“TU TEM” OU “TU TENS”: VARIAÇÃO DA CONCORDANCIA VERBAL NO PORTUGUÊS (BRASILEIRO) E NO ESPANHOL

Ana Paula F. Seixa

 

Neste exato momento, ao digitar “tu tem” o corretor da ferramenta de edição de textos, a qual estou utilizando, acusou como “errada” tal concordância entre pronome pessoal e verbo. Eis que surgem as questões: há quem fale “tu tens” todo o tempo? É possível considerar um erro quem fale de outra forma? Este texto propõe uma singela discussão sobre o assunto.

Não são perguntas tão difíceis de se responder, já que se trata de um fenômeno variável da língua portuguesa: os falantes fazem construções sintáticas combinando o uso de 2ª pessoa do singular com o verbo na 3ª do singular. Tal hibridismo ocorre, frequentemente, sobretudo no sul do país. Os gaúchos costumam utilizar o pronome de segunda pessoa “tu” com mais recorrência, que “você”. Sabendo que as gramáticas normativas ditam as regras de uso da língua portuguesa, é muito fácil perceber que há uma conjugação “adequada” para cada pronome pessoal. Uma coisa é o que a gramática diz, outra é o que nós, falantes da língua, fazemos com essa regra.

Na fronteira, ouvimos muito a tal expressão “fulano fala atravessado”, como se houvesse “erro” na língua. Na verdade, parafraseando as palavras de Marcos Bagno – linguista, autor do livro “Preconceito linguístico” – o que realmente existe é variação, mudança, algo totalmente natural, quando percebemos a língua como elemento vivo, que flui e se transforma ao longo do tempo. Pensando na história dos pronomes pessoais, podemos recordar que houve uma evolução em seus usos.

Quando os portugueses chegaram ao Brasil, o “tu” também pisou neste solo. Era o pronome mais utilizado naqueles tempos remotos, mas com o tempo perdeu espaço e acabou se restringindo a algumas regiões do país, como o RS. Já o você, pronome de segunda pessoa (embora o verbo não apresente marcas de 2ª p/s), é fruto de um processo de variação linguística ainda mais longo: vem de “Vossa Mercê”, que se tornou “vosmecê” e por fim você. Por fim? Não exatamente, pois há quem diga “cê” e, pensando na correria do mundo atual, onde há pouco tempo para se dizer tudo o que se considera importante de ser dito, na internet, o uso do “vc” tornou-se muito comum entre usuários das redes sociais, por exemplo. O “vc”, abreviação de você, também é usado por falantes que, oralmente, utilizam o tu. Curioso? Nem tanto, já que a língua é isso mesmo: viva, fluida, variável, resultado das interações humanas.

Se a gramática nos dá a instrução de concordar pronome e verbo adequadamente, conforme cada conjugação, quando voltamos à pergunta: “há quem fale tu tens todo o tempo?”, podemos afirmar que sim, há quem faça essa construção, porém não é o uso mais comum. O que mais se ouve/lê no dia a dia, aqui no sul, é “tu pode”, “tu tem”, “tu podia”, “tu fez”… Então cabe retomar a segunda pergunta lançada no início do texto: “é possível considerar um erro quem fale de outra forma?” Não, não se pode chamar de erro, pois, como discutido anteriormente, não há erro na língua, apenas variação. Logo, não há problema algum com esse hibridismo, tão comum e totalmente “entendível” entre os falantes brasileiros.

“Puxando brasa pro assado” da língua falada nos países hermanos, esse mesmo fenômeno ocorre com os usos de “tú”, “usted” e, ainda, “vos”, no espanhol. O tú e o vos como segunda pessoa do singular e o usted como terceira, que com maior ênfase na oralidade, se mesclam sintaticamente. Isso acontece, sobretudo, na região rio-platense (Uruguai e Argentina). O processo acontece com o uso do pronome tú combinado com o verbo conjugado no vos, ambos de segunda pessoa do singular, porém o último, em muitas gramáticas da língua espanhola, sequer aparece como pronome. Assim, se diz: tú podés, tú querés, tú tenés… Para muitos falantes da língua espanhola, de outros contextos, isso é considerado inadmissível e motivo de piada.

Ainda comparando os dois idiomas, assim como o português, o usted, no espanhol, é considerado formal, enquanto que o tú e o vos (este, usado quase que exclusivamente no Uruguai e Argentina) são considerados pronomes informais pelas gramáticas de língua espanhola (a maioria dos hispano-falantes têm isso muito claro, quando se comunicam – diferentemente dos uruguaios e argentinos, que, através das classes sociais mais baixas, quiseram ser autênticos, se apropriando daquilo que só a elite espanhola utilizava em contextos totalmente formais: o vos). Dá para retomar: uma coisa é o que gramática normativa diz sobre o uso da língua, outra é o que o povo faz com ela na prática.

O povo do sul das Américas (sem generalizar, é claro) se destaca por ser “diferentão” do resto do mundo. Há quem deboche do nosso jeito de se expressar. Seja no espanhol ou no português, o hibridismo existente é tão natural, quanto a luz do dia. Uma riqueza cultural que mostra que na língua nada é estanque, nada é fixo e determinável: tudo é mutável. Não cabem preconceitos ou privilégios. Ou tu ainda tem dúvida disso? (Sim, corretor, continuará assim, tu tem, só pra causar!)

 

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