fará feliz e que preencherá sua vida. Alguém te disse que sem essa pessoa, você até pode ser bem sucedida/o, mas nunca será feliz. Alguém te disse que ruim com ele/a, pior sem ele/a; que se a pessoa te trata assim, é normal, e que se ela não assume o relacionamento e parece ter vergonha de você, pare de ser chata/o, por favor, pelo menos você tem alguém. Alguém basicamente te disse que você precisa dessa pessoa porque “por amor a gente aceita tudo”, porque “sem ela sua vida não faz sentido”, porque “ninguém mais vai te querer” ou simplesmente porque “já estão há tanto tempo juntos, não joga tudo isso fora SÓ porque você está infeliz com o relacionamento”.

Esse alguém te dizendo todas essas coisas talvez seja você mesma/o, tentando se convencer do que não vale a pena desistir; talvez seja exatamente a pessoa em questão, aquela que ruim com ela, pior sem ela; talvez seja alguém próximo. Mas nenhum desses pensamentos vem do nada, surge do nada, eles vêm de algo invisível, algo que se chama idealização. E a idealização, por sua vez, vem da nossa bagagem cultural. E por bagagem cultural, nesse caso específico, falamos daqueles filmes que víamos quando crianças em que alguém tem que nos salvar porque nós, mulheres, não somos capazes de nos proteger e porque homens devem ser fortes o tempo todo. Mais tarde, naquelas conversas onde ouvíamos que okay, tudo bem trabalhar, mas nada nessa vida te fará mais feliz do que ter e se dedicar à sua família; ou que ninguém é completamente feliz sozinho. Mais do que isso, em todas as vezes que alguém diz que a fulana só pode ser muito egoísta, amor exige sacrifícios e se você não sofre, não chora, não abre mão (muitas vezes de você mesma) nunca amou de verdade, mal sabe o quanto é vazia por não ter alguém e uma hora vai descobrir o quanto é infeliz e aí vai ser tarde demais. E também tudo que sabemos, ouvimos, lemos sobre sermos uma metade que está nesse mundo à procura de uma outra metade e quando a encontrarmos, todos nossos problemas se resolverão. Mas ninguém fala o papel do amor próprio no meio de tanto amor e dedicação pelo outro.

Tratando dessas e de outras questões, aconteceu no IFSul- Bagé, dentro da programação do ENCIF (2° Encontro de Ciência e Tecnologia do IFSul Campus Bagé), a roda de conversa Violência de gênero: a invisibilidade da violência psicológica e as idealizações do amor romântico. A roda teve como convidadas a Profa Dra Jane Felipe, Lélia Quadros, do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, profa Cassia Rodrigues e a delegada da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Bagé (DEAM), Carén Nascimento. O evento discutiu desde a construção cultural e social do amor romântico, passando pelo abuso psicológico e chegando às diversas outras formas de violência de gênero, assim como o trabalho da (s) Delegacia (s) da Mulher na punição a acusados de agressão.

Dos diversos assuntos abordados no evento, um dos que mais prendeu atenção do público, provocando reações diversas, foram as relações de gênero desde a infância e de que maneira tais relações podem influenciar nossas atitudes futuramente em nossos relacionamentos. Confuso? Nem tanto. Pense, por exemplo, em todas as vezes que você ouviu quando criança que aquele coleguinha que te maltratava de alguma forma, te tratava assim porque “gostava de você”. Ou nas vezes que ouviu que sua mãe/ avó, como mulher, devia se esforçar e se dedicar para que a família desse certo.“Homem não tem paciência pra essas coisas”, diziam. Ou que “quem ama, cuida” e, portanto, é normal que a pessoa queira controlar suas companhias, sua roupa e suas ligações, ela só está te protegendo e mostrando que se importa. Pense agora em todas as situações em que podemos projetar tais pensamentos em um relacionamento. Por exemplo, quando um companheiro/a te faz sempre sentir culpada e te pune, ou com indiferença ou ameaçando terminar o relacionamento, por exemplo, se você usar determinada roupa, ou sair com suas amigas, ou beber, etc, simplesmente porque ele não aprova tais coisas e você deve (mesmo que não dito exatamente com essas palavras) obedecê-lo.

Foto divulgação Facebook.

Foto divulgação Facebook.

O colega que maltratava “porque gostava de você”, por sua vez, poderíamos projetar mais visivelmente no marido/namorado agressor. Não, não porque o tal colega vá necessariamente virar um agressor (embora aqui seja necessário cuidado dobrado dos pais, uma vez que comportamentos como esse são muitas vezes banalizados e tem sim consequências na personalidade futura da criança), mas pela filosofia do “trata mal porque gosta” que observamos em tal situação e que é utilizada como argumento para justificar companheiros agressores inúmeras vezes. E com isso, vem também outra questão relacionada a relacionamentos abusivos: a defesa do agressor. Seja diretamente, argumentando que ele tem direito de fazer tal coisa, por exemplo, ou indiretamente, observada principalmente em argumentos dos mais diversos culpabilizando a vítima.

A respeito de ambas as questões, a Profa Dra Jane Felipe, assim como a delegada Carén Nascimento, trouxeram inúmeros relatos e impressões que focaram principalmente na questão da violência doméstica e das ameaças. De acordo com dados da Delegacia da Mulher de Bagé, apenas de janeiro a outubro de 2015 foram realizadas 347 denúncias contra ameaças e 196 contra lesão corporal. Além disso, dois casos de estupro foram levados à delegacia nestes últimos 10 meses na cidade.

Como demonstraram os dados levantados no evento, as denúncias tem aumentado, mas inúmeras questões ainda ficam. Uma delas, levantada pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) desse ano e talvez respondida em parte também pela reação negativa e até violenta de muitas pessoas ao defenderem como tema que não merece atenção ou que não deve ser debatido publicamente, é a persistência da violência contra a mulher. Outra é a de todas as vítimas que retiram as denúncias ou aquelas que nem mesmo tiveram coragem para denunciar pela primeira vez. Fica também a questão daquelas que estão em um relacionamento que não deixa marcas visíveis ou que sofrem violências tão silenciosas que não podem ser denunciadas para uma delegacia.

Para os dois primeiros casos, ligar 180 é uma das respostas que podem ser encontradas mais urgentemente. Se formos nós as agredidas, que denunciemos e se estivermos testemunhando uma agressão, que denunciemos também. Tal decisão, no entanto, não é tão fácil quanto parece, não é tão automática, em alguns casos parece tanto para a vítima quanto para alguém que testemunha (filhos principalmente), não ser nem mesmo viável. Nesses casos, o apoio é fundamental, tanto das políticas públicas como das pessoas próximas. Como levantado por Lélia Lemos durante o evento “Violência de gênero: a invisibilidade da violência psicológica e as idealizações do amor romântico”, o medo e, em muitos casos, a constatação da rejeição e desaprovação da família (mãe, pai e/ou filhos), amigos ou da sociedade em geral, é um dos principais motivos que levam mulheres a não denunciar, retirar denúncia e/ou não se separar de seus agressores. Soma-se isso a dependência financeira, uma vez que muitas mulheres deixam de estudar ou trabalhar para dedicar-se à família, ou que trabalham, mas não recebem o suficiente para sustentar sozinha a casa e os filhos. Há também a questão da dependência emocional, fator ligado à idealização do amor romântico e falta de autoestima, e que é de extrema importância para entendermos problemas como a violência doméstica e a violência psicológica, mas ainda pouco ou nada debatido.

Para aquelas que sofrem qualquer tipo de violência psicológica ou que desconfiam estar sofrendo, estar atenta a alguns sinais é de extrema importância. Cássia Rodrigues e Jane Felipe destacaram alguns deles durante sua fala no mesmo evento, e nós adicionamos mais alguns na lista a seguir, tendo como base o texto “Mas… isso também é abuso?”, de Bruna de Lara, no blog Não me Kahlo*. As ações típicas de um relacionamento abusivo ocorrem em geral por repetidas vezes e não ocorrem somente em relacionamentos heterossexuais. Alguns dos sinais são:

– Ameaçar violência física;

– Gritar com você;

– Te agride, desde beliscões, empurrões, puxões de cabelos, te sacudir, até socos e chutes;

– Te pressionar ou chantagear para ter relações sexuais com você;

– Empurrar você, te impedir de se mover ou segurar seu rosto para olhar para ele;

– Falar muito de seus motivos e pouco de suas ações, desviando o foco, fazendo você acreditar que  qualquer ação violenta que ele cometa contra você são justificadas.

– Fazer você acreditar que pode mudar seu comportamento agressivo e fazê-la sentir-se culpada por não salvar o agressor de si mesmo.

 

Outras formas de violência psicológica são ainda mais silenciosas, como:

– Controlar suas roupas, horários, costumes e amizades;

– Falar mal de você na frente de outras pessoas, tentando te diminuir perante elas;

– Te “punir” quando não tem o que deseja. Te tratando com indiferença, silêncio, ficando vários dias sem responder suas mensagens ou te chantageando, por exemplo, prometendo que te verá mais vezes se fizer o que ele/a quer, mas caso contrário, não terão contato por tempo determinado por ele/a;

– Te humilhar, falando mal da sua aparência e diminuindo suas conquistas pessoais e profissionais;

– Ligar inúmeras vezes, mandar mensagens e vasculhar seu celular para controlar o que você está fazendo e com quem está falando;

– Nutrir expectativas de um relacionamento, mas demonstrar vergonha de assumir relacionamento ou de você como pessoa, seja demonstrando distância quando estão em público ou se negando a aparecer em qualquer foto com você, mas não com outras pessoas.

– Rotular seu ponto de vista como louco ou irracional a fim de desacreditá-la.

 

Não é necessário que todos esses sinais estejam presentes em seu relacionamento para ele ser abusivo e em qualquer que seja o sexo, idade, religião, etc, compreender que a culpa não é da vítima (sua) talvez seja a primeira e mais importante atitude a tomar. Independente de quem seja o agressor e de quem seja a pessoa agredida, a culpa jamais será de quem sofre a violência.

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Foto: Imagem da página Empodere Duas Mulheres.

Sobre almas gêmeas e laranjas pela metade, entender que somos inteiras/os e só como tal poderemos ter um relacionamento saudável, é essencial. De todas as coisas clichê que alguém pode dizer, “amar você mesma/o” é uma daquelas que são extremamente úteis, mas também difíceis. É uma longa caminhada, longa o suficiente para se quase desistir muitas vezes, mas necessária, principalmente tendo em vista o grande risco de entrarmos em relacionamentos com pessoas abusivas que se valerão muitas vezes exatamente da nossa baixa autoestima ou tentando diminuí-la sempre que possível.

A violência de gênero está infelizmente ainda muito longe de acabar, mas um longo caminho já foi percorrido e não podemos retroceder. Esteja atenta aos sinais que seu parceiro/a dá e procure ajuda, seja na sua família ou com amigos. Se não se sentir confortável para tal ou não tiver a quem recorrer, saiba que você tem a quem pedir ajuda:

Ligue 180, para a Central de Atendimento à Mulher. Há somente atendentes mulheres, que tirarão dúvidas, darão orientações e caso você deseje, realizam também denúncias de agressão. A Central de Atendimento à Mulher realiza tudo de forma sigilosa e segura e em caso de denúncia não precisa necessariamente ser aquela que está sofrendo a agressão. Denúncias de terceiros também são atendidas e qualquer pessoa pode ligar para pedir orientação.

Em caso de abuso infantil, você também pode ligar 180 e será encaminhada/o para o disque 100 (Disque Direitos Humanos) ou ligue diretamente para o disque 100, sendo ambas sigilosas e seguras.

Para mais informações sobre relacionamento abusivos, você pode acessar o site Livre de Abuso, que possui página no Facebook com mesmo nome: http://www.livredeabuso.com.br/ . Lá, você pode tirar dúvidas, ter ajuda com questões jurídicas e/ou psicológicas, acessar diferentes matérias sobre o tema, assim como mandar seu relato e desabafar.

Para conhecer endereço da Delegacia da Mulher mais próximo, acesse: https://sistema3.planalto.gov.br/spmu/atendimento/busca_subservico.php?uf=RS&cod_subs=11

E lembre-se: você não está sozinha.

Ligue 180

*Texto “Mas… isso também é abuso?, disponível no seguinte link: http://www.naomekahlo.com/#!Mas-isso-tamb%C3%A9m-%C3%A9-abuso/c1a1n/555aa2ce0cf23d0164a55ccd

Escrito por Mariana Grego e Melissa Barbieri, bolsistas do Laboratório de Leitura e Produção Textual- LAB (PROEXT-MEC).

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